A CAMINHO DO ALTAR
Violet Winspear
Edio de Colecionador n 28


Copyright (c) 1984 by Violet Winspear
Originalmente publicado em 1984 pela Mills & Boon Ltd.
Ttulo original: Bride's Lace
Publicado originalmente pela Editora Nova Cultural em 1985
Traduo: William G. Clark







CAPTULO I
Ao entrar no Clube Cassandra, em Mayfair, Beth, lembrou-se da estranha histria que madame Lilian havia lhe contado. Ali, na Curzon Street, dizia-se que perambulava 
o esprito de uma florista que deixava no ar um perfume de violeta.
Ela sacudiu as gotas de chuva de seu casaco de peles, achando que, numa noite como aquela, certos lugares de Londres tinham de fato uma aparncia mal-assombrada, 
que dava asas  imaginao.
Havia um grande espelho vitoriano no vestbulo do clube, e ela parou em frente a ele por um momento para se admirar, seus olhos eram muito grandes para o rosto delicado. 
Com aquele ar ansioso e inseguro, ela parecia vulnervel demais, apesar do casaco de peles que cobria o seu vestido longo de seda.
Beth o comprara numa loja de artigos de segunda mo, e era a primeira vez que o usava. Tivera esperanas de que ele lhe desse um ar mais seguro, porm no havia 
como esconder o fato de que estava se sentindo muito nervosa.
Quando telefonara para marcar aquele encontro com o grego Alexis Apollonaris, ele lhe dissera que estaria no clube s nove da noite, em ponto. No precisou explicar 
por que desejava v-lo, ele j esperava que ela fosse procur-lo.
O clube localizava-se na Curzon Street, e era uma das casas de jogos mais antigas e sofisticadas da cidade. O atual proprietrio o havia decorado de novo, devolvendo-lhe 
a mesma aparncia que tivera no tempo vitoriano, usando mveis de mogno e de metal. A escada que levava ao escritrio do proprietrio era vermelha, e dava num corredor 
com belos lustres de cristal.
Ao percorrer o corredor silencioso em direo  porta do escritrio, Beth sentiu as pernas trmulas de apreenso. Ouvia um murmrio distante de vozes vindas das
salas de carteado, onde turistas milionrios se divertiam, arriscando grandes fortunas.
Ela no sabia como iria convencer Alexis Apollonaris a ter pacincia com Justin, mas estava determinada a tentar. De qualquer modo, ele no poderia tratar-lhe mal, 
uma vez que lhe propusera casamento, h dois anos. A menos,  claro, que guardasse rancor por ela ter recusado a proposta.
Ao chegar diante da porta, ficou parada por um momento, reunindo coragem para se defrontar com ele. No o via h muito tempo, e precisou de todas as suas foras 
para pressionar a campainha. Um som estridente quebrou o silncio, e ela girou a maaneta, entrando na sala onde Alexis a esperava.
Ele estava de p, os ombros largos se destacando contra as cortinas cor de vinho que cobriam as janelas, deixando a chuva e a escurido do lado de fora.
Com um ar dominador, Alexis mediu-a da cabea aos ps, tornando o ambiente ainda mais tenso. Imediatamente, Beth comeou a se sentir incomodada diante daqueles olhos 
ameaadores, que davam a impresso de nunca terem conhecido a ternura. A linha do nariz era totalmente reta, um trao distinto dos gregos. Os lbios davam a impresso 
de jamais terem articulado uma palavra. A figura daquele homem emanava uma fora que invadia toda a sala, e isso deixou Beth com medo.
- Ento nos encontramos de novo, srta. St. Cyr. - O tom spero e metlico com que Alexis falou oprimiu ainda mais o corao dela. - Quanto tempo faz desde que nos 
vimos pela ltima vez? Dois anos, creio, se no me falha a memria.
Que a memria dele nunca falhava, disso ela tinha certeza. E, mesmo antes de falar, Beth podia pressentir que sua voz iria trair o estado de nervos em que se encontrava.
- Eu... creio que deve ser isso mesmo, sr. Apollonaris - disse com voz rouca, sentindo a garganta muito seca.
- Parece que voc est precisando de uma bebida, minha querida.
Ele foi at o bar e pegou uma garrafa de vinho e duas taas. Apesar de ser um homem alto e forte, seus movimentos eram harmoniosos. Alexis serviu a bebida com mos 
firmes, embora Beth soubesse da raiva que ardia dentro dele.
- Sente-se - ordenou ele, num tom imperativo, apontando para uma cadeira revestida de couro, prxima  sua mesa de trabalho. - E, por favor, fique  vontade.
Ele estava sendo irnico, pois tinha conscincia do nervosismo dela.
Beth se aproximou da cadeira e sentou-se, mas no tirou o casaco porque temia que aqueles olhos fitassem o seu vestido de seda.
Devia ter ido jantar com madame Lilian, mas havia lhe telefonado inventando a desculpa de que no estava se sentindo muito bem. Porm, naquele exato momento, sozinha 
com Alexis Apollonaris, sentia mesmo uma espcie de vertigem.
- Tome um pouco - disse Alexis, colocando a taa com vinho em suas mos. - Voc est muito plida, querida. Daqui a pouco estar com uma aparncia melhor!
- Obrigada - ela murmurou.
O gole do requintado vinho desceu-lhe macio pela garganta. Se era mesmo verdade o que contavam, Alexis tinha tido uma infncia repleta de privaes mas era evidente 
que, agora, no dispensava nenhuma das vantagens que o dinheiro podia lhe proporcionar. Justin estava equivocado quando dizia que o nico prazer daquele homem era 
ganhar dinheiro. No, ele tambm sabia gast-lo muito bem.
- Est se sentindo melhor? - Aps ter-se sentado atrs da mesa, Alexis olhou para ela, e sua figura parecia tomar conta de toda a sala.
Como pudera imaginar que conseguiria convenc-lo de que Justin merecia uma chance, quando na verdade seu irmo era um trapaceiro que devia ser punido?
- O vinho  muito bom - ela conseguiu dizer. No sabia como comear a conversa sobre o motivo que a levara at ali. Seria melhor no ter vindo. Agora, entretanto, 
era muito tarde para voltar atrs.
- Quer que eu facilite um pouco as coisas para voc? - Alexis Apollonaris inclinou-se mais para a frente. - Voc veio at aqui a pedido do farsante do seu irmo, 
certo? Ento, ele quer se proteger atrs da saia da irm, hein? Ele a empurra para dentro da arena, enquanto fica sentado num balco de bar, confiante de que sair 
impune dessa situao toda, porque a mocinha cair nos braos da fera. No  isso?
- No  bem assim, Sr. Apollonaris.
O olhar dele parecia penetr-la: Era o ardente olhar de um daqueles gregos de corpo perfeito que inspiraram escultores como Rodin. Um homem de muita fibra, que havia 
feito a prpria fortuna e que no estava nem um pouco disposto a abrir mo de uma soma de dinheiro roubado, que chegava a milhares de dlares.
- Ento me explique, srta. St. Cyr - pediu ele, num tom levemente sarcstico. - Eu seria capaz de jurar que seu irmo a est servindo numa bandeja, em troca de livrar 
a prpria pele.
Beth estremeceu. Sabia que a impresso que estava dando era exatamente essa, a de que estava se oferecendo em troca da promessa de que Justin no seria processado.
- Eu... vim tentar faz-lo compreender por que Justin  do jeito que . Ele no tem a sua fora de carter... Para o senhor, perdoar as fraquezas de um rapaz sem 
juzo no deve mesmo ser fcil...
- Mocinha, no adianta querer me agradar com elogios. O que voc no deve esquecer  a fora da minha ira. - Ele falou de maneira incisiva, e Beth teve ento a confirmao 
de que aqueles modos gentis, na verdade, encobriam um corao de pedra. Alexis levantou-se e encheu novamente a taa dela de vinho.
- O senhor tem todo o direito de estar furioso, mas... acha que recuperaria seu dinheiro mandando Justin para a priso?
- Dificilmente. - Os olhos de Alexis cintilaram. - Mas teria a satisfao de ver aquele ladro atrs das grades. Voc no gosta que o chame assim, no , Beth? Estou 
vendo, pela sua expresso, o desgosto que isso lhe traz. Mas voc no pode esperar que eu deixe isso tudo de lado. Nesse caso, eu no me chamaria Alexis Apollonaris. 
Nas minhas veias de grego corre o sangue turco tambm. Voc sabe o que isso significa, no? Alm disso, ainda sou defensor da ekthekissis.
Ela tomou um gole de vinho e o olhou, sem entender.
- Ekthekissis, na lngua grega, significa justia vindicativa, isto , lei  lei, e se existe  para ser cumprida e respeitada.
Beth suspirou, desanimada. Justin estava mesmo em maus lenis. Nenhum gesto de clemncia partiria daquele homem.
- Meu irmo est arrependido e apavorado com a perspectiva de ir para a priso. Ser que no entende o que vai acontecer com ele depois do convvio forado com criminosos 
de verdade? Ele no planejou nenhum crime,  apenas um jovem imprudente que tem a febre do jogo no sangue. Se fosse realmente desonesto, teria encontrado uma maneira 
astuta de encobrir o roubo.
- A falta de esperteza tornou-o ainda mais desprezvel. Por que se preocupa com um irmo como o seu? Acha que ele se importa com mais algum alm dele mesmo? Uma 
temporada na priso talvez o ensine a ser menos egosta e presunoso.
- O senhor est sendo muito severo. Por acaso nunca se viu numa situao de precisar defender um irmo desajuizado? - Beth fez um esforo para sufocar o choro.
- Sou filho nico... de me solteira - murmurou ele com um olhar sombrio.
Os cabelos de Beth, presos num coque atrs da cabea, pareceram-lhe chamar a ateno.
- Na Grcia, no  fcil ser filho de uma mulher que no tem uma aliana de ouro no dedo. Minha me era uma pastora. Cuidava de um rebanho de cabras nas colinas, 
onde as flores silvestres perfumam o ar. Ela se apaixonou por um estrangeiro, que, assim como veio, partiu, deixando-a com uma criana no ventre. Temendo o escrnio 
dos aldees, ela manteve a gravidez em segredo e deu  luz nas colinas, longe de tudo e de todos. Minhas roupas de beb foram peles de cabras e minha me carregava-me 
nas costas, enquanto apascentava o rebanho. Cresci correndo pelas colinas, entre os animais.
Um sorriso passou pelos lbios dele.
- Acho que eu me achava um cabrito, durante os primeiros dois anos de vida, e embora levasse uma vida dura era muito sadia tambm. Adaptei-me ao tempo bom e ao tempo 
ruim. Aprendi a sobreviver e a me defender das zombarias das outras crianas da aldeia, que sabiam que eu no tinha pai. Minha me era muito bonita, mas nunca se 
casou. Um grego raramente prope casamento a uma mulher que perdeu a virgindade com outro homem. A medida que fui crescendo, comecei a ficar curioso, a respeito 
do estranho que era meu pai, mas minha me nunca me falou nada sobre ele. Desconfio que ela tambm nunca tenha sabido o nome dele. Eles se encontraram, sentiram-se 
atrados um pelo outro, e ento fizeram amor, sob as estrelas... E agora, passados trinta e seis anos, ns nos defrontamos nos aposentos particulares do meu clube 
e, em sua ingenuidade, ou talvez no desdm que sente por mim, voc me pede para deixar de lado o roubo de uma quantia enorme do dinheiro que adquiri aps tantas 
adversidades. Alis, voc sabe qual foi o valor do desfalque?
Beth corou.
- Sei. Justin me contou. - As palavras saram como se tivessem sido arrancadas dela.
- Eu ia descalo  escola, mocinha. Aos dezessete anos j dirigia caminhes de transporte pesado, carregando e descarregando mercadorias nos cais dos mais diferentes 
portos. Trabalhava vinte horas por dia, na esperana de melhorar a sorte. E fui bem-sucedido, sem nunca ter roubado um tosto de ningum.
Ela baixou os olhos, envergonhada. Nunca reprovara a maneira afrontosa com que Justin referia-se quele homem, talvez devido ao rancor que guardava dele por causa 
de Cathlamet. Jamais se conformara com o fato de a casa dos St. Cyr ter passado para as mos de Alexis. Jamais se esquecera da amargura que a dominara quando soube 
que ele havia se tornado o proprietrio da casa onde ela nascera, e na qual tivera uma infncia e uma adolescncia muito felizes.
Na noite do enterro de seu pai, o procurador da famlia lera diante dela e de Justin o testamento deixado por ele, no qual explicava que Alexis Apollonaris, depois 
de muita insistncia, aceitara ficar com os ttulos de propriedade de Cathlamet. A casa fora empenhada por uma soma to alta que resgat-la estava fora das possibilidades 
da famlia St. Cyr. Em troca desses ttulos, dizia ele, havia recebido de Alexis a quantia suficiente para que os filhos pudessem concluir seus estudos.
Por que seu pai no havia tirado os filhos das escolas gr-finas, explicando-lhes com sinceridade a situao? Beth se perguntava com tristeza. Por que no lhes contara 
que os rendimentos que possuam no lhes permitiam mais o luxo de morar numa casa como Cathlamet, com criados para servi-los e timos cavalos no estbulo? Por que 
lhes ferira o amor-prprio, permitindo que fossem educados s custas de um estranho, que agora se dava o direito de julgar o comportamento deles?
- Sua me ainda  viva, sr. Apollonaris? - Era a primeira vez que sentia vontade de saber alguma coisa sobre a famlia dele, porque Alexis sempre dera a impresso 
de ser um desses homens feitos por si mesmos, de rocha pura, e no de carne e osso como todos os mortais.
- Sim, minha me ainda  viva. - Ele se expressava de maneira categrica, e o leve sotaque grego parecia dar mais significado s suas palavras. Tudo que fazia ou 
dizia deixava  mostra o esprito determinado que o impulsionava na direo do sucesso pessoal, da superao das condies adversas e da realizao de todas as suas 
ambies.
- Sua me mora em Cathlamet? - Ela se esforava para no demonstrar o ressentimento que sentia ao imaginar uma pessoa estranha vivendo naquela casa maravilhosa, 
construda com as mesmas pedras claras que faziam da Catedral de York um monumento  beleza, passeando por seus jardins perfumados ao som do vento nas rvores dos 
morros prximos.
Beth adorava Cathlamet. Ali, vrias geraes da famlia St. Cyr viveram, amaram e morreram. Defrontar-se com o homem que agora tinha o direito de fazer o que bem 
entendesse com Cathlamet exigia-lhe um esforo quase sobre-humano.
Alexis fitou-a como se estivesse lendo seus pensamentos.
- Minha me prefere viver em seu prprio pas, onde pode sentir o sol quente na pele. Ela no tem nenhuma vontade de ser a senhora de uma casa to grande, rodeada 
de muros de pedras, num lugar onde o vento sopra sem descanso.
Beth semicerrou os olhos. Ouvi-lo falar assim era mais uma punhalada em seu corao.
- Voc pode visitar Cathlamet quando quiser, Beth. Quase tudo continua como antes. - A voz de Alexis no mostrava nenhuma emoo.
- A casa no significa mais nada para mim - Ela respirou fundo, tentando no pensar mais em Cathlamet.
Olhou para Alexis Apollonaris. A pele bronzeada destacava-lhe os olhos cor de mel, brilhantes e firmes. Como convencer aquele homem a desistir? De repente, sem saber 
por qu, Beth teve certeza daquilo que antes apenas suspeitava. O meio sorriso estampado nos lbios dele mostrava-lhe que ela no estava enganada.
Astuto com as pessoas e com tudo que se referia a dinheiro, Alexis sabia que Justin, mais cedo ou mais tarde, trabalhando no Clube Cassandra, acabaria se servindo 
de uma parte da renda do clube. Seu irmo seria incapaz de resistir  tentao do dinheiro fcil, num lugar onde o tilintar das moedas e dos dados fazia-o mudar 
de dono a todo instante.
- O senhor sabia que ele ia fazer isso, no sabia? - Os olhos dela reluziram como cristal no rosto plido e assustado.
- Que ele ia fazer o qu, minha querida? - Alexis formulou a pergunta de maneira to inocente que ela teve vontade de lhe atirar o vinho no rosto.
- Sabe muito bem a que me refiro.
- No sei, no.
- O senhor planejou tudo!
- O que est querendo dizer, Beth?
- No pronuncie o meu nome, por favor! No gosto de ouvi-lo da sua boca.
- E uma pena, porque ele combina muito bem com voc. Alis, tambm combina com o seu sobrenome. Voc sabia que o meu nome do meio  Adans, e que em grego ele significa 
duro como diamante?
Beth levantou-se num impulso, mas quando atirou o vinho Alexis j no se encontrava mais no mesmo lugar. Rpida e instintivamente, ele tinha se desviado e a bebida 
se esparramou em cima da mesa, molhando os papis que havia sobre ela, inclusive uma agenda de couro onde estavam gravadas as iniciais do nome dele.
No silncio que se seguiu, ela ouviu o prprio corao bater dentro do peito. Desta vez, Alexis lhe diria, num tom de voz distante, que, em troca da liberdade do 
irmo, ela teria que renunciar  sua.

CAPITULO II
No acha que est agindo de uma forma um tanto infantil? - Alexis aproximou-se de Beth e tomou a taa vazia de sua mo. - Voc parece ter a mesma impetuosidade de 
seu irmo, Beth, e qualquer comportamento agressivo tem que ter suas conseqncias.
- Vai... me fazer pagar, no  mesmo? - Ela recuou, encostando-se na mesa. Havia um tom de desafio na voz dela.
O olhar de Alexis a fez estremecer. Devagar, ele examinou-a de cima a baixo. Primeiro a boca, depois o pescoo, em seguida a curva dos seios, meio  mostra sob o 
casaco de pele. Embaraada, Beth tentava pensar em alguma forma de sensibilizar aquele grego, mais alto que a maioria dos homens, que tivera uma vida difcil, convivendo 
com a fome, o frio e o desprezo. Sem dvida, ela nada conseguiria se continuasse se mostrando fria e desdenhosa. Assim como jamais conseguiria ler nos olhos dele 
qualquer sentimento que, porventura, lhe estivesse na alma.
- Puxa, eu nunca tinha pensado nisso!
- O senhor deve ser mestre na escola da falsidade, na arte de tramar armadilhas para os ingnuos.
- Est insinuando que fui eu a serpente que colocou a tentao no caminho de seu irmo?
- Esse  um dos artifcios do demnio, no  mesmo? - ela o desafiou.
- Quer dizer ento que, alm de ser o grego maldito que tomou a sua casa, eu agora me transformei tambm num demnio? - perguntou ele, irnico, sem deixar transparecer 
qualquer sentimento.
- Por que foi que ofereceu a Justin a direo do clube? No foi por generosidade, foi? Sabia muito bem que ele gostava de jogar cartas e apostar em cavalos. Justin 
no se sente vivo a menos que esteja jogando, e o senhor sabia disso!
- Talvez eu pretendesse provar que so os privilgios que corrompem, no a pobreza.
- Se  assim, eu sou irm de Justin. Portanto, no faz sentido querer... - Beth interrompeu a frase, com medo da resposta de Alexis.
- Querer me casar com voc? - completou ele. - Acha ento que a estive perseguindo nos ltimos dois anos?
- No... - Ela ficou desconcertada com a zombaria.
- Ento, o que est insinuando?
- Que o senhor, por eu ser uma St. Cyr, gostaria de me possuir como um dos objetos de Cathlamet. No  verdade, sr. Apollonaris? O senhor fez fortuna, mas ainda 
deseja as pompas de um cavalheiro. O juzo que faz de meu pai no interessa, porque, apesar de haver terminado sua carreira como um jogador, ele nasceu como um cavalheiro.
- E voc acha que estou tentando inverter a ordem das coisas? Que, por ter nascido um especulador, eu desejo agora me tornar um cavalheiro?
- Sim,  isso.
- Tendo voc como esposa, no ?
- Nada mais faria sentido.
- Ento, para satisfazer a minha ambio, eu armei uma cilada para seu irmo?
- No foi isso o que fez?
- Digamos que eu tenha... feito um jogo.
Beth deixou escapar um suspiro. A verdade lhe doa, mas era prefervel ouvi-la a cultivar a incerteza.
- Essa perspectiva  to alarmante assim para voc? Alexis se aproximou dela e enfiou as mos por baixo do casaco, segurando-a nos quadris e olhando-a nos olhos. 
Beth sentiu um calafrio, mas no se mexeu.
- Haver compensaes, sabia? - continuou ele. - Voc no vai mais ter que trabalhar para uma cartomante, nem que fazer as suas roupas durarem at ficarem fora de 
moda. Voc ser conhecida como a senhora de Cathlamet, e eu no comunicarei o desfalque de seu irmo  polcia. Creio que a pena para roubo  bem rigorosa... enquanto 
a sua, em minhas mos, poder ser menos desagradvel.
Com gestos delicados, Alexis puxou o casaco de peles para trs e estudou-lhe a silhueta esbelta envolta no vestido creme.
- Voc tem o requinte e a aparncia de uma dama, Beth. E por ser um homem rico, que se pode dar ao luxo de obter o melhor, eu a escolho como esposa. Lembra-se da 
primeira vez em que nos vimos?
- Sim. Lembro-me.
Os olhos dele se estreitaram. Ento, como se fosse para castig-la, ele a puxou para os seus braos fortes. Beth aspirou o cheiro da colnia mscula e sentiu-se 
meio inebriada.
- Fique sabendo, moiya, que cada alfinetada sua ser retribuda com um beijo. E voc no gosta nem mesmo de pensar nisso, no ?
Beth conseguiu enfrentar o olhar que Alexis lhe dirigia. Desde que o vira pela primeira vez, em Cathlamet, ele passara a agir como uma sombra em sua vida. Sem dvida, 
tinha planejado o momento em que ela se encontraria prisioneira em seus braos.
- Vou ter que... me casar com o senhor? - perguntou, com voz quase inaudvel.
- Est sugerindo algum outro tipo de compromisso?
- Eu... no tenho experincia nessas questes, sr. Apollonaris, mas se o que quer realmente ... dormir comigo...
Aps um longo silncio, ela sentiu as mos fortes apertarem seus ombros.
- Nunca mais fale comigo desse jeito, Beth, entendeu?
Ela o encarou, notando a fria nos olhos ardentes. Finalmente tinha conseguido abal-lo. Seu corao enterneceu-se quando se deu conta de que aquele grego poderoso 
possua o mesmo senso forte de moralidade que fizera a me dele sair de sua aldeia depois de ter ficado grvida de um estranho.
- Tanto Justin como eu passamos a viver num inferno desde que o senhor entrou em nossas vidas! - Beth no se permitiria fraquejar diante daquele homem.
A resposta de Alexis foi cumprir sua ameaa. Ela tentou empurr-lo, mas foi intil. Os braos fortes eram como cordas de ao e ela no pde evitar o beijo prometido. 
Beth sabia muito pouco a respeito de sexo. Nenhum homem que encontrara antes fora capaz de romper suas defesas. Mas Alexis rompeu todas as suas barreiras pressionando-a 
fortemente contra o corpo musculoso. Meio tonta, tentou afast-lo. Mas ele passou a beijar seu pescoo e quanto mais ela fugia daquela boca mais insistente ele se 
tornava.
"Oh, que ele me beije, que me possua", pensou ela. Nunca deixaria de desprez-lo pela cilada que armara para Justin, pela pea que pregara nele. Ento, relaxou o 
corpo, lembrando-se de que um caador sempre se envaidecia com o tormento de sua caa.
Alexis afastou-se bruscamente.
- Voc parece feita de gelo - murmurou.
- Esperava que eu me derretesse?
- D-me tempo, moiya. Ns, os gregos, somos famosos pela nossa persistncia.
- E a sua parte turca,  famosa pelo qu? - A proximidade em que se encontravam fazia todo seu corpo fraquejar. Como impedir que um homem como aquele conseguisse 
o seu intuito? A sabedoria grega, como Justin dissera, levava Alexis Apollonaris a conseguir tudo o que queria.
- Isso voc vai saber dentro de pouco tempo, quando for morar em Cathlamet comigo.
- Est muito seguro de si mesmo, no acha, sr. Apollonaris?
- Sugiro que me chame de Alexis, agora que passamos a nos conhecer melhor.
Os olhos dela faiscaram de raiva.
- Se eu encontrasse uma maneira de tirar Justin de suas garras, o senhor no teria como botar as mos em mim
- Isso seria uma pena. - Ele segurou-a pelos ombros. - Agrada-me saber que voc  uma moa que preservou seu corpo. Como j lhe disse, os gregos no fazem nenhuma 
questo de se casar com uma mulher que tenha se deixado usar... A vida de minha me foi infeliz, porque ela foi descuidada em seus afetos.
A pele de Beth arrepiou-se com o contato das mos fortes e quentes, e seu senso de castidade sentiu-se ofendido com essas liberdades que ele estava tomando, como 
se j a possusse.
- Parece que a histria vai se repetir. Ele ergueu as sobrancelhas.
- Como assim?
- Espero ser to infeliz quanto sua me. No pode confiar que eu sinta algum afeto pelo senhor!
- De fato. Mas voc sente um afeto muito grande por Cathlamet, no ? Voc estar l quando as rosas comearem a florir em junho. Isso dever deix-la mais feliz.
- Em junho? - repetiu ela, apavorada. - Mas s faltam algumas semanas!
Ele a soltou e pegou o calendrio que havia sobre a mesa.
- Acho at que sou capaz de encontrar algum tempo para me casar com voc em maio. Que tal?
Beth ficou sem fala, paralisada. No, no era um sonho ruim, embora assim parecesse. Tudo era to real quanto a chuva que tamborilava nas vidraas, to real quanto 
o cheiro do charuto que Alexis Apollonaris acabara de acender.
- Vou ter que levar voc at sua casa.
- No... posso tomar um txi.
- Fao questo. - Ele estava parado junto  cortina cor de vinho, tal como ela o vira uma hora antes, ao entrar na sala. Muita coisa tinha acontecido at ento. 
Ele a havia dominado...
- Pretende mesmo obrigar-me a casar com o senhor no ? - Estas palavras lhe pareceram destitudas de realismo. No entanto, eram as palavras mais significativas 
que ela j havia pronunciado.
- No  bem assim. Eu lhe dei uma opo.
- No me deu opo nenhuma. Isso  chantagem! Ele sacudiu os ombros e deu uma tragada no charuto.
- Na vida,  preciso determinao para se conseguir o que se quer. Esta  a nica maneira de mudar o rumo das coisas. O seu irmo, por exemplo, poderia ser um vencedor, 
e no um derrotado: se prestasse um pouco de ateno nas pessoas, se se desse ao trabalho de estudar o modo de ser de seus semelhantes. Em vez disso, vive trancado 
dentro de si mesmo.  um egosta.
- Talvez o egosmo seja um trao de famlia - rebateu ela. - No acha que eu poderia estar usando nosso casamento para desfrutar sua fortuna?
- Se estivesse atrs de minha fortuna, Beth, voc teria aceitado o pedido que lhe fiz, dois anos atrs.
- Talvez na poca eu no soubesse que trabalhar para se sustentar pudesse ser to desagradvel. Mas hoje eu sei que comprar um casaco de peles de segunda mo no 
d tanto prazer quanto ser presenteada com um novo, por um pretendente afortunado.
Alexis olhou de relance para o casaco de pele de lince que ela usava.
- O nico trao de famlia que voc tem em comum com seu irmo  o tom da pele. Alis, voc deve ficar encantadora num casaco de pele de marta, champanhe. Podemos 
comprar um na Grcia, durante a viagem que faremos para o casamento, j que nunca serei capaz de convencer minha me a vir para a Inglaterra.
- Mas como o senhor  insolente! - Beth odiou-o com todas as suas foras ao ver o ar vitorioso dele. - Comprar e vender pessoas deve ser mais um tipo de comrcio 
para um grego! No se sente nem um pouco envergonhado de estar me comprando?
Ele balanou a cabea.
- Realmente, no tenho por que me envergonhar. Estou fazendo um timo negcio. Voc vale cada centavo que estou pagando. Vale ainda mais do que isso.
- Quanto cinismo, meu Deus! - Beth estava furiosa. - O senhor  uma prova de que o diabo cuida bem de seus filhos!
- Quem sabe no seja ele o meu pai. - Alexs riu. - Dizem que os deuses e os stiros ainda caminham pelas colinas gregas, e, pelo jeito como est me olhando, parece 
que est enxergando em mim uma daquelas figuras humanas de chifres curtos e pernas de bode.
- Eu... Espero que no quebre a sua palavra no que diz respeito ao meu irmo.
- Um grego nunca quebra a palavra empenhada, Beth. Trato  trato. - O ar zombeteiro dele foi substitudo por uma expresso sria.
- Quer dizer que estou diante de um comerciante honesto...
- Por acaso, voc preferia ouvir de mim palavras de amor? Gostaria que eu lhe dissesse que me lembra aquele lrio que flutua no lago dos jardins de Cathlamet?
Beth olhou-o com ateno. O rosto de Alexis era igual queles que os gregos antigos cunhavam em suas moedas. O terno cinza lhe caa com perfeio.  Classific-lo 
como um homem bonito era muito pouco diante da harmonia, da perfeio e da fora que emanava de seu corpo atltico.
- Eu... gostaria de ir para casa agora. - Beth percebeu que de nada adiantaria continuar com aquela conversa repleta de agresses recprocas.
- Vamos, eu a levarei.
Mas ele continuou imvel durante alguns segundos. Beth sentiu-se mais uma vez presa queles olhos cor de mel, que pareciam exercer um estranho fascnio sobre ela. 
Mexeu-se inquieta e foi at a porta, tentando torcer a maaneta.
- A porta s abrir depois que eu pressionar um boto que h embaixo de minha mesa.
Ela ficou parada perto da porta, enquanto ele ia at a mesa.
- Voc ainda ter que aturar a minha companhia por mais algum tempo, Beth. Por isso, no adianta fazer essa cara de quem quer sair correndo para salvar a prpria 
pele.
- Se pudesse, era isso mesmo que eu faria.
- E deixar o seu querido Justin apodrecendo na cadeia? J apertei o boto, querida. Saia agora, enquanto ainda  tempo. No a estou detendo. Saia e sinta-se livre 
como um pssaro.
Beth olhou para a porta e sentiu um impulso quase incontrolvel de fazer exatamente o que ele sugeria. "Por que no?", pensou. Afinal, Justin no merecia aquele 
sacrifcio. Ele era mesmo egosta e irresponsvel, e certamente j estava planejando o prximo golpe, certo de que a irmzinha estava disposta a tudo para livr-lo 
do pior.
Mas era impossvel deixar de v-lo como o doce garotinho de cabelos loiros, companheiro inseparvel de suas brincadeiras de infncia, das cavalgadas pelos campos, 
das pescarias nos riachos...
- E ento, no vai?
- Estou esperando que me leve at em casa.
Beth estremeceu com o ar frio da noite. Sentia os respingos da chuva em seu rosto, enquanto observava o luxuoso Monza que saa do estacionamento do clube. A porta 
do lado do passageiro se abriu, e ela entrou no carro confortvel.
- Coloque o cinto de segurana - ordenou Alexis.
Ela obedeceu, sem protestar. Ao ajust-lo, refletia sobre uma triste coincidncia: a priso do cinto simbolizava seu estado de esprito.
- Nunca lhe ocorreu que certas coisas so inevitveis? - perguntou ele, olhando-a de lado, antes de dar a partida. - Pergunte  cartomante, que ela lhe confirmar 
isso.
- O nome dela  madame Lilian. No gosto que se refira a ela com ironia.
- Eu, irnico? Por que acha que chamei o meu clube de Cassandra? Os gregos no so imunes s supersties.
- Clube Maquiavel seria muito mais adequado!
Alexis sorriu e no disse mais nada. Beth ficou observando os limpadores do pra-brisa em movimento. Decidiu que iria consultar madame Lilian. Quem sabe encontraria 
nas estrelas uma indicao de como ajudar Justin, sem ter que se tornar propriedade de Alxis Apollonaris.
Sem dvida, ela no seria nada alm de mais uma das suas propriedades. Seria apenas mais um smbolo de status para um bem-sucedido empresrio grego que tivera como 
me uma humilde pastora de cabras. Beth suspirou amargurada.
- Anime-se, querida. Nosso casamento no ser nenhum fim de mundo.
- E que a noite no foi das mais agradveis, concorda?
O carro parou em frente ao edifcio alto onde Beth tinha o seu pequeno apartamento.
- No vou convid-lo a entrar. Preciso ficar um pouco sozinha... 
Ele segurou-a delicadamente pelos ombros.
- Beth, precisamos fazer planos para o nosso casamento. Por isso, teremos que nos ver de novo muito em breve. Vamos jantar juntos na quinta-feira? Estarei livre 
nesse dia.
- E quem lhe disse que eu tambm estarei?
- E no? - Os olhos dele se detiveram no seu rosto plido, e depois na boca bem-feita. Ento, Alexis se inclinou inesperadamente e a beijou de leve nos lbios. - 
No precisa tremer assim, querida, no lhe vou fazer nenhum mal.
- Nenhum mal ser maior do que me tornar sua mulher apenas para satisfazer um capricho mesquinho, aproveitando-se da minha situao de desvantagem.
- Pode ter certeza de que um dia a farei mudar de idia. Telefonarei para combinarmos o jantar de quinta-feira. Se sua patroa precisar de voc, diga-lhe que j tem 
compromisso.
A palavra compromisso fez com que Beth sentisse um frio no estmago.
- Deixe-me subir, por favor... Estou muito cansada.
- Por causa das emoes de hoje? Bem, pelo menos voc poder dormir sossegada quanto ao seu irmo...
Alexis soltou-a e ela saiu rapidamente do carro para o ar frio e mido da noite. Subiu correndo os degraus da frente do prdio e entrou, sem se voltar para trs. 
S ento ouviu o ronco do carro partindo.
CAPTULO III
A sala onde madame Lilian fazia suas adivinhaes era fascinante. No toldo, todo decorado com a pintura dos signos do Zodaco, a balana de Libra se destacava. Beth 
havia perguntado o motivo desse destaque, e madame Llian lhe explicara que a balana com seus dois pratos simbolizam a prpria vida. Em cada pessoa h uma parcela 
do bem e outra do mal, no destino de todos h a fortuna e o infortnio. Ora os pratos da balana pendem para um lado ora para outro, e  isso que determina o rumo 
da vida das pessoas, dissera ela. 
- Mas isso tudo no  apenas suposio? - perguntara Beth. - No somos ns quem fazemos as nossas prprias vidas, tanto para o bem como para o mal? 
- No espere que uma vidente concorde com isso - madame respondera altivamente. - Ns sabemos melhor do que ningum que nossas vidas tm que seguir um rumo certo. 
E, ao longo do caminho, embora possamos fazer escolhas que entrem em oposio com a fora magntica que nos guia, sofreremos as conseqncias da escolha que fizermos.
Essas explicaes no modificaram, em nada, o ceticismo de Beth em relao a tudo aquilo. Ela era jovem demais na poca e trabalhava havia pouco tempo com madame 
Lilian. Mas, depois de dois anos convivendo com a vidente, tinha passado a respeit-la e s pessoas que acreditavam na astrologia, na quiromancia e na leitura das 
cartas do Tar.
Madame Lilian era bem-falante e gostava de mostrar aos clientes o significado de cada coisa. Recusava-se no entanto a falar sobre a tbua ouija, alegando apenas 
que ela era um artifcio nocivo que ligava as pessoas s regies das trevas.
Bem no centro da sala, sobre um pentagrama de cinco estrelas desenhado no piso, ficava uma mesa redonda coberta por um tecido branco. Sobre ela, brilhava a bola 
de cristal, feita de berilo, uma pedra semipreciosa. A armao de sua base era de marfim, gravado com nomes e smbolos msticos. Um par de castiais antigos, tambm 
sobre a mesa, e um incenso queimando num dos cantos da sala aumentavam a atmosfera extica, mstica e repousante do aposento.
Aquele ambiente, sem dvida, dispunha as pessoas que ali entravam a buscar uma resposta quanto ao futuro, a ouvir com f as previses de madame Lilian. Mas Beth 
era testemunha de seus poderes impressionantes, provavelmente um resultado da combinao de uma percepo extra-sensorial com o dom da persuaso.
Havia ainda o fascnio da aparncia de Madame. Ela era alta e costumava usar um vestido longo e bem solto, verde jade, com correntes e colares de contas e talisms 
em volta do pescoo. Sua figura lembrava a de uma feiticeira. Seu rosto comprido possua um estranho encanto, era rude e ao mesmo tempo doce. Naqueles dois anos 
Beth se apegara muito a ela.
Entretanto, nunca havia pedido a madame Lilian que lesse sua sorte nas cartas do Tar. Imaginava que nada na sua vida poderia ter sido pior do que o golpe de ver 
Cathlamet passando para as mos de um desconhecido, de ter sido obrigada a abandon-la, de ter perdido o direito de viver l.
Quando Alexis Apollonaris aparecera na sua frente, Beth impressionou-se com seu ar enigmtico e estranho. Como nunca antes tinha conhecido nenhum grego, comeou 
a desejar jamais cruzar com algum outro. At mesmo o nome dele, quando foi pronunciado pelo procurador da famlia, lhe soara ameaador. Agora, aquelas ms impresses 
se confirmavam, s que de forma ainda mais chocante.
- No, no posso! - Beth pensou em voz alta, incapaz de se controlar.
- Que foi que voc disse, minha filha? - Madame Lilian entrou na sala, as correntes chocalhando sobre os seios proeminentes.
Beth voltou-se para ela, com uma expresso aflita no rosto. Ao ouvir as sonoras badaladas do Big Ben, resolveu pr  prova os poderes de percepo da clarividente. 
Ficou parada, de queixo erguido, porque sabia que essa era a postura que facilitava o exame das feies. Assim, deixou bem visveis as olheiras profundas que contrastavam 
com a palidez luminosa de sua pele.
- Querida, voc est sendo ameaada!
- Como assim, Madame? - Embora Beth sempre tivesse se mostrado reservada, ela agora queria e necessitava de orientao. Em outras ocasies, conseguira enfrentar 
e superar preocupaes, mas desta vez sentia-se terrivelmente perdida, no sabia que atitude tomar.
- Voc est sendo ameaada, Beth, e de uma maneira impiedosa. - Madame aproximou-se dela e segurou-lhe as mos com delicadeza. - Esto frias como gelo. Isso  sinal 
evidente de uma ansiedade muito profunda. Trata-se de alguma coisa relacionada com seu irmo, no ?
- Sim. - Beth estremeceu.
- E  uma coisa que precisa ser resolvida sem demora. Seu irmo  o Valete do grupo de cartas, Beth. No momento em que o conheci, soube que ele iria evocar um demnio.
Beth ficou com a respirao suspensa e no ofereceu resistncia quando Madame a conduziu  mesa onde ficava a bola de cristal, coberta pelo tecido de seda branca. 
Ela acendeu os castiais e fechou as cortinas para impedir a entrada da luz do sol.
- Voc  como uma filha para mim. Magoa-me v-la assim to atormentada. Mas confie em mim, que eu a ajudarei a resolver o seu problema.
Madame Lilian sentou-se e descobriu a bola. Ela era lavada todas as noites com uma infuso de ervas e vinagre, para que,  luz de velas, tivesse aquele brilho to 
intenso.
Beth sabia que a clarividente no via imagem alguma na bola. O que ela pretendia ao fit-la era criar uma atmosfera de auto-hipnose, de meditao. Muitas vezes, 
os clientes saam dali, aps as revelaes que ouviam, num estado de intensa euforia.
"Quero apenas saber como lidar com o demnio que Justin conjurou", pensava Beth, enquanto madame Lilian se concentrava mirando a bola.
- Sei que seu irmo Justin j lhe causou muitas preocupaes e que voc conseguiu super-las muito bem. Mas desta vez  diferente, no  mesmo? Fale sobre este outro 
homem que est interferindo na sua vida - ordenou Madame, sem desviar o olhar.
Beth teve um estremecimento que fez seu corao bater meio descompassado.
- Como  que... a senhora sabe?
- Isso no vem ao caso, minha filha. Descreva o homem.
- A senhora quer dizer fisicamente?
- No. Fale-me sobre a personalidade dele.
- Tem um corao to duro que, se por acaso algum tropeasse nele, teria que mandar engessar o p!
- Entendo. - Madame lanou-lhe um olhar. - Ele  to ruim assim?
- Ao menos parece.
- Voc acha que ele no tem um lado bom, Beth?
- Bem... No d para ter certeza, mas...
- Isso quer dizer que ele no  exatamente uma pessoa m?
- Oh, no! No . - Por algum motivo estranho, Beth ficou chocada com a insinuao.
- Seria correto dizer que ele exerce alguma influncia sobre voc?
Beth concordou com um gesto de cabea. Achou que seria mais fcil se contasse tudo a madame Lilian, mas queria ver at onde aquele jogo de adivinhaes a levaria. 
Isso parecia combinar com a confrontao do Clube Cassandra, talvez assim algum pudesse ser testemunha da audcia daquele homem ao lhe propor casamento. Ao mesmo 
tempo, aquela encenao toda lhe dava a iluso de que quem sabe tudo no passasse de um sonho ruim do qual ela fosse prisioneira.
- Deixa ver.
Madame fixou novamente os olhos cor de jade na esfera reluzente. Da a pouco seu rosto ficou inexpressivo como se ela tivesse entrado em transe, a mente vagando, 
longe dali. A sala estava mergulhada no silncio, no se ouvia nem o tique-taque de um relgio, pois a proximidade do apartamento  Abadia de Westminster permitia 
a madame Lilian se orientar pelos ponteiros do Big Ben. Beth podia ouvir as batidas do prprio corao. Agora entendia por que tanta gente recorria a solues misteriosas. 
- Seu irmo est em dbito com esse homem - Madame falou, fazendo uma pequena pausa. - Mas  voc quem vai ter que pagar!
Beth apertou o rosto entre as mos.
- Como a senhora sabe disso?
- Se eu dissesse voc no ia acreditar - a senhora brincou. Beth sorriu.
- Depois de dois anos trabalhando com a senhora, eu no devia ficar to surpresa. Mas  que, apesar disso, at hoje Madame no tinha lido a minha sorte.
- Talvez porque a sorte de jovens atraentes como voc esteja estampada em seus rostos, minha filha. O que esse homem quer de voc como pagamento?
- Como foi que... adivinhou, Madame?
-  simples, Beth. Voc tem um irmo encantador, mas fraco, que trabalha num antro de jogos de azar. Estava nas cartas que um dia ele se meteria em encrencas, e 
depois deixaria a soluo por conta da irm. Voc est atormentada e passou uma noite sem conseguir dormir. Quando isso acontece com os jovens, sempre transparece 
no rosto deles, ao contrrio dos velhos, que de qualquer maneira tm sempre uma aparncia decrpita. No caso de mulheres jovens  constante a possibilidade do surgimento 
de homens igualmente jovens, envoltos na bruma do horizonte, dispostos a lhes roubar o sono. Como v, no foi preciso muita adivinhao.
Madame fez uma pausa e fitou-a diretamente nos olhos.
- O que ele est querendo? Quer fazer amor com voc?
- Muito mais que isso - Beth respondeu, com voz rouca. - Disse que terei de me casar com ele, do contrrio Justin ir para a cadeia. Meu irmo est apavorado, e 
eu no sei o que fazer... Estou desesperada!
- A soma em questo  muito alta?
Beth revelou o valor do desfalque. Mas, estranhamente, no conseguia contar a madame Lilian quem era o homem que na sala particular do seu clube estabelecera to 
impiedosamente o seu preo.
- Ento, ele est fazendo chantagem emocional? Beth concordou.
- No entanto, voc nega que ele seja uma pessoa m.
- Ele raciocina matematicamente. Diz que uma coisa se compensa com outra. Concorda em perder a soma que Justin lhe roubou... contanto que se case comigo.
Madame Lilian olhou-a pensativamente, enquanto brincava com seus anis de pedras grandes.
- Ele  um desconhecido para voc, minha filha?
- No, exatamente.
Beth recordava-se da beleza e distino daquele rosto moreno, realado pela camisa branca com gravata cinza, os pulsos fortes dentro dos punhos fechados com abotoaduras 
de ouro. No, Alxis Apollonaris no era um homem sem qualidades. Era corts, possua um estilo prprio de vida e no se curvava ao prprio destino. Fizera-se por 
si mesmo, mas no exibia o ar presunoso da maioria dos novos-ricos, nem humilhava ningum com manias de grandeza. Entretanto, para Beth, ele era a pessoa mais destrutiva 
do mundo. Sim, pois for-la a um casamento sem amor era o mesmo que arruinar todas as suas esperanas, todas as suas iluses.
- Quer dizer ento que ele no lhe  inteiramente estranho? Beth confirmou com um gesto de cabea.
- Quem  ele, minha filha? No quer me dizer seu nome!
- Eu... prefiro no dizer.
- Eu o conheo?
- Acho que sim, madame Lilian.
- Est bem, Beth, respeito o seu desejo de manter o nome dele em segredo. Pelo jeito, ele deve ser algum importante... talvez uma personalidade ilustre.
- Ele  um homem cujo nome costuma aparecer nos jornais.
- Um homem de negcios?
- .
- Ento, ele deve ser bem mais velho que voc, no ?  por isso que voc no gosta da idia de se casar com ele?
- Ele no  assim to mais velho, mas eu... no acho correto me casar com um homem por interesse, sem amor.
- Ah, ento chegamos ao "X" da questo! - Madame Llian recostou-se na cadeira, e todo o seu rosto ficou na penumbra, onde, ainda assim, se destacava o brilho de 
seus olhos perspicazes. - E claro, minha filha. Est escrito nos seus olhos o quanto voc  romntica e sensvel. E  por isso que seu irmo irresponsvel consegue 
impression-la. Voc, sem dvida, sempre se lembra dele como um garotinho travesso de cara suja. Entretanto, a realidade  outra: ele  um jovem desonesto que deveria 
ser mandado para alguma colnia penal, onde poderia pagar sua pena sem envolver as pessoas da famlia. Costumavam fazer isso antigamente, e muitas vezes valia a 
pena.
Madame Lilian ficou em silncio durante alguns minutos, e Beth ps-se a olhar para o reflexo das chamas das velas na bola de cristal e teve a intuio do que a clarividente 
ia lhe sugerir. Mas onde iria conseguir dinheiro para mandar Justin para fora do pas?
- Faa um emprstimo, Beth - disse Madame, lendo os seus pensamentos. - V a uma financiadora de boa reputao e pea um emprstimo. Voc assinar um contrato que 
exigir certa percentagem de juros sobre a quantia solicitada. Muita gente faz isso, minha filha. No  nenhuma vergonha.
- No, no posso fazer isso! - Beth reagiu, assustada. Depois do que acontecera com seu pai, levado  falncia e  desonra pelo endividamento, no admitia nem pensar 
naquela idia.
- Bom, se voc no acredita no seu prprio senso de responsabilidade financeira, Beth, ento j sabe qual  a soluo.
- Eu... poderia desafi-lo, no poderia? - Beth falou, sem acreditar muito na possibilidade do que propunha. - Quem sabe ele no deixaria tudo por isso mesmo!
- No acredito que voc esteja falando srio, minha filha. Um homem de corao de pedra concedendo um perdo desinteressadamente? Pense bem.
Beth mordeu o lbio.
- Conheo uma excelente instituio financeira que a atender muito bem - madame Lilian continuou. - Voc no tem do que se envergonhar. Eu mesma fiz um emprstimo 
h algum tempo. Foi quando resolvi me estabelecer como vidente. Como voc sabe, no sou nenhuma trapaceira, mas isso no  suficiente. Os clientes s levam a srio 
algum com o dom da viso sobrenatural se ele estiver envolto numa atmosfera de misticismo. E eu queria ser uma profissional respeitada. Mas, para manter meu local 
de trabalho da forma que achava conveniente, precisava de uma quantia razovel e eu no dispunha de um tosto. Ento, resolvi recorrer a essa financeira, que me 
foi indicada por um amigo. Eles trabalham com seriedade, tm um sistema aceitvel para o parcelamento da dvida e no so de pressionar o cliente alm do normal 
na cobrana dos juros.
Ela se inclinou para a frente e encarou Beth.
- Dos males, seria o menor, voc no acha? Voc tem a prpria vida para viver. Esse homem com quem voc no quer se casar e esse irmo que s lhe causa ansiedade 
no tm nenhum direito de dirigir a sua vida.
- Mas eu nunca tomei dinheiro emprestado! - Beth comeava a se sentir atrada pela idia. - E se eu no conseguir saldar a dvida?
- No diga isso, Beth. - Madame parecia ofendida. - Voc tem um emprego excelente aqui comigo, e eu lhe pago um salrio muito bom. Claro que poder saldar a dvida. 
Como j lhe disse, essa financeira tem uma tima reputao. Alm disso, o meu nome consta nos livros de clientes preferenciais, de forma que a minha ficha vai facilitar 
as coisas para voc.
- Uma mulher no precisa ser casada para a levarem a srio nesses lugares? - perguntou Beth, receosa.
- Atualmente no, minha filha. As mulheres agora j so consideradas como pessoas normais e capazes, e no mais como complementos do sexo masculino, se bem que algumas 
pessoas ainda pensam que existe essa limitao. A mim me parece que esse magnata  uma delas! Imagino s a audcia dele, querer a sua juventude e a sua inocncia 
em troca da perfdia de seu irmo! Ele deve ser um monstro, apesar de voc tentar justific-lo.
- Ele  um homem habituado a negociar - explicou Beth, com a mente tomada pela expresso resoluta daquele rosto de guerreiro, que os verdadeiros homens de negcios 
acabam adquirindo no gosto das batalhas e na busca inflexvel da vitria.
- E ele acha que est fazendo um bom negcio casando-se com voc?
Beth deu de ombros.
- No sou to ruim assim. Ele sabe muito bem do meu desprezo por ele, e que nunca me teria como mulher por minha livre e espontnea vontade.
- Se ele  mesmo to insensvel como voc diz, isso no deve incomod-la. - Madame olhou-a de soslaio. - No p em que as coisas esto, ele a transformar numa escrava 
e lhe atirar sempre na cara a alegao de que est no seu direito de que a comprou com o dinheiro que seu irmo roubou dele. Nunca mais voc ter orgulho de si 
mesma. J pensou nisso?
- Sim. J pensei. - Beth levou as mos  cabea, desanimada. - Sinto-me como se estivesse sonhando, de to irreal que tudo isso me parece. Entretanto, sei que no 
posso contar com a possibilidade de acordar de repente.
- No  -toa que voc est se sentindo assim, Beth. Sem alarmar meus clientes, nunca procuro dissuadi-los da crena de que o diabo existe e que est sempre pronto 
a infernizar nossas vidas. Algo me diz que esse homem estranho tem parte com o demnio, pois existe uma zona de escurido em torno de voc, come se uma imensa sombra 
estivesse sendo projetada sobre voc. Afaste-se da influncia dele o mais rpido possvel, pois, do contrrio, voc estar perdida!
- Oh, por favor no me diga isso... - Beth murmurou, as sustada.
- E para o seu prprio bem, minha filha. Voc  jovem e precisa ser amada, no possuda. A escravido foi abolida entre ns desde o sculo passado.
- Mas ele quer uma resposta at quinta-feira  noite. O que posso fazer?
- Deixe por minha conta.
Madame Lilian levantou-se e caminhou at o armrio onde guardava a bolsa. Abriu-a e pegou uma carteira onde havia uma variedade de cartes com endereos e nmeros 
de telefones comerciais. Finalmente, encontrou o que procurava, e entregou a Beth um velho carto amassado.
- V ver essa gente - falou. - Tire a tarde de folga, Beth, e tome emprestada a quantia suficiente para pagar uma passagem de navio at a Austrlia para seu irmo. 
A vida  dura por l, mas quem sabe assim ele toma jeito. Reserve voc mesma a passagem, pois do contrrio ele gastar o dinheiro em outra coisa qualquer. Ele dever 
ir de navio mesmo, pois os avies chegam ao seu destino rpido demais. E pelo que voc me disse a respeito desse magnata, imagino que ele  bem capaz de mandar vigiar 
muitos aeroportos  espera da chegada de seu irmo. Ele pode mandar prend-lo e traz-lo de volta, e  exatamente isso que voc quer evitar, no  mesmo, querida?
Beth concordou e olhou para o carto que tinha nas mos. Detestava a idia de pedir esse emprstimo, mas, realmente, aquela era a nica sada plausvel para ela 
e para Justin. Sem dvida, seu irmo concordaria prontamente com a viagem. Ele era capaz de fazer qualquer coisa para se livrar de Alexis. E embora houvesse a possibilidade 
de aquele grego maldito mandar verificar as listas de passageiros dos navios, um pedido para que Justin fosse detido pelo comandante teria muito menos possibilidade 
de ser atendido.
Alm disso, Beth tinha a impresso de que a determinao de Alexis em querer ver Justin atrs das grades no era assim to grande. O que ele queria de fato era se 
apossar dela. O delito do irmo era apenas um pretexto.
- Beth, quem no arrisca... - Madame murmurou.
- Bem, no me resta mesmo outra escolha...
- Assim voc vai matar dois coelhos com uma s cajadada, minha filha.
Beth balanou a cabea, concordando. Indo para a Austrlia, Justin teria uma chance de se emendar. De qualquer forma, maior ansiedade do que aquela ele no poderia 
mais lhe provocar. Haveria uma distncia de meio mundo entre os dois homens, e ela ento ficaria em posio de dizer a Alexis Apollonaris que fosse para o inferno, 
onde era o seu lugar!
Sentiu uma pontadinha de remorso ao pensar em Cathlamet, mas, afinal, tratava-se apenas de uma casa, um edifcio de tijolos e pedras... Que, alis, se tornaria uma 
priso, se ela voltasse para l como esposa de Alexis.
Ela colocou-se de p, decidida.
-  isso que vou fazer.  melhor ficar devendo  financeira do que ao homem de quem lhe falei. Os donos da empresa certamente so menos impiedosos do que ele!
- Muito bem, Beth, estou gostando de ver. Agora prepare um caf, enquanto telefono para a companhia de navegao para saber se h algum navio de partida para a Austrlia, 
e o preo da passagem. Esse seu irmo desajuizado j lhe causou problemas demais.
- Ser que  isso mesmo que devo fazer? - Beth perguntou, ainda um pouco hesitante.
- Isso est escrito nas linhas tortas do seu destino - madame Lilian afirmou, sria.
CAPTULO TV
O telefone tocou, estridente, fazendo vibrar os nervos de Beth. Ela tinha acabado de sair do banho, e correu para atend-lo, enquanto amarrava o cinto de seu roupo.
- Al? Pois no.
- Srta. St. Cyr?  da Elias Mercantile. O dono da financeira deseja falar com a senhorita.
Beth sentiu seu corao disparar, apertado dentro do peito. A Elias Mercantile era a financeira onde ela fizera o pedido de emprstimo de vrias centenas de libras, 
concedido rapidamente aps a apresentao de madame Lilian como avalista. No contrato que ela tinha assinado constava que o pagamento seria feito em prestaes mensais, 
cujo valor, para seu alvio, no era alto demais.
- Alguma coisa errada, senhor? - Beth sentiu frio de repente e enrolou melhor o roupo em volta do corpo molhado.
- A senhorita parece nervosa. - A voz do outro lado da linha era grave e spera, com um sotaque estrangeiro que a fez estremecer e segurar-se na mesa do telefone, 
para no perder o equilbrio.
- Algum problema?
Beth olhou estupefata para o telefone. No era possvel que dois homens falassem exatamente da mesma maneira e no mesmo tom. No entanto, a telefonista tinha dito 
com todas as letras que se tratava do dono da Elias Mercantile.
- Por favor, com quem estou falando? - perguntou, respirando com dificuldade.
- Voc no reconhece a minha voz, Beth? Considerando o relacionamento especial que temos, isso me deixa um tanto decepcionado!
- Alexis Apollonaris? No, no  possvel!
- Sou eu sim - disse ele bem prximo ao fone.
- O senhor... no  o diretor da Elias Mercantile, ? - conseguiu perguntar.
- Entre outras coisas, sou.
- Oh, no! Meu Deus!
- O equivalente do nome Elias, em grego,  Apollo, minha querida. E, se voc tivesse estudado melhor os clssicos na escola gr-fina que freqentou, teria chegado 
a essa concluso sozinha. No que eu queira ter qualquer semelhana com o deus Apollo, mas  que o nome dele faz parte de meu sobrenome. Mas que destino caprichoso 
esse nosso, no Beth? Voc foi tomar dinheiro emprestado para mandar seu irmo para longe do meu alcance logo na minha companhia, hein?
"Pelo menos Justin estava a salvo", Beth pensou. Ele tivera a sorte de conseguir lugar num navio para Cingapura e agarrara-se com unhas e dentes  oportunidade de 
deixar seus problemas para trs. No ficara nem um pouco embaraado por Beth ter sido obrigada a contrariar seus princpios e fazer um emprstimo a seu favor. Ele 
a abraara com fora e sara em disparada para tomar o trem que o levaria a Southampton, de onde partiria o navio.
- Mandarei um carto-postal - disse, atirando-lhe um beijo. Beth agora se dava conta de que o irmo devia saber muito bem que a Elias Mercantile era uma das empresas 
de Alexis Apollonaris, a conceituada e fidedigna financeira to recomendada por madame Lilian, que enxergava tudo em sua bola de cristal, menos a cilada na qual 
ela acabara de se meter. Beth se recomps com dificuldade.
- Por acaso pensou que eu ia aceitar pacificamente os termos da sua proposta de casamento?
- O que eu pensei ou deixei de pensar no vem ao caso. Mas eu a preveni que promessa de grego  dvida. Realmente, voc no teve muita sorte vindo bater  minha 
porta em busca do emprstimo para mandar seu irmo para fora do pas. Trabalhou rpido e com eficincia, o que aumentou minha admirao por voc. No entanto, tem 
de admitir que agora est duplamente em dbito comigo.
- Miservel! - murmurou Beth, sentindo uma vontade louca de bater o telefone e sair correndo, numa fuga sem destino.
- Lamento por voc, Beth, pode crer. O que aconteceu deve mesmo ter sido muito desagradvel e lhe causado um enorme desapontamento. Da prxima vez, diga  orcula 
para quem voc trabalha que procure se concentrar mais na bola de cristal. Sei que ela foi cliente da Elias Mercantile, por isso estou certo de que foi ela quem 
planejou tudo.
- Madame Lilian achou que seria uma sada honrosa para mim.
- Ela leu tambm as cartas do Tar?
- O senhor  um demnio! Sua sorte s pode ser coisa do diabo, sabia?
- Se  isso o que voc acha... - Ele riu, sarcstico. - Ns temos alguns assuntos de interesse comum para tratar, por isso passarei a dentro de mais ou menos uma 
hora. Iremos jantar juntos, est bem? Esteja pronta, sim?
Sem esperar resposta, Alexis desligou. Beth ainda ficou segurando o fone ao ouvido, meio atnita, mas s ouvia o sinal eletrnico indicando linha desocupada. Colocou 
o fone no gancho e caminhou at o sof, com as pernas bambas. Sentou-se e abraou uma almofada, procurando algum conforto. Tudo fora em vo. Ela continuava presa 
quela teia tramada pelo irmo.
Desde o comeo uma espcie de premonio dizia-lhe que ela no iria conseguir iludir Alexis Apollonaris e agora, passado o choque da surpresa, parecia apenas que 
as coisas seguiam seu prprio curso. Era fcil perceber que ele no era um homem convencional, e que gostava de projetos que envolvessem riscos. Assim, nada mais 
lgico do que ser proprietrio de uma financeira, um tipo de negcio arriscado.
Ele certamente achara engraado o fato de ela, uma pessoa to ingnua em negcios, ter-se tomado cliente da Elias Mercantile. No restava dvida de que ele havia 
levado a melhor, esse grego de ao que aprendera a no ligar para a estima das pessoas, contanto que fosse respeitado. Alexis crescera enfrentando a crueldade dos 
que faziam pouco de uma criana, unicamente por ela ser filha de um pai ignorado.
A armadura que o protegia aumentara de tamanho junto com o menino, centmetro por centmetro, at envolv-lo totalmente, de tal forma que nada mais pudesse penetrar 
em seu corao.
- Ele  inabalvel, indestrutvel, mas eu no sou - Beth disse Para si mesma.
Dentro de uma hora Alexis Apollonaris estaria ali. Vinha busc-la, certo de que se casaria com ela, quer ela quisesse ou no. Como ele afirmara, ela estava de novo 
em dbito com ele. Tinha cado definitivamente em suas garras e agora s lhe restava mostrar dignidade. Sempre se orgulhara de ser uma mulher correta e honrada. 
Portanto, no havia motivos para de repente deixar de andar com a cabea erguida.
Foi at o quarto, abriu o guarda-roupa e deu uma olhada em seus vestidos. Separou um preto discreto, com um delicado friso branco na gola. Iria us-lo. Alexis Apollonaris 
certamente entenderia o recado. No tinha o que comemorar ante a perspectiva de casamento com um homem que s pensava em dinheiro sem reservar nenhum espao para 
o amor.
O preto lhe caa bem mesmo, porque realava sua pele clara. Puxou os longos cabelos loiros, prendendo-os em um coque, atrs da cabea. Depois, pintou os lbios e 
colocou um par de brincos de prolas. Olhando-se no espelho, reparou que a apreenso havia dilatado suas pupilas, fazendo diminuir a rea ocupada pelas ris acinzentadas.
Era isso que Alexis Apollonaris queria: a sua tonalidade loira para contrastar com a cor morena de sua pele, a sua linhagem nobre para compensar a sua origem desconhecida. 
At mesmo a rebeldia que emanava do brilho dos seus olhos, o nariz afinado, a boca em forma de corao, e o queixo bem desenhado ela sabia que eram do agrado de 
Alexis.
H muitos e muitos anos, um cavaleiro normando, que construra Cathlamet numa gleba que lhe fora dada pelo rei como recompensa por sua valentia no cerco de York, 
obrigou a filha de um cavaleiro saxo a se casar com ele. Beth fora com o pai, quando criana, a uma igreja em York, onde ele lhe mostrara num vitral colorido o 
desenho da esposa sax ajoelhada num genuflexrio. Beth lembrava-se bem da semelhana que havia entre aquela mulher loira e ela prpria. Os genes saxes em combate 
com os genes normandos haviam produzido alguns descendentes de cabelos claros e olhos acinzentados. Ela era um deles.
Apesar de no ostentar vaidade, no ntimo Beth sabia que Alxis Apollonaris admirava a sua beleza e que esse era um dos motivos pelos quais estava to determinado 
a possu-la.
Prendeu a respirao ao imaginar que talvez ele conhecesse a histria da moa sax, levada para Cathlamet na garupa do cavalo de um normando. Era o tipo de histria 
que agradaria a um homem forjado das origens humildes para uma posio de todo-poderoso.
Nada melhor que ser proprietrio de uma financeira para desfrutar o prazer de jogar com a vida das pessoas, de ser senhor do bem e do mal. Indignou-se com esse pensamento, 
a ponto de ficar com as faces avermelhadas. Foi ento que a campainha tocou.
Abriu a porta com m vontade. Alexis entrou, olhando-a como se j fosse o seu dono.
- Voc est muito bonita, moiya. - Ele se aproximou dela e Beth recuou instintivamente, imaginando que talvez ele fosse selar sua posse com um beijo. - No se assuste, 
querida. No vou estragar sua maquiagem, nem desmanchar seus cabelos. Ainda no. Tome isso. Coloque-o no casaco.
Ele lhe entregou uma caixa de tampa transparente, dentro da qual havia um ramalhete de orqudeas.
- Obrigada. - Ela ergueu a tampa, satisfeita por poder olhar para as flores e no para os olhos dele. Porm, ao tirar as orqudeas da caixa, ficou embaraada ao 
deparar-se com um broche lindssimo em forma de borboleta, desenhada com reluzentes pedras azuis e verdes. - O senhor no devia...
- Isso no custou todo o dinheiro do mundo - ele brincou. - Alm do mais,  costume se presentear a moa com quem vai se casar, no  mesmo?
-  que... trata-se de um caso... - Beth interrompeu-se e tentou disfarar sua dor, mordendo o lbio inferior ao espetar um dedo no prendedor do broche.
- Cuidado, querida. Assim voc no chega inteira at o altar. Alexis pegou de cima da cadeira o casaco de pele de lince que ela havia usado na noite em que tinham 
se encontrado e olhando-o, com a testa franzida, disse:
- Vou-lhe comprar um de marta, bem bonito.
- Gosto deste mesmo. Comprei-o numa loja de roupas usadas,  verdade, mas gostei dele assim que o vi. E, se quer saber, casacos de pele de marta no fazem o meu 
gnero.
- Logo, logo voc mudar de idia, meu bem. - Alexis tirou as orqudeas e o broche das mos trmulas de Beth, prendeu a jia no casaco e depois colocou-o sobre os 
ombros dela.
- O senhor nunca admite que algum o contrarie, no? - perguntou ela, com o rosto erguido e um olhar altivo.
- Nem sempre isso  possvel. Mas voc h de convir que um marido rico  melhor do que um marido pobre. O amor numa cabana pode parecer muito bonito num romance, 
mas na realidade no significa nada, a no ser frio e fome.
- Eu... tenho certeza de que um amor verdadeiro pode superar todas as dificuldades.
- Na teoria, tudo  possvel, minha cara. Mas, na prtica, o amor, como as rosas, s pode florescer  luz do sol. Sobre a pobreza, posso falar por experincia prpria. 
- O tom dele tornou-se spero. 
- Vi com meus prprios olhos como o lado bondoso e gentil de minha me foi endurecendo com as dificuldades da vida. Ela era uma garota quando fez a bobagem de entregar-se 
ao calor dos braos do homem errado. Mas ela nunca pde se esquecer desse erro, pois a minha vinda ao mundo dificultou muito mais as coisas.
-  por isso que no gosta muito das pessoas? - Beth sentia pena do menino que tivera que enfrentar tantas agruras para se transformar no adulto forte e poderoso 
de agora. A armadura de Alexis no era visvel como a de um cavaleiro normando, mas sem dvida ele a possua.
- Voc acha que  necessrio gostar das pessoas? Existem algumas que respeito pela perspiccia e outras que admiro pela aparncia. E muitas que desprezo totalmente 
por suas mentes limitadas. Sou um ser humano, moiya, e nas circunstncias em que vivi, felizmente, tornei-me imune  hipocrisia. No sofro da doena social de dizer 
coisas bonitas na frente das pessoas, para depois apunhal-las pelas costas. Resumindo, Beth, no uso nenhuma mscara de polidez para encobrir pensamentos desagradveis.
- Para um grego, o senhor se expressa muito bem em francs, sr. Apollonaris. - Que a mscara que ele usava no era de falsidade, isso Beth sabia muito bem.
- Por favor, minha querida, daqui para a frente, me chame de Alexis e trate-me por voc. - Ele olhou-a bem firme nos olhos, avisando que no admitiria recusa. - 
Esse formalismo no se justifica. Saiba que a considero to minha quando Cathlamet. Voc  parte daquela casa. No tem nada a ver com este lugar de paredes sujas 
cheirando comida pelos corredores, com o barulho de rdio transmitindo futebol e discusses em voz alta.
Ele segurou-a pelos ombros com firmeza, mas sem machuc-la.
- Pelo amor de Deus, criana, ser que no entende que prometi a seu pai que haveria sempre um lugar para voc em Cathlamet? Apesar de ter sido um homem desatinado, 
ele a amava muito. E ficou com o corao despedaado ao saber que voc iria ficar privada de seu lar. Acha que se no fosse por voc, eu estaria conservando aquela 
manso de pedras?
Beth olhou para o rosto moreno de Alexis e seu corao comeou a bater mais forte dentro do peito, mas no podia se deixar impressionar assim to facilmente. 
- Eu... sabia que tinha sido por isso que me props casamento antes. Sabia que era por causa da sua conscincia...
- A minha conscincia que se dane!
Ele a segurou com fora e a beijou com violncia. A sensao de ter sido invadida por uma corrente eltrica, portadora de luz e calor, percorreu todo o seu corpo. 
Naquele exato momento, Beth teve certeza de que Alexis era um conquistador igual quele que construra Cathlamet.
Quando seus lbios se separaram, Beth estava completamente aturdida, zonza e ofegante. No conseguia dizer coisa alguma, nenhuma palavra lhe ocorria.
- Minha conscincia no teve nada a ver com isso - ele falou baixinho. - Trata-se apenas dos meus sentidos. Voc  a mulher que eu quero, e voc ser a minha esposa.
- Mesmo sabendo que eu no o amo? - Beth conseguiu argumentar.
- A que amor voc est se referindo? Aquele dos livros de histrias? Aquela paixo entre almas gmeas? - Ele riu. - O que sentimos, Beth, sentimos com o corpo. No 
existe no homem ou na mulher nenhum rgo mstico, do contrrio j teria sido localizado pela cincia. Nossos desejos provm da carne. E o que h de errado nisso?
Enquanto falava, Alexis ia-lhe acariciando o rosto, e de vez em quando descia com delicadeza as pontas dos dedos por seu pescoo, lhe provocando arrepios.
- Eu sei que voc reage aos meus toques, Beth. Estou sentindo a sua pulsao acelerada.
- Nossos coraes tambm disparam quando estamos assustados...
- Quer dizer ento que eu a assusto? - Ele sorriu, parecendo se divertir com a idia. - Chega de conversa. Vamos embora daqui. Voc est precisando relaxar um pouco. 
Reservei para ns uma mesa no Torre de Rubi, um restaurante grego cuja comida  de dar gua na boca. - Pegou-a pela mo, puxando-a em direo  porta.
- Venha, vamos jantar!
O carro de Alexis estava estacionado diante do prdio. Ao entrar,
Beth reparou na cor cinza do estofamento luxuoso e do sbrio revestimento interno.
- E a minha cor preferida - afirmou Alexis, olhando-a no fundo dos olhos.
Ela estremeceu. Sabia que  sua maneira ele a estava cortejando de um modo ao mesmo tempo sutil e audacioso.
At ento, Beth no tinha tido nenhuma experincia com homens e nem sonhado com o repicar dos sinos do casamento. Ser que os sinos tocavam nos casamentos gregos? 
Sem dvida, Alxis Apollonaris ia fazer questo de uma cerimnia tpica de sua terra natal.
"Eu vou me casar com esse homem!", pensou Beth, tomada de pnico. "Ele acha que o meu amor por Cathlamet pode compensar a falta de amor entre ns!"
- Voc gosta de comida grega? - perguntou ele, voltando-se para ela, ao parar o carro num sinal vermelho.
- No sei, nunca experimentei - ela respondeu, mexendo nervosamente com o cinto de segurana que a mantinha presa ao lado dele.
- Pois tenho certeza de que voc vai gostar.
Ele arrancou novamente, rumando para a parte mais tranqila de West End. Alexis dirigia da mesma forma como tudo o mais que fazia: com determinao e preciso, sem 
nenhum sinal de nervosismo.
Beth no estava com fome, e nem mesmo o cheiro gostoso da comida dos outros freqentadores lhe despertou o apetite.
O maitre levou-os at uma mesa isolada, que ficava embaixo de um belssimo mural de motivos gregos, onde um cocheiro de biga segurava com firmeza e elegncia uma 
parelha de cavalos rebeldes.
Beth olhou para o rosto do homem do mural e viu nele a mesma definio de feies, de fora e de confiana que se refletiam no rosto do homem sentado  sua frente.
- Posso sugerir? Experimente um prato tpico - Alexis falou.
- Pea para mim. - Ela procurou no demonstrar interesse pelo cardpio. - Vou deixar por sua conta... No  voc que agora toma conta da minha vida?
- Mas como voc faz drama! Muitas mulheres adorariam estar no seu lugar, comendo num restaurante como este...
- Pena que eu no seja uma delas. Se voc esperava ver-me deslumbrada com tudo isso, perdeu seu tempo.
- No esperava nada que no estivesse dentro das minhas possibilidades, moiya - retrucou Alexis, enquanto passava os olhos pelo cardpio. O garom se aproximou, 
com o bloco de anotaes, e ele fez o pedido em grego, voltando-se a seguir para ela. - Como voc acha que seu irmo vai se virar em Cingapura, longe da sua fonte 
de rendas e da irmzinha salvadora?
Beth olhou-o com seriedade, sentiu-se como uma mosca presa numa teia de aranha.
- Ser que o senhor... h... voc... no poderia ser um pouco menos maldoso? Deve ter parte com o diabo para se divertir assim com a infelicidade alheia.
- Quem sabe no serei eu o prprio filho do diabo? - Alxis olhou-a com sarcasmo. - Para quem no tem coragem de encarar a verdade dos fatos, acreditar no sobrenatural 
 um consolo, no?
- Voc por acaso conhece o significado da palavra verdade? - ela perguntou, encarando-o.
- Existem dois tipos de empresrios, sabia? - Ele partiu um po em forma de vara com as mos. - Existem os que abusam da confiana e os que inspiram confiana. Sou 
acionrio de muitas companhias e nunca fui acusado de desonestidade por ningum. Voc me odeia por causa de Cathlamet, eu sei. Mas a hipoteca da casa veio parar 
nas minhas mos legalmente, sem que eu desse um passo para isso. Seu pai precisava de dinheiro e, como o meu negcio  fornec-lo, assim o fiz. Infelizmente boa 
parte dele foi parar nas mesas de jogo, e ele foi se endividando cada vez mais, e sempre precisando de novos emprstimos para saldar suas dvidas. Se ele no tivesse 
freqentado meu clube, teria cado nas mos de algum que lhe teria tomado at as roupas do corpo. Pode estar certa disso, eu conheo bem os exploradores do ramo.
Alexis sustentava o desafio de Beth com um olhar prolongado e dominador.
- Se eu tivesse uma filha, querida, construiria um lar para ela, ao invs de perd-la no jogo. Ponha um pouco da culpa em seu pai. Afinal, foi ele quem a privou 
de Cathlamet.
- Voc no acha que  um negcio sujo dirigir clubes onde homens jogam fora a prpria vida?
- No costumo encorajar, nem receber bem, freqentadores do tipo de seu pai.
- Tem certeza? - Beth corou, pois no havia como negar o vcio febril que o pai tinha pelo jogo. - Por que ento permitiu que ele freqentasse o seu clube?
- Voc sabe a resposta, Beth.
- Ento, por favor, confirme.
- Noite aps noite, eu o via jogando sua herana fora, numa mesa de jogo, e me perguntava como ele podia fazer uma coisa dessas. Ficava observando-o, at meio fascinado. 
Ele vinha ao Cassandra, com ares de cavalheiro e deixava um pouco de sua histria entre as cartas e os dados. Os donos dos clubes no criam os jogadores, eles  
que precisam dos lugares onde se perder. Eu, por minha vez, era um homem deserdado da sorte, que tinha decidido fazer fortuna. - Alexis levou as mos ao rosto. - 
Quer saber como me tornei proprietrio do Cassandra?
- Se quiser me contar, conte. - Beth procurava no demonstrar interesse, mas, sem dvida, gostaria de saber. Afinal, o Clube Cassandra fora uma espcie de segundo 
lar para seu pai.
- Eu estava com um navio carregado de tecidos que deveria ir para a China. Mas surgiu um negcio e acabei trocando a carga pelo clube. Quando assumi a direo, Geoffrey 
St. Cyr, um dos mais assduos freqentadores, j se encontrava muito endividado. Eu o achei meio confuso, mas gostei dele. Os cavalheiros ingleses costumam ser afveis 
e simpticos.
- Ao contrrio dos gregos...
- Ser que algum dia, como seu marido, ouvirei de sua boca algum elogio?
- Um homem que se impe como marido no pode esperar muita coisa, no  mesmo?
- Voc est chicoteando o cavalo errado, querida - ele falou, olhando para o mural. - Ainda no lhe ocorreu que, casando-se comigo, voc estar recuperando todas 
as coisas que seu pai jogou fora, e ainda muito mais?
- No sou uma mercenria como o senhor, sr. Apollonaris - ela desdenhou. - Sua lei  o dinheiro, no?
- Eu o respeito, s isso. - As feies de Alexis tornaram-se duras. Ele enfiou a mo no bolso do palet, tirou uma caixinha e estendeu-a para ela. - Experimente 
para ver se serve. Quem sabe, depois de comear a us-lo, voc resolve me chamar pelo primeiro nome.
- O que ? - perguntou ela, sabendo muito bem o que havia dentro da caixa.
- Abra.
- No, no vou abrir.
- Ento deixe que eu mesmo abro. - Ele tirou a caixa das mos dela e mostrou um anel no seu leito de cetim. Dois rubis idnticos reluziam engastados numa armao 
de ouro muito brilhante. - Brilhantes tm um brilho frio, esmeraldas so espalhafatosas e opalas trazem m sorte. Por isso escolhi rubis, que brilham como chamas 
incandescentes. D-me sua mo!
Beth permaneceu com as mos fechadas sobre o colo, desafiando aquele olhar enfurecido. Ele no podia obrig-la a aceitar o anel num lugar pblico, com todas aquelas 
pessoas olhando... Ou ser que podia? Beth j no tinha mais certeza de nada.

CAPTULO V
As pedras do anel brilhavam como fogo, na palma da mo de Alexis.
- Existem coisas que precisamos fazer, Beth, por bem ou por mal. Voc, por exemplo, precisa usar este anel. Alm disso, ele vai ficar lindo em contraste com a alvura 
de sua pele, e um pouquinho de vaidade torna qualquer mulher mais feminina. Vamos, Beth, d-me sua mo.
- Eu... no sou nenhuma criana...
- Ento pare de se comportar como se fosse.
- No gosto de usar anis... Eles me incomodam.
- Voc vai ter que se acostumar com este, por isso  bom comear j. Estenda a mo!
O tom de voz e o olhar de Alexis tinham se tornado mais imperativos, e ele parecia no ligar nem um pouco para o fato de estar despertando a ateno dos ocupantes 
das mesas vizinhas. Embaraada, Beth estendeu a mo, e ele lhe enfiou o anel no dedo.
- Pronto, querida. No  melhor assim, sem cenas?
- No estou nem um pouco feliz, se quer saber.
- Pois faa um esforo. Ser melhor para ns dois.
O garom aproximou-se trazendo o vinho que lhe fora encomendado. Tirou a garrafa do balde de gelo, segurando-a com um guardanapo, e mostrou o rtulo a Alexis, que 
o aprovou com um gesto de cabea.
- O vinho tem a mesma idade da minha noiva - comentou. O rapaz olhou para Beth e sorriu, respondendo qualquer coisa em grego. Depois abriu a garrafa, encheu as taas 
e afastou-se discretamente. Curiosa, ela quis saber o que o garom havia dito.
Alexis ergueu a taa e contemplou a bebida atravs do cristal.
- Disse que serei um homem de sorte se minha noiva for to doce quanto o vinho.
Ela corou.
- Pena que eu no seja.
- Quem sabe? A vida nos reserva surpresas, no?
- Uma mulher pode ser meiga sem alegrias? Estou levando isto adiante porque no tenho escolha. Estou aqui, usando este anel, porque fui forada. Mas no pode esperar 
que um animal capturado comece de repente a lamber a mo daquele que o aprisionou.
- Voc est interpretando mal minhas aspiraes, Beth. No estou querendo ser bajulado.
- O que quer ento? - perguntou ela, olhando-o nos olhos, irritada.
- Exatamente o que j tenho.
- E o que  que j tem?
- Voc. Yasas! - Ele levou a taa aos lbios e tomou o vinho em grandes goles, de uma maneira muito sensual, como se a estivesse sorvendo, saboreando seus lbios, 
seu corpo. Depois pousou a taa vazia sobre a mesa. - Minhas decises no so influenciadas pelos sentimentos,  bom voc saber disso.
- Desejo de vingana no  um tipo de sentimento? - A certeza de que aquele casamento baseava-se na vingana fez Beth sentir um gosto amargo na boca, que encobria 
toda a doura do vinho.
- E mais que um sentimento,  um impulso natural, apesar de ter aparncia de maldade. 
- Mesmo quando a vtima  inocente e no tem nada a ver com a histria?
- No  esse o seu caso, moiya. Afinal, voc tambm  minha devedora.
- E o que foi que tomei de voc? - perguntou ela, espantada. - Ns nos encontramos to poucas vezes.
- De fato! - ele falou, parecendo no querer continuar com a conversa, olhando para uma mulher sentada numa mesa prxima. O vestido da moa tinha um decote enorme. 
- O corpo da mulher foi feito para a intimidade, no para exibies pblicas. - Olhou com ar de aprovao para o vestido de Beth.
O garom trouxe o prato de entrada. Eram fatias de peixe defumado acompanhadas de berinjela, alcachofra e azeitonas grandes. Pezinhos de gergelim tambm foram servidos.
- Ns chamamos esse po de Kalouria. - Alexis partiu um pedao de po e mastigou-o com prazer. - Ele  feito diariamente e no se usam embalagens plsticas para 
conserv-lo. No  -toa que os ocidentais esto se tornando um tanto artificiais em suas emoes e em seu comportamento. Um bom po  o esteio da vida.
Beth resolveu experimentar um pedao e compreendeu o que ele estava querendo dizer. Aquele grego parecia ter sempre razo, apesar da maneira peculiar com que falava 
e a indiferena pelas reaes das pessoas quanto s opinies que manifestava.
- Vai insistir para que tenhamos uma cerimnia grega de casamento? - Beth. perguntou, buscando coragem num gole de vinho.
- Claro, pedhi mou. - Ele estalou os dedos para o garom, o que significava mais po.
- Espero que ela no seja longa e complicada - disse Beth, cortando nervosa uma fatia de peixe.
Ele fez um gesto negativo com a cabea.
- Os casamentos gregos so muito bonitos, voc ver. Ns vamos nos casar na Grcia.
- Na Grcia! - exclamou Beth. - Oh, mas deve haver igrejas neste pas onde possamos... nos casar.
- Sem dvida, mas, como eu j lhe disse, quero que minha me assista ao casamento, e ela nunca viria at aqui s para isso. Voc vai gostar do meu pas. L o sol 
est sempre brilhando.
- Tudo precisa ser  sua maneira, no  mesmo? - Beth olhou-o, ressentida. - Nunca leva a vontade dos outros em considerao?
- s vezes, levo sim. Voc tem pessoas muito queridas aqui na Inglaterra, ou apenas alguns parentes distantes? Gosto muito de minha me, e ela ficar feliz em assistir 
ao nosso casamento. Para ela ser uma espcie de compensao por algo que ela no teve. Eu sei que voc  capaz de entender, Beth, voc no  uma pessoa egosta.
- Realmente no sou. No estaria nesta enrascada se pensasse um pouco mais em mim.
- Voc diz coisas to agradveis ao seu noivo! - ironizou ele. - Dizer que se encontra numa enrascada significa que se acha numa situao da qual no pode sair, 
no ?
- Obviamente, voc no vai me deixar livre desta.
- Voc fala como se fosse a mocinha dos filmes de bangue-bangue, amarrada aos trilhos do trem - comentou ele com uma risada spera. - Est esperando ser salva no 
ltimo momento, no ? No sou o mocinho com seu cavalo branco, moiya, mas tambm no sou o vilo... No acredita?
- Tambm no sou nenhuma herona. Mas a perspectiva de me casar com um estranho me apavora.
- Ora, Beth, deixe disso. Se voc temesse realmente o desconhecido, no trabalharia com uma vidente, a renomada madame Lilian.
- Essas coisas so motivos de riso para voc, claro! Acha que madame Lilian s diz besteiras, no ?
- Voc est enganada, Beth. Ns, gregos, somos muito supersticiosos. Na cidade de Delfos existe um orculo a que todos costumam recorrer e muitas moas da aldeia 
ainda conservam certas tradies esquisitas relacionadas ao amor. Elas fazem de tudo para saber quando aparecer o homem maravilhoso que far de suas vidas uma aventura. 
Os clientes de madame Lilian tambm buscam esse tipo de resposta?
- De vez em quando, sim. Mas a maioria deles procura uma forma de solucionar problemas profissionais e financeiros.
- Pelo jeito ela no costuma acertar muito, do contrrio teria enxergado meu rosto na bola de cristal.
- E que voc deve possuir uma aura muito forte de autoproteo. "Realmente, estou diante de um homem especial", pensou Beth. 
Os videntes so sensveis a todos os tipos de influncia e certamente a fora de Alexis impedira madame Lilian de visualiz-lo. Essa irradiao de fora era evidente 
no s nas feies dele, como tambm na sua constituio fsica, no brilho do olhar, na cor dourada das ris em contraste com os clios longos e negros.
Enquanto pensava, Beth via os garons se movimentarem. Um se aproximou da mesa deles e levou embora os pratos e talheres usados. Dali a pouco trouxe, sobre um carrinho, 
um pernil de carneiro disposto no centro de um bonito arranjo de legumes variados. A apatia em que ela se encontrava foi substituda por um apetite sbito. No fez 
nenhuma objeo quando o garom fatiou uma boa poro de carne e colocou-a em seu prato, junto com batatas assadas, couve-flor e cenouras.
- Quer molho, senhora?
- Sim, por favor. - Enquanto olhava o garom despejar o molho escuro e fumegante em seu prato, Beth reparou que Alexis a observava, provavelmente achando graa na 
sua disposio repentina pela comida.
- No espere por mim - disse ele. - A comida deve ser apreciada enquanto ainda est quente... Assim como nossos outros apetites.
Mas ela esperou at que ele fosse servido, esforando-se para no demonstrar nenhuma reao quele ltimo comentrio. No tinha a pretenso de se achar conhecedora 
dos homens, mas sabia instintivamente que a sensualidade de Alexis Apollonaris tinha a fora da sua ambio, mesma ".
Quando cortou a carne e viu os rubis cintilarem em sua mao, Beth compreendeu que Alxis ia exigir que o casamento deles se consumasse de fato, no admitindo que 
ficasse apenas numa espcie de simulao legal.
- Voc gosta de carne de carneiro - ele perguntou. 
- Gosto. Desde que no seja um daqueles sacrificados.
- Est fazendo uma aluso a voc mesma, no?
- No  isso que sou? Uma ovelha sacrificada?
- No, querida. Voc  uma ovelhinha apetitosa, de cabelos loiros, o]hos cinzentos e corpo convidativo - retrucou ele, olhando-a com languidez e levando em seguida 
uma fatia de carne  boca.
Beth corou e baixou os olhos. Ele j estava comeando a cobrana pelos dbitos de Justin. 
Como sobremesa foi servida uma torta de uvas do campo, recm-sada do forno, com creme de chantilly. Estava deliciosa e Beth no conseguiu deixar de elogi-la.
- Que bom que a minha princesa gostou de alguma coisa - Alxis disse sorrindo - Tudo o que comemos eram pratos tpicos gregos, menos esta sobremesa. Eu a conheci 
no restaurante de um amigo norte-americano, que me forneceu a receita. O cozinheiro da Torre de Rubi prepara-a especialmente para mim quando venho jantar aqui. At 
que enfim podemos dizer que temos algumas coisas em comum, moyia. A cozinheira que contratei para Cathlamet sabe preparar esssa torta com perfeio; alis este foi 
um dos requisitos para a contratao. Quem sabe agora, voc comea a tomar gosto pelo nosso casamento...
- O que foi feito de Sarah, a antiga cozinheira? - Beth sentiu um aperto no corao, pois lembrou-se da mulher trabalhando na espaosa cozinha com armrios de madeira, 
panelas e louas de barro. Reviu a mesa enorme com grandes gavetas, o fogo antigo, um dos primeiros industrializados, e as lmpadas presas em ganchos no teto caiado.
Sentiu vontade de voltar quela casa, mas sabia que quando o fizesse j seria como esposa de um homem quase estranho e que provavelmente nunca se deixaria conhecer.
Perdida em pensamentos, Beth nem se lembrava mais da pergunta que fizera quando a voz de Alexis trouxe-a de volta  realidade.
- Sarah no quis continuar trabalhando l. Disse que ia morar com a filha. Claro que algumas coisas esto mudadas, isso foi inevitvel. Contratei outro homem para 
cuidar dos estbulos, e h tambm alguns cavalos novos. A casa sofreu uma pequena reforma, mas no foi feita nenhuma mudana que alterasse o ambiente. Sou considerado 
uma pessoa de bom gosto, sabia?
Alexis passeava os olhos pelos cabelos e o rosto de Beth enquanto falava, com ar de satisfao, como que demonstrando que a considerava mais uma prova de seu bom 
gosto. Ela devia se sentir lisonjeada com isso, no entanto o que lhe passava pela cabea era a conscincia de estar sendo avaliada como um objeto de valor. E era 
o que faltava a Cathlamet, certamente o que daria alma quele lugar e vida s paredes lavadas pela chuva, s torres de pedras que ficavam acima dos telhados.
De repente, um alvoroo tomou conta do salo de refeies. Um dos fregueses comeou a tossir sem parar e ia ficando cada vez mais vermelho. Muitos se levantaram, 
olhando de longe, outros se aproximaram, alguns cochicharam, mas ningum fazia nada. A mulher que o acompanhava estava petrificada em seu lugar, apavorada.
Alexis olhou para um lado e outro e correu at o homem. Com rapidez e firmeza, inclinou a cabea dele para trs, enfiou o dedo em sua garganta e tirou alguma coisa 
para fora. Trs minutos depois, o homem j estava respirando normalmente e a cor do rosto tambm tinha voltado, mas Alexis continuava l, de p, ao lado dele.
Do seu lugar, Beth acompanhava a cena, com a respirao suspensa. A mulher finalmente levantou-se, foi at Alexis e abraou-o. Ele inclinou a cabea e lhe disse 
alguma coisa, em voz baixa, e afastou-a com delicadeza.
Enquanto Alexis voltava, Beth olhava-o, com admirao. Todos no restaurante haviam se limitado a olhar para o homem, impotentes ou ento alarmados, mas ele agira 
sem qualquer hesitao.
Tinha um ar de satisfao, mas logo estava novamente sentado ao lado dela, tomando com naturalidade o seu caf.
- Ele engasgou-se com um pedao de fruta - disse. - Foi um pedao de laranja. Esto indo embora agora. Eu aconselhei  mulher dele que o levasse ao hospital para 
ver se no lhe arranhei a garganta. Quando eu estava na escola, no curso primrio, uma criana tambm se engasgou com um pedao de laranja, e ao remov-lo a professora 
arranhou sua garganta, o que acabou se transformando numa infeco sria.
- Voc  um homem imprevisvel, Alexis.
- Oh, no acredito! Finalmente voc est me tratando pelo primeiro nome, no esperava isso to cedo.
Beth ficou sem jeito, pega num flagrante, mas rapidamente voltou  defensiva.
- Por isso no. Posso me controlar da prxima vez, j que frustrei suas expectativas. O que eu quis dizer  que voc assume o controle da situao de uma forma imprevisvel. 
Mas no pense que eu vou permitir que voc controle minha vida. Quero continuar trabalhando, em vez de ficar o tempo todo em casa como um bichinho de estimao.
- Deixe de bobagens, menina! - Alexis fez um gesto de impacincia e empurrou um prato com doces srios e fondants, na direo de Beth. - Coma um desses doces, moiya. 
Aproveite as vantagens da idade e desse corpo esbelto para se deliciar com as douras da vida. Alm disso, no se preocupe com uns quilinhos a mais. A minha parte 
turca aprecia muito as mulheres cheinhas.
- No tenho nenhuma obrigao de me preocupar se o estarei agradando ou no - falou Beth, furiosa, sentindo mpetos de atirar na cara dele aquele anel, ou melhor, 
aquele grilho de luxo, antes de sair correndo dali.
- Voc no sabe o que est perdendo! - Ele ps um doce na boca e mastigou-o com prazer.
- Mas sei o que estou ganhando! Um algoz arrogante e cnico que nem se d ao trabalho de levar em considerao o que eu digo.
- Acalme-se, Beth. As verdades no precisam ser reafirmadas a toda hora, elas acabam se impondo com o tempo.
- Oh... - Beth fechou os olhos. Nem sabia o que dizer. Pegou a bolsa, afastou a cadeira e levantou-se. - Vou at o toalete... e espero encontr-lo fulminado por 
um raio quando voltar.
Chegou ao toalete tremendo de raiva e caiu num choro convulsivo. Depois enxugou as lgrimas com fora, ciente de que no poderia fazer nada. Se sasse correndo da 
Torre de Rubi e fosse se refugiar no seu apartamento, sabia que ele chegaria l antes dela, pronto para reclamar sua propriedade.
Isso era tudo o que ela significava agora: a propriedade de um homem que avaliava as coisas e as pessoas pelo seu valor financeiro. Ele tinha observado pacientemente 
o seu pai se arruinar, ento intervira e se apossara do que restara dos bens dos St. Cyr, Cathlamet e ela mesma.
"Miservel!", ela pensou, saindo resignada do toalete e encontrando-o j no vestbulo do restaurante com o seu casaco de pele na mo.
A aragem suave da noite proporcionou-lhe uma sbita sensao de bem-estar e o cu coalhado de estrelas pareceu-lhe anunciar que, apesar de tudo, ainda havia alguma 
perspectiva de luz e beleza. Pararam perto do carro e Alexis respirou fundo aquele ar que continha uma promessa de vero.
- Seu pas  bonito, Beth, e algo me diz que ele tem muito para nos oferecer.
- Sem dvida! No  aqui que a cada dia voc acumula mais riqueza?
Alexis olhou para ela e abriu a porta do carro com uma expresso contrariada.
- Entre.
Ela entrou e se encolheu no banco, instintivamente temendo a proximidade fsica daquele homem forte e atraente. Afastaram-se da Torre de Rubi e depois de alguns 
minutos, rodando em silncio, Beth observou que o caminho que estavam tomando no levava a Earl's Court, mas ao centro da cidade de Londres. Para onde ele a estaria 
levando? Esperava que no fosse para alguma boate. A ltima coisa que queria era danar com ele, ver-se envolvida pelos seus braos.
Entraram numa rua prxima a Piccadilly Circus e ele estacionou o carro junto ao meio-fio.
- Esta noite to agradvel me d vontade de caminhar. Vamos andar um pouco?
Beth aceitou sem discutir. Um passeio a p s lhe poderia fazer bem. Apesar de j ser tarde, ainda havia muitas pessoas na rua, Provavelmente atradas pelo espetculo 
de luzes de Piccadilly.
Alexis pegou a mo de Beth e prendeu-a em seu brao.
- Escute os pssaros - disse ele, enquanto andavam a esmo pela rua. Os bichinhos estavam nos telhados dos prdios, despertos por causa da iluminao intensa do centro 
da cidade. - Como v, querida, os seres vivos so capazes de se adaptar s circunstncias em que vivem.
-  verdade. Mas me d pena ver esses pssaros agitados, sem conseguir dormir, enquanto no campo seus companheiros esto mergulhados num sono tranqilo. Essa forma 
de sobrevivncia no  natural.
- Realmente. No entanto,  aqui que eles encontram o seu sustento. Mas no se esquea de que h muitas geraes eles passam suas vidas nos telhados de Piccadilly. 
No conhecem a sobrevivncia saudvel do campo, por isso essa daqui tornou-se natural para eles. Ao contrrio do que ocorre apesar desses dois anos que viveu em 
Londres, muitas vezes sente-se uma estranha, no  mesmo?
- s vezes, sim. Mas estou me adaptando.
- Acho que voc nunca deixou de pensar em Cathlamet e na vida que levava l, totalmente diferente daqui. Mas seu sonho agora ser realizado. Cathlamet espera por 
voc.
Beth sentiu um aperto no corao. Ento era essa a razo pela qual ele a trouxera at Piccadilly. Queria que ela ouvisse os pssaros da meia-noite, porque sabia 
que isso despertaria nela a saudade da casa onde vrias geraes de sua famlia haviam vivido...
Beth falou, ento, com ironia:
- Ah, voc est se preocupando com o meu bem-estar? No me disse que nunca fazia nada motivado por sentimentos?
Alexis no respondeu. Com a cabea levemente inclinada para trs, parecia muito atento ao gorjeio dos pssaros noturnos. Uma expresso triste apoderou-se de seu 
rosto.
Beth sentiu uma vontade repentina de acarici-lo, confort-lo. Mas ele deve ter notado, pois logo interrompeu-a, dizendo:
- Vamos embora. J est tarde.
Caminharam com passos largos at o carro. L, Beth sentiu-se mais confortvel e sua tenso diminuiu um pouco.
- Suponho que voc j esteja tomando as providncias, certo? - perguntou ela, querendo test-lo.
- Quanto ao casamento?
- Sim... Espero que no seja sua inteno transform-lo num acontecimento social.
- No se preocupe. J lhe disse que essas coisas no fazem o meu gnero. Ns nos casaremos em Atenas e depois navegaremos at Dovima, uma ilha que possuo no Mar 
Egeu. Passaremos nossa lua-de-mel l.
- Entendo. Voc no est precisando da minha opinio para nada, no  mesmo?
- Gostaria que voc escolhesse o seu vestido de noiva.
- Vamos nos casar na igreja?
- Claro!
- Sua me vai aprovar esse seu casamento com uma moa inglesa?
- Sem dvida, ela preferiria uma noiva grega. Mas, como ela sempre acha que tudo que fao  bem-feito, tenho certeza de que a receber muito bem.
- Oh, Alexis... por favor - ela suplicou -, vamos desistir desse projeto maluco. No  possvel sermos felizes assim.
- Nossa felicidade no me preocupa muito. Sou exigente quanto ao nosso bem-estar, isso sim.
O carro estacionou suavemente junto  calada da casa de Beth. Ela soltou o cinto de segurana, abriu a porta do carro e saiu correndo at os degraus da entrada 
do prdio. Ainda estava remexendo na bolsa,  procura da chave, quando Alexis alcanou-a e virou-a de frente para ele, envolvendo-a num abrao. Ela o empurrou e 
olhou para ele, irritada.
- Voc s pensa em si mesmo. E se eu estiver desejando encontrar um pouco de felicidade? Isso no conta?
- Voc no acredita que possa ser feliz comigo?
- Com voc? - Ela o olhou, incrdula com a pergunta. - Eu sou sua noiva apenas por causa de um trato, no se lembra? Fui comprada!
- Claro que me lembro. - Alexis pegou a cabea dela entre as mos e, segurando-a pela nuca, beijou-a.
Beth sentiu-se desfalecer. Porm, a razo alertava-a de que no devia demonstrar nenhuma fraqueza. Tentou repeli-lo, mas os braos fortes a seguravam, possessos. 
Deixou-se ento beijar com uma deliberada e falsa passividade. De repente, ele a soltou, praguejando em grego.
- Eu derreterei seu gelo, querida. Teremos muito tempo pela frente.
- Sem o calor da paixo nenhum gelo se derrete, Alexis. - inclinando a cabea para trs, ela o olhou com altivez.
- Voc no perde por esperar. Eu lhe garanto. - O grego sorriu.
- Agora v para cama, pedhi mou. Entrarei em contato com voc.
- Ele segurou-lhe a mo e tocou-a de leve com os lbios. Depois virou as costas e seguiu para o carro.
Beth entrou em casa e fechou a porta. Ouviu o som do carro se afastando, rumando para o seu apartamento luxuoso em cima do Clube Cassandra, o lugar onde homens fracos 
como seu pai e Justin tornavam-se vtimas da astcia de pessoas como Alexis Apollonaris.
Ela se perguntava o que Alexis faria diante da sua recusa em aceitar a imposio daquele casamento. Sem dvida, ele faria Justin sofrer a humilhao de ser trazido 
de volta  Inglaterra como um prisioneiro.
A deciso cabia a ela: sabia que o casamento com Alexis era a nica forma de impedir que o braso dos St. Cyr fosse desonrado por seu irmo, cuja irresponsabilidade 
poderia lev-lo a ser condenado como criminoso.
Justin estava agora em alto-mar, talvez jogando fora, no cassino do navio, o dinheiro que custara a ela tanto sacrifcio. Enquanto subia os degraus da escada daquele 
prdio velho, Beth maldizia o apego que sentia pelo irmo egosta e pela tradio de honradez dos St. Cyr.
Ela olhou em volta, conformada. Num futuro muito prximo estaria dizendo adeus a Earl's Court e deixando para trs aqueles corredores com cheiro de verdura cozida. 
Viajaria para Atenas a fim de se unir em matrimnio a um homem que nunca dissera que a amava.
CAPTULO VI
A perfeio do vestido de noiva deixava Beth ainda mais triste. Qualquer moa apaixonada daria tudo para se casar usando um vestido como aquele.
No tinha nada a ver com os modelos tradicionais, compridos e com cauda. Era todo confeccionado em renda gulpure, sobre fundo de cetim. A saia ia at o meio da canela 
e o corpete, em forma de corao, ajustava-se  cintura delgada de Beth, destacando-lhe o colo gracioso.
Ela fora ao ateli do costureiro indicado por Alexis, na South Moulton Street, e ele se encarregara da confeco no s do vestido como tambm de todo o seu enxoval. 
Discutir com Alexis, censurando-lhe a indicao, teria sido intil. Ele sempre encontrava um jeito de fazer valer sua opinio, pois, alm do apego  tradio grega 
de que os homens so os chefes da casa, possua tambm o dom natural do comando. Encarregara-se de encomendar, pessoalmente, tudo o que havia de melhor para a moa 
com quem ia se casar.
Beth colocou na cabea a grinalda de flores midas, depois abriu a caixa de couro branco que lhe havia sido entregue, havia cerca de uma hora, na porta de seu quarto, 
por um dos funcionrios do hotel. Sobre o fundo almofadado de cetim, brilhava um maravilhoso colar de prolas. Tirou-o com cuidado da caixa e prendeu-o ao pescoo. 
Leu novamente o bilhete que viera acompanhando o presente: 
"Que as prolas sejam suas nicas lgrimas. Os sorrisos, guarde-os para mim. No se incomode ao olhar pela janela e ver a chuva caindo nos telhados. Aqui em meu 
pas todos acreditam que chuva no dia do casamento traz sorte e fertilidade".
Beth olhou para a sua imagem refletida no espelho, enquanto ouvia o som da chuva batendo nas vidraas daquele hotel localizado em frente  Colina de Marte. Ali o 
apstolo Paulo pregara sobre o amor, mas era o amor de um Deus que no se confinava em templos, nem se lanava  vingana, quando tinha sua vontade contrariada.
O som da chuva a fez recordar-se da noite em que fora ao Clube Cassandra suplicar a Alexis que perdoasse seu irmo. Mas, ao invs disso, a espada vingativa daquele 
grego voltara-se contra ela, e a dor que sentia no peito agora era como se ela ainda estivesse cravada no seu corao.
Aquela dor contnua dos ltimos dias s vezes subia-lhe  garganta, e Beth ento era tomada pela vontade incontrolvel de chorar. Mas o choro no a aliviava. O nervosismo, 
o medo, o ressentimento ainda persistiam. A cada batida de seu corao, a cada tique-taque do relgio, mais se aproximava o momento em que o carro nupcial viria 
busc-la.
Ela e Alexis haviam chegado a Atenas na noite anterior, mas tudo o que pde ver na cidade, atravs da janela do txi que os transportara do aeroporto at o centro, 
foi o Partenon iluminado.
- Sua me... seus amigos... Eles no vo estranhar o fato de ainda no me conhecerem? De nunca me terem visto? - ela tinha se esforado em perguntar, imaginando 
que ele entenderia a sugesto de que adiassem o casamento.
Alexis balanara a cabea.
- Na Grcia, aceita-se com naturalidade o casamento de estranhos. Minha me e meus amigos se contentaro com o simples fato de me estar casando. Acho que eles j 
tinham perdido a esperana de me verem diante do altar.
- Oh... Por qu? - Momentaneamente, ela ficou curiosa a respeito desse aspecto da vida dele. Sem dvida, muitas mulheres haviam passado por sua vida, pois ele era 
um homem muito atraente, alm de bem-sucedido no mundo dos negcios. Realmente, surpreendia o fato de ele ainda estar solteiro.
- Por eu no ter tido irms, eles acham que o casamento nunca me preocupou e que ento fiquei mal-acostumado. Aqui na Grcia, por uma questo de orgulho e de honra 
de famlia, um irmo deve esperar que suas irms se casem para depois procurar uma eventual esposa. Muitos de meus compatriotas fazem isso at hoje. Trabalham com 
afinco para proporcionar s irms um dote que atraia um pretendente e, s vezes, ficam numa situao financeira to difcil que acabam tendo que desposar uma moa 
que no tenha dote. No interior, o dote pode se constituir de um rebanho de ovelhas ou de cabras, ou talvez de um par de bons cavalos. Mas, nas cidades, o que conta 
 o dinheiro mesmo ou bens em imveis.
- O mercado do casamento... -Beth murmurou com amargura. - Se voc no fosse rico, no poderia estar se casando comigo, pois sabe muito bem que no possuo nenhum 
dote.
- Voc tem o dote que me interessa. - Ele sorriu. - Como voc mesma disse, sou suficientemente rico para escolher a mulher que quiser. Muitos de nossos costumes 
sem dvida lhe parecero estranhos, pois at eu, um grego, fico abismado ao ver em muitas aldeias as populaes ignorantes e insensveis aos costumes modernos transformarem 
a vida de moas, que caem em desgraa, por perderem a virgindade fora do casamento, num inferno. Sim, moiya agora sou um homem rico e posso me dar ao luxo de usar 
roupas finas, comer boas comidas, ter propriedades e me casar com a moa que eu quero. Mas no posso apagar o meu passado da memria.
O txi rumava para o centro da cidade, para a praa da Constituio. Alexis exclamou alguma coisa em grego e continuou:
- No me esqueo da minha infncia, quando no podia brincar com as outras crianas porque era to marginalizado quanto a minha me. Tudo por causa da lngua venenosa 
daquelas matronas vestidas de negro que se sentavam  porta de suas casas e ficavam cochichando sobre a vida das mulheres mais jovens. s vezes, os outros meninos 
atiravam pedras em mim, e as meninas me xingavam de nomes que tinham ouvido da prpria boca de seus pais. Quando me xingavam eu chutava a terra, erguia o queixo 
e jurava comigo mesmo que um dia... um dia eu voltaria para a Grcia e me casaria com uma moa que todos os homens invejariam.
Ele riu com amargura.
- A moa  voc, Beth. E amanh, diante de um altar, voc se tornar minha.
Lembrando-se daquelas cenas, enquanto se olhava no espelho, Beth no via em seus olhos nem expectativa nem entusiasmo, mas dor e tristeza. Sobressaltou-se ao ouvir 
batidas na porta de seu quarto. Quando a abriu deparou-se com uma mulher. Ela era grega, poucos anos mais velha do que Beth e estava muito elegante num conjunto 
de seda azul e com um bonito chapu de palha repleto de pequenas flores presas na aba...
- Ol - disse a moa em ingls, seu rosto simptico abrindo-se num sorriso maroto. - Sou Kara Savidge, amiga de seu noivo. Meu marido e eu viemos busc-la para lev-la 
 igreja de So Nicolau.
- Oh... - Beth deu um passo atrs, sem saber o que fazer ante a chegada inesperada da jovem. Alexis no havia mencionado nada, apenas dissera que, um pouco antes 
das onze, viriam apanh-la de carro para conduzi-la at a igreja.
Kara consultou o seu relgio.
- Ainda temos alguns minutos de folga. Posso entrar para conversarmos um pouco? - perguntou a moa. - Voc, sem dvida, deve estar muito nervosa, como todas as noivas, 
ainda mais sabendo que vai se casar numa igreja grega! Alis, vamos dar um retoque na maquiagem para disfarar melhor a sua palidez?
- Oh, sim. Entre. - Beth abriu mais a porta para que a moa entrasse na sala de estar.
- Lucan, meu marido, est nos esperando no saguo - Kara explicou, com um sorriso simptico nos lbios. - Ele  ingls, mas de descendncia irlandesa. Voc tem sangue 
ingls puro, no ? Seus cabelos so to lindos! Alexis me lembra muito meu irmo, por isso no fiquei surpresa ao ver que ele escolheu uma moa loira para esposa. 
Meu irmo Paul tambm se casou com uma moa inglesa. Os homens gregos costumam sentir forte atrao por mulheres loiras, embora a maioria acabe se casando mesmo 
com morenas, que  a cor natural do povo grego.
- Meu tipo de cabelo no  muito jeitoso - Beth disse, com um sorriso sem graa. - Invejo as mulheres gregas como voc, que tm os cabelos naturalmente ondulados.
Kara tinha cabelos muito escuros, e estava usando brincos de ouro em forma de argola nas orelhas. Ela no era exatamente bonita, mas tinha uma expresso forte, um 
jeito cativante e amigo. Seus grandes olhos escuros revelavam preocupao. Ela at parecia estar adivinhando a verdade sobre aquele casamento.
- Isso de traz-la diretamente para Atenas, sem lhe dar tempo algum para se acostumar ao clima e aos costumes,  coisa de Alexis. - Kara tocou delicadamente o brao 
de Beth. - Os homens gregos so mesmo estranhos, no acha? Em pblico, parecem to altivos e distantes, ao passo que na intimidade so to ardentes. Como sabem odiar, 
e como sabem amar! Nem sempre compreendem as necessidades das mulheres, e nem mesmo acham que as mulheres tenham necessidades diferentes das deles. Sei muito bem, 
thespinis, que o amor de um grego pode ser uma espcie de cativeiro, pois tenho acompanhado a vida amorosa de meu irmo. 
Beth sentiu seus nervos se distenderem um pouco. As palavras de Kara davam-lhe o conforto da compreenso de algum, pois de fato ela era muito cativante.
Percebendo o ar pensativo e melanclico de Beth, Kara mudou de assunto.
- Voc ainda no conheceu a me de Alexis, no ? Ela nunca saiu daqui. Esta  a primeira vez que voc vem  Grcia?
Beth balanou a cabea, afirmativamente, sem se dar conta de que estava virando nervosamente o anel de rubi no dedo.
- Alexis me falou sobre ela, mas  a me dele, e ns... Naturalmente, sempre falamos bem de nossos pais, no ? Voc a conhece?
- Sim. Lucan e eu a conhecemos quando passamos umas frias em Dovima, a ilha que Alexis comprou.
- Que tipo de pessoa ela ? - Beth tentou falar com naturalidade, mas na verdade j havia formado uma imagem preconcebida de sua futura sogra, imaginando-a uma mulher 
possessiva e seca, que provavelmente no gostaria dela por no ser grega como Alexis. - Voc... gostou dela?
- Senti admirao por ela - Kara respondeu. - A vida no foi muito boa para ela, at Alexis se transformar num homem bem-sucedido e poder lhe dar todas as coisas 
com que sonhara quando moa. Ela mora na ilha, mas no na vila principal. Alexis deve ter lhe contado que construiu duas casas na ilha, depois que a comprou, no?
Beth discordou balanando a cabea.
- Ele no me falou muita coisa sobre a ilha. Tudo o que sei  que... vamos passar a nossa lua-de-mel l.
- Voc vai gostar da ilha. - Kara sorriu de maneira tranqilizadora. - Tudo o que havia nela, quando Alexis a comprou, eram os restos de um antigo castelo veneziano. 
Era uma espcie de forte, com torres de vigia, usado na defesa contra os piratas. As fortes muralhas venezianas circundam a prpria vila, pois Alexis construiu a 
casa dentro delas. O restante das runas foi transformado em jardins ou deixado intacto como atrao. Voc ver esculpido na muralha o Leo de So Marcos, que Lucan 
diz ser um braso muito adequado para Alexis.
- E mesmo? - Beth sorriu. - Por que acha que seu marido pensa assim?
- Em primeiro lugar, porque ele  muito irlands, apesar de ter nascido na Inglaterra, e os irlandeses so apegadssimos s histrias sobre os nobres. Em segundo 
lugar, porque ele diz que Alexis  um homem com corao de leo. Como voc sabe, ele teve que lutar muito por cada centmetro do caminho que o conduziu ao sucesso 
e  fortuna. Ele comeou do nada, dispondo apenas da inteligncia e da sua energia, e agora ele tem... uma moa como voc.
- Como eu? - Beth sentiu-se envaidecida. - Estou  morta de medo que a me dele no me aprove por eu no ser grega.
- Os gregos so mesmo muito bairristas quando se trata de casamento - Kara admitiu. - Mas se voc amar Alexis acabar conquistando-a, pode estar certa disso.
Beth sentiu um aperto no corao ao pensar na palavra amor, mas procurou esconder a tristeza que sentiu desviando os olhos para o relgio que havia na parede.
- No est na hora de irmos? - perguntou.
- Sim. - Kara aproximou-se de Beth e segurou-lhe as mos. - Acalme-se, querida. Os casamentos gregos so muito menos formais que os britnicos. As pessoas que passam 
pela rua entram na igreja quando ficam sabendo que um casamento est sendo realizado, e os noivos no ficam sozinhos no altar, pois os convidados tm permisso de 
fazer companhia a eles e assistem  cerimnia de perto.  at parecido com uma festa.
- Alexis disse que seria uma cerimnia bem simples. Quantos convidados iro?
- Cerca de duas dezenas. - Kara apertou as mos dela. - Voc tem que entender que ele tem amigos pessoais e de negcios em Atenas, e todos esperam v-lo casar. E 
uma questo de philotimo, uma palavra grega que significa orgulho e honra. Ter philotimo  importante para um grego, e para isso  necessrio que a moa com a qual 
ele vai se casar seja casta. E a sua famlia, e seus amigos?
- Meu nico irmo est viajando para o exterior. - Beth sentiu o rubor subir-lhe s faces. - Tenho alguns amigos em Londres, mas eles trabalham para viver e no 
puderam comparecer ao meu casamento em Atenas.
- Voc deve estar se sentindo sozinha - Kara concluiu, solidria. - Fico contente por Lucan e eu podermos ficar com voc. Acho que vai gostar dele. Bem, deixe-me 
dar uma ltima olhada em voc, para ver se est tudo em ordem. Kara examinou Beth da cabea aos ps.
- Seu vestido  lindo! A simplicidade do estilo combina com voc, e as flores da grinalda realam a graa de seus cabelos. O colar tambm  lindo.
- Foi presente de Alexis. - Beth passou os dedos pelo colar. - Na Inglaterra existe uma superstio popular que diz que as prolas trazem m sorte.
- Psiu! Voc no deve falar em m sorte no dia do casamento! - Kara fez o sinal da cruz. - Voc vai levar um buqu de flores? - perguntou, olhando em volta  procura 
dele.
- Sim, de orqudeas. Alexis providenciou para que elas fossem guardadas sob uma temperatura especial aqui no hotel. Eu mesma irei busc-las no balco de recepo. 
Isso tudo...  to estranho! Na Inglaterra, o buqu  entregue na manh do dia do casamento, junto com um tabuleiro repleto de cravos para os convidados. As damas 
de honra correm para l e para c com suas roupas vistosas, e o rdio toca msicas, enquanto os sanduches e o caf so preparados. - Ela suspirou, trmula. - Eu... 
mal acredito que dentro de meia hora estarei casada!
- Voc se sentir mais calma na igreja, segurando o brao de Alexis - Kara falou, conduzindo-a em direo  porta. - Venha vamos descer. Lucan est nos esperando.
Beth sentiu as pernas tremerem ao acompanhar Kara at o elevador. Tinha tomado uma xcara de caf, mas no conseguira comer mais do que a metade de um biscoito. 
Tentou se convencer de que estava se sentindo assim, to fria e insegura, por estar mal alimentada.
"Queira Deus que eu no desmaie no altar", pensou. Os convidados certamente a considerariam uma tola por desmaiar ao se casar com um homem de tanta riqueza, poder 
e philotimo.
Ser que Alexis se orgulhava realmente de t-la trazido para Atenas para ser sua esposa, depois de t-la comprado em troca da dvida de Justin? Do dinheiro que tinha 
escapado por entre os dedos de seu irmo como se fosse gua?
No saguo do hotel, Kara apresentou-a a Lucan, um homem alto e bem-apessoado. Ao v-las, ele se aproximou com passos largos. Tinha olhos cinzentos, rosto bronzeado 
e cabelos avermelhados, lembrando a cor da pele da raposa. No era um exemplo de beleza, mas certamente no passava despercebido. Talvez no fosse sempre gentil, 
mas tinha todo o jeito de um cavalheiro.
- At que enfim... - falou com a voz grave. - Pensei que vocs duas no fossem mais descer.
Depois de fazer as apresentaes, Kara pediu ao marido:
- Querido, v at o balco e pegue com o recepcionista o buqu de Beth. Ele est guardado numa redoma com ar condicionado para que as orqudeas no sofram com o 
calor.
Ele ergueu uma sobrancelha e olhou para Beth com ar zombeteiro.
- Espero que o frescor das flores contraste com o ardor da noiva
- falou ele, dirigindo-se  recepo.
- Lucan tem um senso de humor constante - Kara explicou.
- Acho que  por isso que se d to bem com Alexis. Ao mesmo tempo, possui uma forte veia do misticismo irlands. Eu o adoro. Mas no existe nenhuma maneira de convenc-lo 
de que nem sempre pode ficar falando tudo que lhe vem  cabea. E voc? Est apaixonada por Alexis, no?
Beth ficou desconcertada com a pergunta, sem saber o que responder. Imediatamente, Kara fez uma expresso de pesar.
- Ora, que pena! Alexis, como meu irmo Paul, saiu  procura de sua Helena e acabou se metendo numa batalha de Tria. Estou vendo que as coisas entre vocs andam 
complicadas.
-  verdade - Beth concordou cabisbaixa.
Lucan voltou com o buqu, indiferente aos olhares curiosos dos outros hspedes. Entregou-o a Beth e os trs saram para a rua, indo at a limusine que os levaria 
 igreja de So Nicolau.
Beth sentia frio, apesar do lindo casaco de pele de marta que trazia sobre os ombros. Segurava com cuidado o buqu de orqudeas, enquanto ouvia Lucan Savidge contar 
sobre a ilha onde ele e Kara viviam com os filhos gmeos. As crianas tinham ficado em casa, aos cuidados da bab, uma moa antilhana.
- Ns no perderamos o casamento de Alexis por nada deste mundo - ele brincou.
- Como foi que vocs o conheceram? - Beth quis saber.
- J faz alguns anos. As minhas plantaes estavam arruinadas pela falta de chuva e eu precisava de dinheiro para poder fazer um novo plantio. Poderia ter pedido 
ajuda ao meu cunhado, mas no queria envolver a famlia num negcio arriscado. Fui ento procurar a Elias Mercantile e foi a que conheci Alexis. Ele me apoiou do 
comeo ao fim, apesar do risco do empreendimento. Mas felizmente tudo correu bem e todos ns samos ganhando. Agora a Baa do Drago  um exemplo de prosperidade 
e com isso o bem-estar de meus filhos est garantido e o dos filhos deles tambm. Imagine s! Tudo graas a um homem que no tinha um tosto quando era menino.
Sem se virar, Beth sentiu o olhar de Lucan examinando-lhe o perfil. Ser que ele estava adivinhando que agora ela era o brinquedo caro que Alexis tenha comprado 
para se desforrar da infncia sem brinquedos?
- Realmente, vocs devem ser muito gratos a Alexis...
Beth interrompeu-se ao avistar a igreja branca de cpula azul e janelas redondas de vitrais coloridos. Seu corao comeou a bater disparado. Dentro de poucos minutos 
estaria unida para sempre a Alexis Apollonaris.
Quando os sinos comearam a tocar, enchendo o ar de vibraes graves, Beth fechou os olhos e respirou fundo, aceitando o seu destino.
CAPTULO VII
Alexis estava esperando no interior da igreja, prximo da entrada. Acompanhava-o uma mulher de ar muito distinto, que Beth adivinhou ser a me dele. Ela era relativamente 
alta e tinha o rosto afilado e marcado, mas conservava ainda traos da beleza exuberante que devia ter tido quando jovem. Seus olhos escuros e meio tristes olharam 
Beth de maneira tranqila e acolhedora, e no do jeito penetrante que ela temia.
O casaco tinha ficado no carro e, apesar de no ter se molhado com a chuva, Beth sentia-se encharcada de friagem. No sabia se sorria ou no para a me de seu noivo. 
Uma sensao estranha de irrealidade, como se estivesse sonhando, a impedia de tomar atitudes.
- Deixe-me apresent-la a minha me - Alexis falou. - Agora h pouco ela me dizia que, j que eu tinha ido to longe para buscar uma noiva, ela esperava que, para 
compensar, eu tivesse escolhido uma moa encantadora. - Ele sorriu para as duas mulheres, uma vestida de noiva, e a outra com um sbrio vestido preto e os cabelos 
negros mechados por fios grisalhos presos num coque  altura da nuca.
Meio tmida, Magda Apollonaris se aproximou de Beth, segurou-lhe o rosto e a beijou nas duas faces.
- Faa meu filho feliz - disse ela, com um forte sotaque.
- Eu... vou tentar - Beth respondeu, sem ousar olhar para Alexis.
Momentos depois, eles caminharam de braos dados para o altar. Em meio  penumbra repousante em que imagens douradas e prateadas cintilavam  luz das velas, Beth 
estava ciente de que todos os olhares convergiam para eles.
No ar havia uma mistura de perfumes: dos cravos nas lapelas dos homens, e das velas acesas na igreja. A me de Alexis seguia atrs, e o padrinho, ao lado, vestido 
to sobriamente como Alexis.
Logo que atingiram o altar, todos os convidados se aproximaram, reunindo-se em torno deles. O sacerdote iniciou a cerimnia, entoando cnticos nupciais. Beth lembrou-se 
ento da recomendao que Alexis lhe fizera durante a viagem de avio para Atenas. Ele explicara que, a certa altura da cerimnia, quando o sacerdote entoasse "A 
mulher deve submeter-se ao homem", ele faria um sinal afirmativo com a cabea, dsfaradamente, e ela lhe daria um piso no p. Tratava-se de uma brincadeira incorporada 
ao ritual. Com isso os convidados se divertiam, achando muita graa.
Quando chegou o momento, Alexis deu-lhe a deixa. Fez o gesto com a cabea, e obedientemente, Beth pisou-lhe o p. No mesmo instante todos comearam a rir. A descontrao 
momentnea aliviou-lhe o corao, mas suas mos ainda transpiravam quando trocaram as alianas.
Beth ficara surpresa ao saber que a Igreja grega no condenava o divrcio. Isso provavelmente se devia ao fato de que a maioria dos casamentos entre eles era arranjada, 
no havendo portanto muitas garantias de que marido e mulher viessem a se amar. Na verdade, um grego, se quisesse, podia se casar at trs vezes.
Depois da troca das alianas foi a vez das coroas nupciais, feitas de couro fino imitando ramos de oliveira, unidos por uma fita branca. O padrinho segurou-as acima 
da cabea dos noivos, enquanto os cantos finais eram entoados. Em seguida, o casal, conduzido pelo sacerdote, realizou a chamada dana nupcial, que consistia em 
dar voltas ao redor do altar ao som de uma msica de ritmo mais marcado.
Durante a dana, os convidados jogaram arroz, ptalas de rosa e amndoas nos noivos, criando uma confuso de risos e cochichos. Beth entendeu por que Alexis havia 
dito que um casamento grego era menos formal que um ingls. Com ptalas de rosa e gros de arroz nos cabelos e no vestido, Beth tomou alguns goles do vinho que o 
padre lhe ofereceu, antes de beijar, junto com Alexis, a Bblia prateada que ele lhes estendeu.
Finalmente, estavam casados. Aturdida, Beth caminhou de volta para a entrada da igreja, apoiada no brao do marido. Logo os convidados os rodearam, abraando-os, 
beijando-os e desejando-lhes boa sorte. Alguns at enxugaram uma ou outra lgrima quando os noivos saram na chuva em direo ao carro, que os levaria at o cais, 
onde o barco de Alexis aguardava por eles.
Logo que o automvel se afastou da igreja, Alexis pegou o casaco de peles e colocou-o sobre os ombros de Beth. No aconchego do gesto e na proximidade dos braos 
dele, ela sentiu a inteno de possessividade.
- Voc esteve encantadora - ele falou.
- Espero ter desempenhado bem o meu papel e impressionado os seus convidados como voc desejava - Beth respondeu, vestindo o casaco e lembrando-se da expresso de 
conforto da me de Alxis ao segurar junto de si as coroas nupciais que o filho lhe entregara.
- Minha me gostou de voc...
- Eu... tambm gostei dela. - Realmente fora um alvio constatar que Magda Apollonaris no correspondia  imagem de me ranzinza, ciumenta e dominadora que ela esperava 
com temor.
- J que voc gostou dela, no quer gostar um pouco de mim tambm? Sou filho de minha me, portanto no devo ser to desqualificado assim, como voc imagina.
Beth olhou-o, achando graa, enquanto ele pegava sua mo para admirar a aliana.
- Quando os convidados chegarem ao barco, para a recepo, procure agir como uma noiva de verdade e no como uma carpideira chorona - ele continuou.
- Voc sabe muito bem que eu no queria nenhuma recepo...
- Ora, moiya, seria uma descortesia no servirmos um bolo com champanhe aos convidados no dia do nosso casamento. Seja razovel, querida!
- Os meus desejos so infantis e a sua palavra  sempre lei, no  mesmo?
Ele riu, sem negar a acusao, e segurou a mo de Beth com mais fora.
- Est com receio de que seus amigos percebam que fui obrigada a me casar com voc?
- Prefiro v-los pensando que voc gosta de ser minha esposa. Do contrrio, a paz de esprito de minha me estaria ameaada. Alm disso, no sou to insensvel assim, 
a ponto de no me incomodar se comearem a espalhar que a obriguei a se casar comigo.
- Est querendo dizer que tenho nas mos o poder de mago-lo? - Ela sorriu como se estivesse diante de uma descoberta fundamental. - Estava comeando a achar que 
no havia nenhuma fenda nessa sua armadura.
- Meu ponto fraco so as coisas que dizem respeito a minha me. - A expresso dele se tornou sria. - E fique sabendo que, se de alguma forma voc a magoar, pagar 
caro por isso.
Beth baixou os olhos, pensando em tudo o que ele e sua me haviam sofrido juntos. Aquela mulher de fibra lutara sozinha para alimentar, vestir e educar o filho. 
Agora era a vez dele cuidar para que nada lhe faltasse.
Lembrou-se de Kara Savidge dizendo do ardor que os gregos podiam sentir, quando amavam. De fato, era com ardor que Alxis amava e queria proteger a me.
- Nunca me passaria pela cabea magoar sua me - Beth tentou tranqiliz-lo. - Apesar de no ter nenhuma obrigao de me tratar com delicadeza, ela foi muito gentil. 
E me aceitou, sendo eu uma estranha. Isso eu nunca esquecerei.
- Mame a aceitou por minha causa. Sou tudo o que ela tem, e agora, que voc faz parte de mim, ela tem a voc tambm - ele falou num tom duro, e segurou-a pelo queixo, 
obrigando-a a encar-lo. - Um grego no quer que a mulher sinta medo dele, mas ele espera que ela compreenda que lhe pertence, uma vez que se tornaram marido e mulher. 
Voc me pertence, Beth. Cada fio de seu cabelo  meu, cada centmetro de sua pele alva, cada gota de seu suor e cada lgrima de seus olhos. Essa posse agora est 
consumada e voc no tem por onde fugir, moiya.
Enquanto falava, Alexis foi abrandando a voz e ao final levou a mo dela aos lbios e beijou-a, carinhosamente.
- Numa praia existem milhares de conchinhas, muitas delas se destacam pela beleza. As pessoas brincam com elas durante algum tempo, depois as jogam na gua ou as 
abandonam na areia. At que um dia se encantam com uma delas e no querem mais se desfazer dela. Resolvem guard-la e a levam para casa como uma propriedade. Foi 
isso que aconteceu com voc, Beth. Encontrei-a perdida, encantei-me com voc e agora voc  uma propriedade da qual cuidarei com todo o carinho. No  melhor assim 
do que fazer juras de amor eterno e depois quebr-las, como muitos fazem?
- E os coraes? No se podem quebrar, mesmo sem juras? - Beth perguntou.
- Voc acredita realmente, moiya, que o corao seja sede das paixes?
Beth corou ao ver um sorriso brincando nos olhos dele. 
- Eu... estava me referindo ao amor...
- Amor? - Ele arqueou uma sobrancelha. - J ouvi falar bastante, mas at hoje no o conheci.
- No  porque no teve essa sorte que pode desdenhar dos que amam - ela retrucou, logo em seguida estremecendo com o contato da mo forte lhe acariciando o pescoo.
- Sei que o nosso relacionamento no daria um grande romance de amor - ele disse pausadamente. - Mas posso lhe oferecer, a ttulo de romance, a nossa viagem de barco 
at Dovima. E pena que esteja chovendo, mas a chuva no durar muito tempo, e voc poder ver a beleza do Egeu, o mar das ilhas, para onde alguns homens navegam 
e nunca mais voltam. Quando o sol se pe no Egeu,  como se ele tingisse o mar de dourado. Voc vai ficar fascinada, moiya.
- Nas atuais circunstncias, nada seria capaz de me fascinar.
- Querida, no lhe passou ainda pela cabea que voc est querendo o impossvel?  melhor se conformar e deixar de lamentaes. O que est feito, est feito.
- Impossvel me conformar, Alexis.
- Voc pode escolher. Aceitar a sua sorte por bem ou por mal.
- Estou pronta para o sacrifcio, voc sabe disso. Mas no me exija um ar postio de felicidade.
- Beth, olhe s para voc mesma. Est usando um casaco de pele de marta e prolas, e seu marido  um homem que possui uma ilha e goza do respeito de pessoas como 
os Savidge e do irmo de Kara, que  dono da Companhia de Navegao Stephanous. Eu no sou um joo-ningum! Qual  ento o sacrifcio que voc est fazendo ao se 
casar comigo? Considera que foi rebaixada na escala social?
- No.
Ele afrouxou os braos, desanimado, momentaneamente derrotado. Ela apenas o olhava, sem dizer nada. Mas logo Alexis sacudiu a cabea e retomou seu ar decidido.
- Bem, como dizemos na Grcia, a castidade  um prmio reservado ao vencedor. Essa ser apenas a primeira coisa que voc me dar.
- E se voc estiver enganado, Alexis? - Beth desafiou-o com ar altivo, na esperana de estar plantando uma semente de dvida na mente dele.
- Deixe comigo que dessas coisas eu entendo, Beth.
- Talvez voc se sentisse mais seguro se eu fosse uma moa grega - ela replicou. - Mas sou inglesa, e entre ns est um pouco fora de moda querer que as mulheres 
se mantenham virgens at o casamento, enquanto os homens se divertem  vontade antes de se casarem. Essa exigncia hipcrita, felizmente, est sendo superada.
- Acredito que sim, Beth, e no tenho dvidas de que muitas inglesas gostam, como voc disse, de se divertir. Mas no preciso ser clarividente para adivinhar o seu 
carter. Voc  muito exigente, querida, e no ia se entregar ao primeiro que lhe aparecesse  frente. Voc  daquele tipo que espera pela chegada do cavaleiro impetuoso 
montado no seu cavalo branco, com a armadura prateada brilhando ao sol. Alis, o que voc no perdoa em mim  justamente o fato de a ter feito abandonar o seu sonho.
- Para voc eu no passo de uma tola ingnua, no  mesmo? Ele balanou a cabea.
- No, voc  uma idealista, uma sonhadora.
At certo ponto, ele tinha razo. Bem no fundo, ela desejava que Justin um dia pudesse ser como Alexis: bem-sucedido, forte e confiante.
- Voc precisa de algum que a proteja - prosseguiu ele. - Do contrrio, poderia ser maltratada por algum homem inescrupuloso que se aproveitaria de voc. Felizmente, 
estou agora do seu lado e nada de ruim lhe acontecer.
- Voc diz isso para aliviar seu sentimento de culpa, Alexis.
- Meu sentimento de culpa?
- Sim, porque voc  grego e tudo o que faz visa a acumular philotimo, de forma a impressionar seus amigos e inimigos.
Ele a olhou com os olhos semicerrados.
- Voc no sabe nada sobre philotimo, querida. No se arrisque a dar palpites sobre o que no entende.
- Estou me arriscando e pisando em terreno perigoso desde que o conheci, Alexis, isso sim. Pisei em areia movedia no dia em que voc esteve em Cathlamet para receber 
os ttulos de propriedade de meu pai. Eu no sabia que isto iria ocorrer at o dia em que ele morreu e o advogado nos contou. Mas no fiquei surpresa, pois voc 
no era nenhum cavaleiro com trajes de montaria, no era como os amigos com quem meu pai gostava de beber. Eu devia ter adivinhado nesse dia que voc iria envolver-me 
na sua sombra escura.
- Voc no sabe a injustia que est cometendo, Beth. Eu no arruinei seu pai. Ele era autodestrutivo. Destruiu-se a si mesmo. Apenas juntei os pedaos que ele tinha 
espalhado sobre as mesas de jogo. Mas j falamos sobre isso, e no posso fazer nada se voc se recusa a acreditar em mim. Um dia voc saber da verdade de forma 
a no poder mais duvidar de minhas palavras, tenho certeza.
- Tomara! Quem sabe assim voc passar de vilo a heri, no ?
- Vamos mudar de assunto. Quando estivermos sozinhos em Dovima eu lhe darei a primeira lio sobre como viver realisticamente, querida.
- Mas a sua me estar l...
- Minha me ficar em Atenas com uma amiga durante as duas semanas de nossa lua-de-mel.
- Entendo. - Beth estremeceu quando se deu conta de que ia ficar sozinha com Alexis. Olhou para os seus ombros largos e sentiu-se indefesa. Olhou para as mos fortes 
e geis e viu o brilho da aliana que proclamava o direito dele de pass-las por seu corpo. Ao olhar para os olhos cor de mel, percebeu que Alexis estava lendo seus 
pensamentos, como se ela os tivesse escrito na testa.
- Sim, estaremos a ss, com exceo dos empregados que cuidam da vila - ele disse. - No temos vizinhos, apenas as cabras e os golfinhos que nadam a pouca distncia 
nas praias. Esteja preparada para o que der e vier, querida.
Alexis falou com uma sensualidade deliberada, inclinando-se na direo dela e farejando-a como que para sentir o perfume de sua pele e de seus cabelos. Beth sentiu 
envolver-se pela fora magntica dele, e quando Alexis lhe tomou o rosto entre as mos e lhe beijou os olhos, um de cada vez e depois a boca, ela no ops resistncia. 
Estava meio paralisada, uma espcie de tontura obscurecendo tudo  sua volta.
Quando ele se afastou, Beth fitou-o diretamente nos olhos e viu os reflexos dela prpria nas pupilas escuras de Alexis, dilatadas pela excitao sexual que o invadia.
Mas ela no se renderia quele ardor, pois no havia nada de profundo naquele mpeto de busca que no brotava de nenhum sentimento especial, mas apenas da necessidade 
fsica. A cerimnia na igreja, com suas luzes e incensos, no tinha sido o pice de seus sonhos romnticos.
Assim pensando, Beth deixou escapar um suspiro dos lbios. Ele estreitou os olhos.
- Ainda bem que sou paciente, querida, o que no acontece com a maioria dos meus compatriotas. Um outro, no meu lugar, provavelmente j a teria segurado pelos ombros 
e a sacudido com raiva, por causa desse desprezo pelo homem que agora  seu marido. Os beijos, moiya, so apenas o preldio da paixo.
- Paixo! - Beth olhou para ele com desdm. - Isso  tudo que sou para voc... Um objeto de prazer!
- Exatamente, querida. E que mal h nisso? Voc devia estar se sentindo lisonjeada em vez de ofendida. Pode deixar que com o tempo ir gostar muito disso. 
- Voc nada mais tem que nervos de ao e corao de pedra, como todos os homens que se fazem sozinhos.
- Mas no se esquea de que em minhas veias corre sangue oriental, rico de sensualidade. Esse  um dom que no convm a nenhuma mulher desprezar, no  mesmo?
- Principalmente, se a mulher tiver pretenses de ser uma das concubinas do harm do gro-senhor, no  mesmo?
- Sem dvida. - Ele riu. - Estou gostando de ver sua capacidade de afastar-se da realidade, querida. No  de admirar que seu irmo tenha conseguido com a maior 
facilidade convenc-la de que eu pretendia t-la a qualquer custo.
Alexis recostou-se no banco e, no silncio que se seguiu, podiam ouvir a chuva tamborilando na lataria do carro.
- Fique sabendo, madame Apollonaris, que por causa da senhora nunca tive o menor propsito de levar seu irmo  priso. De que adiantaria isso, alm de mago-la? 
- Ele arqueou as sobrancelhas. - Mas voc foi at meu clube acreditando, conforme ele inventara, que eu s no tomaria alguma medida contra ele se recebesse voc 
em troca. Voc me acusou de armar uma cilada para ele, quando na verdade o que fiz foi dar a ele o nico emprego para o qual ele tem a qualificao necessria: o 
de estar entre jogadores, que apreciam o jeito polido e matreiro de pessoas como Justin. - Alexis fez uma pausa, antes de prosseguir.
- Minha querida menina, nunca pretendi exigir voc em troca da liberdade dele. Mas ele a convenceu disso. No armei ciladas para nenhum dos dois. Voc, na sua ingenuidade, 
veio se oferecer a mim, e eu, como grego que sou, no pude recusar os presentes dos deuses. Alm disso, querida, voc  exatamente o tipo de mulher que me agrada 
e me apareceu num momento de desgosto com a vida de solteiro.  normal que voc seja minha mesmo que no me ame. - Ele fez um gesto de displicncia. - Mas no vamos 
mais falar de amor, que isso  um enigma!
Beth olhava-o sem poder acreditar no que estava ouvindo.
- Quer dizer ento que eu podia ter sado do Clube Cassandra como uma pessoa livre... livre desse pagamento to pesado?
Alexis sorriu.
- Ento eu... podia ter voltado para casa naquela noite e telefonado a Justin dizendo que ele no precisava temer o pior? - Seu corao batia to forte que a fazia 
sentir falta de ar.
- Digamos que sim.
- Mas voc me fez acreditar justamente o contrrio. Disse-me que a liberdade de meu irmo estava nas minhas mos!
-  verdade - ele teve o descaramento de concordar.
A raiva que Beth sentiu a fez descontrolar-se. Tirou a aliana do dedo e atirou-a no rosto dele.
- Faa bom proveito dessa maravilha - ela falou, furiosa. - Nunca quis me casar com voc... E no vou continuar casada!
- Vai, sim, meu amor. - Os olhos dele adquiriram um brilho ameaador. - Voc no vai me fazer de tolo diante dos convidados. Se voc no se comportar como deve, 
mandarei uma mensagem de poucas palavras ao comandante do navio em que seu irmo est viajando, informando-o de que tem um ladro a bordo. O que vai acontecer depois, 
voc j sabe.
- Voc no faria... - Beth interrompeu-se ante a dureza de pedra do rosto de Alexis e dos olhos frios como ao. Ele no estava falando por falar.
- Experimente - disse ele. - Se voc se afastar de mim quando chegarmos ao cais, hoje mesmo seu querido irmo deixara de ser um homem livre. O jogo acabou, Beth. 
Voc se casou comigo e agora  minha mulher. E continuar sendo, porque sei que no quer a desgraa de Justin.
- Voc continua blefando, Alexis!
Ele balanou a cabea.
- No estou mais, pedhi mou. Quando foi me procurar no Clube Cassandra, voc era Beth St. Cyrr. Neste exato momento voc  madame Apollonaris. E se tiver amor  
pele de seu irmo, como imagino que tem, voc subir a bordo do Stella Maris comigo e sorrir para meus amigos como uma esposa apaixonada e submissa. Certo?
Dizendo isso, ele tomou a mo de Beth e recolocou a aliana no seu dedo. As mos dela estavam geladas e tremiam. Seu corao continuava batendo desorientado.
- Seu demnio! - ela exclamou. Alexis esticou os ombros para trs.
- Foi assim que voc me chamou nio Clube Cassandra, e  por ter acreditado nisso que agora est aqui comigo. Quando pintamos uma pessoa de preto ela se torna mesmo 
temvel. Pelo menos, para quem a pintou.
Os olhos de Beth encheram-se de lgrimas. Ela virou a cabea para o outro lado, tentando reprimi-las.
Nem bem tinham se unido em matrimnio e o antagonismo entre eles j se fazia presente, pesado como a chuva forte que caa.

CAPTULO VIII
Quando chegaram ao barco, os convidados j estavam todos l, esperando-os. Beth compreendeu por que a viagem de carro parecera interminvel. O motorista certamente 
tinha recebido ordens para fazer o percurso mais longo possvel, de forma que os convidados pudessem chegar antes deles para receb-los a bordo do Stella Maris.
Beth cumpriu  risca seu papel. Durante toda a recepo usou uma mscara de sorrisos, conseguindo esconder a angstia intensa que comprimia seu corao. Ao final 
das duas horas em que o champanhe correra solto, as vrias taas que tomou tinham-lhe trazido um certo relaxamento.
Na despedida, Kara Savidge abraou-a cordialmente, olhando-a dentro dos olhos.
- Venha nos visitar em nossa ilha, Beth. Voc vai gostar. Os bosques, que se perdem de vista, esto plantados com rvores que produzem madeira para mveis e a praia 
 um sonho de to linda. E mais bonitos ainda so os nossos gmeos, Terence e Shann. Seria at bom que fosse sozinha, porque quem sabe uns dias na Baa do Drago 
no dariam um tempo para as coisas entrarem nos eixos, no ?
Quando tudo silenciou e o barco iou as velas, Beth ficou de p perto da amurada e se lembrou do convite de Kara, desejando estar rumando para a Ilha do Drago em 
vez de Dovima, ou em qualquer outra direo que a levasse para bem longe daquele casamento que s lhe trazia vantagens materiais em prejuzo das riquezas profundas 
de um possvel amor.
A chuva tinha cessado e a luz do sol banhava o mar de dourado. A gua danava, ondulante,  passagem do barco, um caque feito sob encomenda. Era mais comprido e 
um pouco mais largo do que as embarcaes gregas desse tipo. Tambm o convs do pavimento inferior era mais espaoso. Pintado de azul-claro brilhante, possua no 
costado o desenho de uma estrela simbolizando seu nome, Estrela do Mar. As paredes do interior eram marchetadas com mogno, a mais nobre das madeiras para os gregos, 
e os mveis de estilo vitoriano davam sensao de conforto e recriavam, como no Clube Cassandra, a atmosfera do Velho Mundo.
Ao lembrar-se do Clube Cassandra, Beth precisou segurar-se com fora na amurada. O desconcerto de ter cado sem necessidade naquela cilada diablica enchia-a de 
desnimo, a ponto de sentir as pernas fraquejarem. O pior de tudo era a inexistncia de um caminho de volta, o sentimento de impotncia absoluta que isso a levava.
Estranhamente, seria bem melhor que pudesse ainda acreditar que Alexis tinha um corao de pedra, pois assim o sacrifcio dela se justificaria e ela teria pelo menos 
o conforto de imaginar-se til para o irmo, a fiadora de sua liberdade. Agora, porm, ali de p no convs do Stella Maris, ela nada mais era do que uma moa ingnua 
castigada pelo esprito do desprendimento.
De repente, tudo comeou a girar. Trechos da cerimnia de casamento apareciam desencontrados em sua mente. Ela no conseguiu mais se segurar. Soltou um grito e caiu 
para fora do barco. Ao ser encoberta pela gua cor de jade, Beth j no tinha mais conscincia de nada. Quando voltou a si, o sol j batia em seus olhos e acima 
dela estava um rosto masculino muito srio, com os cabelos molhados, pingando gua. Virou-se para o lado e os vmitos a fizeram colocar para fora uma quantidade 
enorme de gua salgada. As mos fortes de Alexis a amparavam enquanto ela vomitava, tonta e nauseada.
Ele praguejou alguma coisa em grego e falou, severo:
- No imaginei que a sua infelicidade fosse assim to desesperada.
Beth fechou os olhos e uma exausto absoluta a invadiu. Tinha o corpo completamente largado quando ele a levantou nos braos e a carregou at a cabina principal. 
Percebeu que ele a estava colocando deitada sobre a cama e, ento, tudo escureceu novamente  sua volta.
Ao recobrar a conscincia, sentiu um gosto de conhaque ardendo na boca. Abriu os olhos e viu Alexis de p ao seu lado, olhando-a. Dali a pouco, quando o corpo gelado 
comeou a se aquecer pelo efeito do conhaque, deu-se conta de que estava completamente nua embaixo das cobertas.
- Voc... tirou... minhas roupas? - perguntou, desconcertada.
- No est pensando que chamei um dos rapazes da tripulao para tir-las, est? - ele falou, nervoso. - Sua irresponsvel! Voc pulou no mar de uma altura que poderia 
ter-lhe provocado uma parada cardaca!
Aos poucos, Beth foi compreendendo sobre o que ele estava falando. Sobressaltou-se ao sentir de novo o choque do impacto com a gua.
- Eu... devo ter desmaiado... - disse com voz dbil. - Fiquei tonta antes de cair...
- No  verdade. - Ele balanou a cabea. - Voc se atirou ao mar.
- No! - Beth sacudiu a cabea freneticamente. - Eu no faria uma coisa dessas...
- No faria? - Com os dentes cerrados, ele olhou para o rosto plido de Beth. - Felizmente, ouvi voc gritar e tambm pulei na gua. Foi muito interessante mergulhar 
no mar no dia de meu casamento para trazer de volta minha querida esposa para o barco. Pelo amor de Deus, Beth, o que deu em voc?
Ela balanou a cabea, cansada.
- Se eu tivesse me atirado, voc acha que eu gritaria? - Beth no sabia ao certo o que tinha acontecido. Lembrava-se de que sua mente estava girando, girando... 
imersa em pensamentos, perto da amurada, enquanto Alexis discutia ali perto com um dos rapazes da tripulao.
De novo, ela se sentiu tragada por um redemoinho. Sacudiu a cabea com fora para se livrar daquela sensao e levou a mo ao ombro, certificando-se de que a dor 
que a afligia era bem real.
- Di? - Alexis afastou a mo dela, examinou a regio machucada do ombro e fez uma expresso contrariada. - Acho que fui eu quem fez isso quando a arrastei para 
o barco.
- Voc me arrastou? Como um peixe? - Ela deixou escapar um riso nervoso, prestes a se transformar num soluo. - Desculpe, Alexis... acho que bebi champanhe demais 
e fiquei confusa com... com todo aquele incenso que houve na igreja. Acho que isso tudo foi demais para mim...
- Demais para voc, mocinha? - Ele enfiou os dedos nos cabelos desgrenhados. - E eu? Como acha que me sinto depois dessa que voc fez?
- Alexis... - Ela olhou-o suplicante. - Eu... eu no fiz isso de propsito... Acredite em mim.
- Sei muito bem o que voc pretendia. Voc queria fugir dos laos de nosso casamento, mas a forma extrema que voc escolheu no foi a melhor, pois o instinto de 
sobrevivncia  muito mais forte do que as maquinaes destrutivas de uma mente confusa. Por isso, seu corpo repudiou o gesto deliberado e voc gritou por socorro. 
E se eu a tivesse deixado ir parar nas profundezas do Mar Egeu, hein?
Beth ficou aterrorizada diante da idia. Embora no soubesse explicar direito como tinha cado no mar, sabia que no tinha feito nada deliberadamente.
Alexis caminhou at a janela e ficou de costas para ela, com um tremor sacudindo-lhe o corpo.
- Voc est ensopado! - Beth exclamou. - Tire logo essa roupa... Voc pode ficar doente!
- No seria essa uma boa soluo? Eu pegaria uma pneumonia incurvel e logo logo voc ficaria livre de mim. Muito melhor que se afogar no mar, no? Voc se tornaria 
uma viva jovem, virgem e afortunada.
- Alexis... Mas que coisa horrvel voc est dizendo... Como se eu quisesse que voc morresse...
- E no seria bom? - Ele se virou para encar-la e suas feies foram iluminadas de repente pelo claro de um relmpago que entrou pela vigia do barco. A chuva havia 
recomeado, trazendo com ela uma tempestade martima. Um trovo ribombou. Beth encolheu-se debaixo das cobertas, o rosto plido emoldurado pelos cabelos midos.
- O que voc fez com meu vestido de noiva? - ela perguntou.
- Seu vestido de noiva? Por que haveria de se interessar por ele?
O rosto plido de Beth corou.
- Era um vestido to bonito... deve ter ficado todo estragado.
- Ficou mesmo. Mas meu terno tambm ficou - ele disse, dirigindo-se para a porta. - Agora procure dormir um pouco. E no se preocupe com a tempestade. O Stella Maris 
foi construdo para suportar tambm o mau tempo. Quando chegarmos a Dovima eu a acordarei.
- Alexis...
- Sim? - Ele virou-se para olh-la.
- Eu... sinto muito o que aconteceu...
- Deixe isso pra l e durma. Um bom sono a far se sentir melhor.
Ele saiu da cabina e fechou a porta. Beth continuou deitada, sem se incomodar com os cabelos midos. A cada relmpago e trovo que se sucediam ela se encolhia na 
cama. Mas no demorou muito, adormeceu, embalada pelo sobe-e-desce do caque.
Foi acordada por Alexis, como ele havia prometido. As luzes da cabina estavam acesas e o barco no mais jogava. Vestido com um suter preto de gola alta e uma cala 
clara, ele trazia nas mos uma xcara fumegante de caf.
- Vamos, sente-se e tome isto. Depois v se vestir. A ilha j est  vista. Devemos chegar dentro de uns quinze minutos.
Beth sentou-se na cama e pegou a xcara. Sua garganta estava ressequida e a boca ainda meio salgada. Tomou o caf com tanto gosto que at parecia ser esta a sua 
bebida preferida.
- Arrume-se e venha para o convs - Alexis falou e saiu de novo.
Beth estranhou o jeito lacnico dele, porm no se deixou perturbar. O caf a havia reanimado e ela se levantou da cama com pernas firmes. Suas malas tinham sido 
levadas para o navio, enquanto ela se encontrava na igreja se casando com Alexis, e agora suas roupas estavam ali,  mo. Tomou um banho rpido e vestiu uma cala 
comprida, com um pulver de malha de algodo.
Enquanto penteava os cabelos diante do espelho, pensou em seu vestido de noiva. Alexis, em sua fria, certamente o havia jogado ao mar, uma vez que ali entre as 
suas coisas ele no se encontrava.
Virou-se um pouco de lado para ver como estava seu ombro direito, que ainda doa, e viu uma marca grande, bem arroxeada. De repente, olhando-se no espelho, Beth 
estremeceu.
- Ser possvel que tentei mesmo me matar? - ela se perguntou, baixinho. Caso isso fosse verdade, sua mente se recusava a lembrar. Madame Lilian explicara certa 
vez que os seres humanos podem ficar  merc de impulsos aparentemente incompreensveis. Por causa de algum acontecimento traumtico, guardado no nvel do inconsciente 
e no superado durante a vida, "uma pessoa pode ser levada a aes absolutamente destoantes de seu comportamento normal", ela dissera.
Beth prendeu os cabelos atrs da cabea, depois passou um pouco de blush nas mas do rosto para disfarar a palidez. Dez minutos tinham passado, desde que Alexis 
a acordara, quando chegou ao convs do Stella Maris. Estava a milhares de milhas daqueles aposentos em Westminster, onde madame Lilian lia as cartas do Tar e tentava 
devassar os vus que encobriam o destino de cada pessoa.
O destino dela, agora, era o homem alto e moreno que a aguardava ali no convs. A pouca distncia avistavam-se os despenhadeiros de Dovima. A tempestade cessara 
como por encanto e o pr-do-sol tingia o horizonte de uma profuso de tons vermelho, dourado e prpura. Os rochedos pareciam esculpidos em fogo petrificado. A beleza 
extasiante do cenrio fez Beth se emocionar.
Com algum custo ela postou-se ao lado de Alexis, que ento desviou o olhar das guas douradas cortadas pela proa do caque.
- Estas ilhas j foram centros comerciais dos venezianos e tambm as suas bases navais - ele falou. - A luz do dia, Dovima se aquece ao sol como um grande leo dourado. 
Foi a solido dela, em meio ao mar, que me atraiu.
Ele j havia mencionado uma outra vez a palavra solido.
Sem dvida, esse devia ser um sentimento muito familiar a Alexis, apesar de todo o seu sucesso financeiro, Beth sups. Essa ilha no Mar Egeu devia fazer parte de 
seu mundo, muito mais que o clube da Curzon Street ou a casa de pedras em Yorkshire, de onde desejava nunca ter sado.
O caque circundou a baa da ilha e ancorou diante de um cabo formado de rochas elevadas. Um bote foi lanado s guas para que ela e o marido pudessem chegar  
terra.
Um elevador levou-os para cima dos penhascos, onde um jipe as esperava para conduzi-los  vila. O motorista, um criado de cabelos pretos e encaracolados, enquanto 
dirigia o veculo pelo terreno acidentado, vez ou outra olhava Beth com curiosidade.
"Ento essa  a esposa inglesa do patro... essa moa plida, encapotada num casaco de pele, como se estivesse com muito frio", Beth imaginou que o rapaz estivesse 
pensando.
"E o sorriso dela, onde est? E por que est sentada separada do marido, quando deveriam estar bem juntos?", ela podia ler as perguntas nos olhos dele. Um dos marinheiros 
do caque tambm a olhara de maneira semelhante, como se no a aprovasse.
Ela podia compreender o sentimento deles... Claro que eles teriam preferido ver seu patro se casando com uma moa da nacionalidade deles, de cabelos escuros e pele 
morena, muito mais de acordo que ela com aquele cenrio.
Beth ficou ressentida. Pensou que eles mudariam de idia se a vissem montada num cavalo, galopando pelos campos, os cabelos esvoaando ao vento, os olhos iluminados 
de prazer. Em seu prprio ambiente ela era to ativa e cheia de vitalidade quanto qualquer moa grega. Adorava aqueles veres longos e idlicos em que os trigais 
cresciam fartos nas encostas dos morros. Era seu costume sair de casa ao romper da aurora, para no desperdiar nenhum momento do dia. Jovem, despreocupada e inconsciente 
da febre do jogo de seu pai e Justin, ela tinha sido uma outra pessoa.
Teve um sobressalto quando sentiu Alexis segurar sua mo. 
- Daqui a pouco voc ver a velha muralha veneziana que circunda a vila. Deixei-a intacta, pois teria sido um crime derrub-la. Como sua mo est fria, querida! 
Espero que no tenha pegado um resfriado. Isso atrapalharia um pouco a nossa lua-de-mel!
Beth contraiu os msculos do rosto e cerrou os dentes. Ele no a deixava esquecer de que ela representava para ele unicamente a posse de um objeto de prazer, de 
que ela era to propriedade dele como aquela ilha e a vila que ele havia construdo.
O veculo de repente passou por entre duas colunas altas de pedras do mesmo tipo das que formavam a muralha que rodeava a vila.
- Chegamos! - Alexis exclamou. - Estamos em casa!
Era ele quem tinha chegado em casa. Beth estava a milhares de quilmetros de tudo o que lhe era familiar. Assim que o jipe parou, ele desceu rapidamente e um grande 
cachorro peludo veio correndo fazer festa para Alexis, plantando nele as suas grandes patas, enquanto abanava a cauda enorme.
- Ajax, meu velho amigo, eu tambm senti a sua falta! - Alxis virou-se para Beth com um sorriso. - Ele  um gigante velho e manso, por isso no tenha medo dele.
- Nunca tive medo de nenhum animal de quatro patas - ela retrucou, afagando o pescoo do cachorro e permitindo que ele cheirasse o seu casaco de peles, quase a derrubando.
- Tenha bons modos, Ajax, do contrrio vou transform-lo num tapete! - Alexis brincou com o co, colocando o brao em volta do ombro de Beth e apontando para a vila. 
- Talvez isto no seja nenhuma Cathlamet, mas ela tambm  agradvel, voc ver.
O sorriso de Beth foi reticente. As luzes projetavam sombras misteriosas nas paredes e nas janelas da grande casa grega, e o ar da noite tinha um cheiro de pinho. 
Beth respirou fundo, sentindo-se melhor.
- E meu Kastello - Alexis murmurou. - Meu castelo marinho construdo sobre as runas de um velho forte veneziano. Mas o seu interior tem todo o conforto da vida 
moderna.
Entraram na casa pela porta principal, bastante recuada, porque era assentada sobre paredes muito espessas, fazendo lembrar uma caverna. Tratava-se de um recurso 
de construo que visava proteger a propriedade contra terremotos, freqentes naquelas regies gregas. Tapetes de cores alegres estavam dispostos sobre o piso de 
ardsia do hall de entrada. No centro havia uma pedra enorme que, conforme Alexis explicou, era um smbolo de boas-vindas. O hall secundrio era to comprido que 
a sua extremidade se perdia nas sombras. Num dos lados destacava-se um fogo em forma de minarete, feito de ferro forjado e revestido com ladrilhos formando mosaicos.
- Esses foges turcos so fascinantes, e o seu calor  precioso no inverno - Alexis disse, tocando nos ladrilhos.
Beth olhou em volta com os olhos arregalados. Embaixo das janelas e sob lustres de vidro colorido, um sof, coberto de peles, parecia suficiente para acomodar pelo 
menos meia dzia de pessoas. O estilo rstico dava a impresso de tratar-se de uma herana dos brbaros. O corao dela bateu com fora, excitado. Sem dvida, havia 
uma forte veia oriental no homem que construra e mobiliara aquela casa.
Como tudo era diferente de Cathlamet! Uma atmosfera extica e sensual contrastava com o ambiente sombrio criado pelos mveis de carvalho e as paredes de pedras de 
Yorkshire. Beth tentou encontrar algum defeito naquela casa na ilha de Dovima, mas o senso esttico a impediu e ela ficou fascinada por tudo, mais ainda pelo efeito 
dos cones prateados dispostos sobre uma estante lateral, cuja solidez combinava com a dos outros mveis.
Seguidos pelos criados que transportavam as bagagens, eles subiram a escada de corrimo de ferro trabalhado. No topo dela, Beth olhou para baixo, maravilhada com 
a singularidade de tudo aquilo, de uma beleza requintada, prodigiosa, extica. Era como se Alxis estivesse se compensando da infncia espartana, avara.
- Ficou impressionada? - ele perguntou, divertido.
- Bem, voc chamou esta casa de seu castelo, no? Sem duvida, ela  um reflexo da sua personalidade. Quem sabe a tentativa de obter na prtica a legitimizao de 
uma ambio aristocrtica, no  mesmo?
Ela o olhou, consciente de todas as diferenas que havia entre eles: de descendncia, de cultura, de sexo. Repentinamente sentiu-se tomada de uma fraqueza estranha. 
De imediato, ele a tomou nos braos e a carregou at um enorme quarto de dormir.

CAPTULO IX
L estava Beth na vila onde ia passar a sua lua-de-mel, aquele tempo romntico de descobertas e alegrias. Mas que s vezes trazia desapontamento mesmo para os recm-casados 
apaixonados.
Refrescou a pele com um nebulizador de gua-de-colnia, vendo, pelo espelho da penteadeira, a cama de madeira oriental marchetada de madreprola e envolta em cortinado. 
Tratava-se de uma cama turca, conforme Alexis lhe explicara, com um sorriso divertido, ao ver que ela procurava desviar os olhos do leito.
- Parece vinda de um harm - ela desdenhara.
Tirou com um leno de papel o excesso de batom dos lbios. No queria que eles se destacassem demais pelo contraste com a sua palidez. Depois, foi at o guarda-roupa 
e escolheu um vestido verde. Aps vesti-lo, prendeu os cabelos em um coque na nuca e colocou no pescoo o colar de prolas que usara no dia do casamento.
Aspsia, a criada, entrou no quarto, trazendo o ch que Beth havia pedido que preparasse. Ela prprja tinha trazido na mala uma caixa de ch preto, pois seria muito 
penoso passar duas semanas inteiras sem tomar sua bebida preferida. At apreciava o caf, mas gostava mesmo era de ch. Pegou a xcara fumegante e agradeceu a mulher 
com um murmrio.
Tinha descoberto que a criada falava um pouco de ingls, o suficiente para que pudessem se entender. Aspsia lhe dissera que trabalhava h bastante tempo para a 
me de kyrios, mas que estaria a disposio dela nas duas semana seguintes.
A moa tinha uma aparncia interessante. Os cabelos eram tranados e presos no alto da cabea e usava um vestido de mangas bufantes com avental branco.
Beth viu que Aspsia reparava em seu vestido verde, cuja cor e estilo, assim como as demais roupas de seu enxoval, combinavam perfeitamente com a cor de seus cabelos.
- Tem roupas lindas, kyria - ela falou, passando os olhos pelos trajes pendurados nos cabides. Depois voltou-se para Beth com os olhos semicerrados, pensativa. - 
Ns no sabamos que kyrios ia se casar... A me dele ficou muito surpresa - ela disse, propositalmente devagar.
- Eu... espero que madame Apollonaris no tenha ficado muito... aborrecida - Beth retrucou.
Aspsia deu de ombros, depois passou a mo pelos cabelos.
- O kyrios  tudo para ela... Na noite em que o barco trouxe a notcia do casamento, ela chorou. O caque, alis, sempre vai e volta com provises e correspondncia.
- Entendo. - Beth tomou o resto do ch pensando no que tinha acabado de ouvir. - Sinto muito que a notcia a tenha deixado transtornada. Sei que ela foi inesperada, 
mas madame se mostrou muito afvel na igreja. Ela me pareceu uma mulher de corao muito bom.
- No se esquea de que ela  uma mulher grega...
- Voc quer dizer que ela teria preferido que seu filho se casasse com uma moa grega? - Beth esforou-se para perguntar. - Imagino como madame Apollonaris deve 
estar se sentindo. Lamento muito, mas no posso fazer nada.
Beth ficou olhando pensativa para a aliana no seu dedo.
- Sabemos que na Inglaterra  costume as pessoas se casarem sem um noivado longo.
- E verdade... - De repente Beth se deu conta do que a criada estava insinuando. Alexis era um grego rico, um homem com quem muitas mulheres gostariam de se casar 
a fim de viverem luxuosamente, na fartura de roupas bonitas e jias.
No bastava tudo e agora mais isso. Beth sentiu raiva. Mas, antes que pudesse se defender, as portas altas do quarto se abriram e Alexis entrou, muito elegante em 
seu traje de noite.
- Vim busc-la para jantar... Ah, voc j est pronta! - Olhou-a de cima a baixo. - Est encantadora! - Estendeu a mo para ela. - Est parecendo Afrodite, a deusa 
do mar.
O acesso de raiva havia tido o poder de faz-la sentir-se viva novamente. Foi com vigor que caminhou at onde Alexis a esperava. E ao descer ao lado dele os degraus 
da escada uma pulsao vital vibrava em seu corpo, coberto pelo vestido bordado com contas cintilantes.
Aspsia era sem dvida muito ntima de madame Apollonaris e devia estar acostumada a trat-la com familiaridade. Mas isso no justificava que ela a colocasse numa 
situao de ter que defender seu direito de estar naquela casa. No queria comprar a inimizade de Aspsia, mas a jovem devia aprender que um comportamento como aquele 
no era adequado para uma criada pessoal. 
Beth entendia das regras de procedimento dos criados, pois crescera no meio deles. Na sua casa, no passado, somente bab Davis tinha permisso para fazer comentrios 
mais pessoais.
- Alexis, no preciso de criada. Por que no d a Aspsia uma licena, para que ela fique esses dias com a famlia dela?
- Isso ofenderia minha me. - Ele lhe dirigiu um olhar intrigado e parou perto do jardim de inverno no centro do hall. - Aspsia ficou aqui para servi-la. E, a julgar 
pela sua aparncia, ela fez um bom trabalho.
- Eu me vesti sozinha - disse ela, spera. - No preciso de criada e, alm disso...
Ele franziu as sobrancelhas, quando ela parou de falar e mordeu o lbio.
- Aspsia disse alguma coisa que no devia?
- No gosto de diz-que-diz - Beth falou, com o queixo erguido e com um brilho de irritao nos olhos. - Mas o seu pessoal parece achar que me casei com voc por 
causa de seu dinheiro, imagine s!
- Ah, ento  isso? Mas que golpe para mim! Eu que esperava tanto que as pessoas achassem que voc tinha se casado comigo por causa de minhas maneiras encantadoras!
- Alexis, voc pode se dar ao luxo de fazer piada disso, mas eu no quero ser rotulada de interesseira!
- Voc pode no querer e nem gostar, pedhakimou, mas tem que concordar que o rtulo no est muito longe da verdade. - Ele tomou-lhe a mo. - Venha, depois do jantar 
voc vai se sentir mais relaxada e vai se incomodar menos com o que possam estar dizendo sobre ns.
- Aspsia disse que sua me ficou transtornada quando recebeu a notcia de que voc ia se casar comigo... uma garota inglesa.
- Sem dvida. - Ele a conduziu  sala de jantar. - Mas ela no foi amvel com voc na igreja? Sendo grega, minha me  fatalista e aceita o que tem que ser.
- A culpa desse desgosto  sua, Alexis. Eu estou aqui por determinao sua, voc sabe disso muito bem!
- Talvez. - Ele puxou uma das cadeiras de encosto alto da mesa e mandou-a sentar-se. Depois, abaixou a cabea e beijou-a na boca, de leve. - Voc tem um rosto encantador, 
sabia? - Beth sentiu o hlito quente dele e desviou o olhar, fixando-o no lindo arranjo de flores colocado no centro da mesa, enquanto lutava consigo mesma para 
manter-se imune  proximidade dele. - No gosta de receber elogios? - Alexis perguntou, sentando-se de frente para ela.
- Imagino que voc deve estar se sentindo na obrigao de faz-los - ela respondeu, num tom de voz calmo e frio. Voc deve ter muita prtica na arte de derrubar 
as defesas de uma garota.
- Ah, ento  isso o que estou fazendo, Beth? Pensei que estivesse me comportando como um homem em lua-de-mel.
Sbito o corpo dela se esquentou e um rubor intenso subiu-lhe s faces. Ela no conseguiria deixar de olhar para Alexis. No havia dvida de que ele possua aquela 
qualidade indefinvel chamada presena. Ele certamente tinha dominado a arte da sofisticao, pois era difcil vislumbrar nele o menino do qual as outras crianas 
zombavam. No, era melhor no tentar ver menino nenhum no homem que a fitava com olhar sensual e possessivo, Beth alertou-se.
- Amanh lhe mostrarei Dovima - ele falou. - Os venezianos deixaram seus vestgios por toda parte. Eram cruzados e capites da fortuna, mercadores e invasores. Pode-se 
dizer que o Leo de So Marcos deixou a sua marca nas ilhas dos mares gregos quase que durante trezentos anos. Se pensarmos bem, veremos que existem traos de raas 
esquecidas em todos ns.
Alexis falou durante quase todo o jantar e Beth ouvia-o com interesse. Ela compreendeu que ele havia lido muito, e que sua mente gil alimentava-se dos mais variados 
tipos de conhecimento. Como ela suspeitava, ele conhecia a histria de York e j havia examinado detalhe por detalhe toda a linda catedral. Como ela, costumava comparecer 
s Vsperas, ofcio divino realizado  tardinha.
O delicioso vinho que beberam durante a refeio acabou deixando Beth completamente descontrada. Realmente, Alexis tinha o dom de ser gentil e encantador quando 
queria.
Depois que terminaram a sobremesa, sorvete de caf guarnecido com nozes torradas em pedaos, eles foram tomar caf num saloni branco e dourado. Beth ficou extasiada 
com tanta beleza e requinte. No cho, havia um tapete bordado com mil flores e, no teto, os candelabros de cristal tambm imitavam delicados ramos de flores. Os 
mveis eram de madeira clara, as poltronas de veludo castanho-tostado, e as cortinas cor de marfim emolduravam as janelas por onde entrava um perfume que lhe pareceu 
muito familiar.
Ela respirou fundo e se sentiu transportada de volta a Cathlamet. Aquele perfume era o mesmo que exalava do grande canteiro de nicotinas rubras que havia embaixo 
das janelas e que enchia a sala de estar nas noites quentes.
- No pode ser... - Beth murmurou. - As nicotinas tambm crescem na Grcia?
- Agora crescem. Eu trouxe algumas mudas dos jardins de Cathlamet e as replantei aqui, sob a sombra daquelas rvores prximas das janelas, para que o sol no queimasse 
suas razes. Parece que deu certo, no?
Beth olhou-o, espantada.
- Mas isso ... surpreendente!
- Surpreendente? - Ele arqueou as sobrancelhas. - Voc me acha assim to insensvel e sem imaginao?
- Acho.  essa a impresso que voc d. - Ela se sentou meio de lado, para aspirar melhor aquele perfume nostlgico da Inglaterra. Assim, seu perfil lembrava um 
camafeu, emoldurado pelo encosto fulvo da poltrona.
- Mesmo esta noite? - ele perguntou, caminhando sobre o tapete florido. Beth negou-se a olh-lo, tentando escapar do magnetismo que ele exercia sobre ela.
- A insensibilidade faz parte de voc... Voc no seria Alxis Apollonaris se permitisse que o corao o governasse.
- Pelo menos voc admite que eu tenho um corao.
- Todo mundo tem, no? - ela retrucou, procurando dar  sua voz um tom frio e distante, uma atitude em que sempre fora bem-sucedida para manter os amjgos de Justin 
a distncia. Aqueles rapazes turbulentos que freqentavam Cathlamet deixavam-na indiferente.  companhia deles ela preferia montar seu cavalo e cavalgar sozinha 
pelos campos. No, nenhum deles tinha conseguido perturb-la... Ao contrrio desse grego alto e moreno que a tomara para si naquela igreja deslumbrante, em meio 
ao odor de incenso e  luz tremulante das chamas das velas.
De repente, Beth percebeu que Alexis estava de p ao seu lado. Com a leveza e a agilidade de um felino, provavelmente aprendidas na infncia entre as colinas e os 
animais, ele tinha caminhado at ela sem se fazer notar.
Ficou tensa ao sentir as mos dele acariciando seu pescoo, os dedos tocando no colar de prolas.
- Alegro-me que voc esteja usando o colar esta noite. - Ele abaixou a cabea e Beth sentiu o hlito dele em sua nuca. - Ele me faz lembrar de como voc estava linda 
na igreja esta manh. Voc est se sentindo casada, moiyal
Ela sentiu as veias do pescoo pulsarem mais rpido, diante daquele contato possessivo do marido, e entrou em pnico.
- No faa isso! - Incapaz de se controlar, Beth ps-se de p num salto e afastou-se dele, como se estivesse se livrando do bote de um animal selvagem. Suas pupilas 
estavam enormes, dilatadas pelo pavor.
- Est pedindo que eu no me aproxime de voc? - Ele falou srio e devagar, contendo a raiva, e olhando fixamente para o rosto plido de Beth. - Vamos, querida, 
no acha que isso  querer demais de um homem recm-casado?
- Voc... sabe muito bem como me sinto a seu respeito...
Ela no queria suplicar, nem se rebaixar. Por isso, achou melhor sair dali em busca de abrigo na noite enluarada e perfumada. Andou apressada pelo terrao de pedra 
segurando a saia longa do vestido e desceu a escada que levava ao jardim. Sabia que na realidade no ia conseguir fugir dele, mas pelo menos lhe demonstraria que 
no queria a sua companhia. Se tivesse algum orgulho, Alexis por certo no iria querer se impor  fora.
Naquele jardim estranho, ela no sabia para onde estava indo. De repente, deu com uma espcie de ptio onde as sombras de esttuas incompletas se elevavam entre 
as rvores. Era como se ela estivesse num jardim encantado. E, em qualquer outra ocasio, ela teria ficado fascinada.
A parada momentnea diante da esttua de um homem sem rosto fez com que Alexis ganhasse tempo e a alcanasse. Soltou um grito assustado quando as mos dele a seguraram 
pelos ombros, fazendo-a girar para encar-lo. Beth soltou o corpo, abandonando-o, como que esperando que ali mesmo ele a possusse, exercendo os seus direitos de 
marido.
Alexis abraou-a com fora, de um jeito protetor e tranqilizante.
- No posso acreditar que voc me despreze tanto assim. Confie em mim. Voc no tem nada a temer, moiya. Quando um homem toma uma mulher por esposa, ele no tem 
mais o direito de dormir sozinho, numa cama solitria. Os olhos da esposa devem ser para ele um livro aberto e os lbios o poo em que ele bebe a gua da vida. Esquea 
seus temores, Beth, e seja para mim a minha mulher.
Esquecer... Como ela podia se esquecer de que ele a comprara? Ela era to propriedade dele quanto aquela ilha e Cathlamet.
Quando ele a tomou nos braos e a levou de novo para dentro de casa Beth tentou protestar, mas foi em vo. Era intil se debater, pois Alexis era muito mais forte 
do que ela. A melhor defesa possvel seria manter-se passiva. Um homem vibrante como ele gostaria de ter nos braos uma parceira receptiva e no uma mulher que o 
aceitasse com indiferena.
Chegaram ao quarto, onde ele a ps de p no cho. Beth viu que os lenis da cama j estavam puxados e que sua camisola e seu robe estavam estendidos sobre ela.
Uma certa tristeza a invadiu. A partir de agora no desfrutaria mais a intimidade de seu prprio quarto. Alexis teria o direito de entrar e sair quando bem entendesse. 
Poderia ficar olhando-a enquanto ela se despisse. Entraria no banheiro, enquanto ela estivesse tomando banho, pois ele era a mais ntima das pessoas... Ele era o 
seu marido.
Ficaram se fitando em silncio. Beth pretendia no demonstrar nenhuma emoo, mas seus olhos suplicavam, seus lbios tremiam, como que implorando pela clemncia 
que ele no concederia. Para um grego, a esposa  a carne de sua prpria carne.
- Sei que voc ficar envergonhada de se despir diante de mim - ele disse com voz grave, apontando para uma porta que se ligava a outro quarto. - Eu a deixarei sozinha 
para que voc se prepare. Mas no v dormir, hein, Beth! Eu a acordarei.
Ela no se mexeu enquanto Alexis se encaminhava para a porta em forma de arco, bem recuada, como todas as portas e janelas da casa. Quando ele a abriu, Beth pde 
ver um quarto de paredes brancas e aparncia quase monstica. Dentro dele havia um div baixo, coberto por uma colcha com desenhos em preto e branco e tapetes felpudos 
espalhados pelo assoalho de madeira. Ele logo fechou a porta e Beth finalmente ficou sozinha, respirando ofegante, com as palavras dele ecoando em sua mente.
Ela olhou em volta, como se estivesse sonhando encontrar um lugar para onde pudesse fugir. Mas a casa ficava numa ilha, a muitas e muitas lguas do continente.
No havia mais nada a fazer seno curvar-se quela cruel realidade. Ela era, agora, uma mulher recm-casada em sua noite de npcias.
Beth preparou-se para receber o marido com o corao batendo violentamente dentro do peito. O robe de renda, com bordados rabes, tinha um nmero infindvel de botes 
pequenos, de cima a baixo, e Beth abotoou-os um por um, com dedos trmulos, at ficar totalmente envolvida pelo traje. Ento, foi at o espelho e examinou a prpria 
imagem. Mal reconhecia aquela figura esguia envolta em muita renda, com os cabelos loiros ainda brilhantes na pouca luz do aposento.
"Pois seja o que Deus quiser", pensou, sentindo-se paralisada ao ouvir os passos de Alexis aproximando-se. O olhar felino que ele lhe lanou pareceu domin-la. A 
postura firme mostrava que Alexis no sentia, como ela, nenhum receio e nenhuma insegurana. O amor certamente no tinha para ele segredo algum.
- Como voc est linda, moiya! - ele falou.
Por um breve momento, ela imaginou ter sentido na voz dele uma nota de ternura. Ele se aproximou e comeou a desabotoar lentamente o robe dela, olhando-a nos olhos, 
enquanto os dedos lhe tocavam com suavidade a pele macia.
- Este traje  como uma parte de voc, mas eu quero t-la nua nos meus braos - ele murmurou. - Quero a sua pele sedosa, quero acariciar o seu corpo inteiro. Transformarei 
em brasa a sua inexperincia amorosa. Mesmo que amanh voc me considere um predador, ao invs de um amante.
Quando chegou nos botes ao nvel dos quadris, ele a deitou na cama, e prendendo-a com o peso de uma de suas pernas, desabotoou rapidamente os botes restantes e 
arrancou-lhe o robe, jogando-o ao cho.
Rapidamente, Alexis jogou-se na cama, deitando-se ao lado dela. Deslizou a mo por cima do tecido macio da camisola, percorrendo-lhe o pescoo, os seios, a cintura, 
o ventre e as coxas, indo at os ps. Depois, comeou a fazer o mesmo trajeto, de volta, enfiando a mo por baixo da camisola.
Beth no conseguia mais se controlar. Sentia-se a ponto de desfalecer, mas ainda podia conter os gemidos de prazer que lhe apertavam a garganta.
Quando a mo no podia mais caminhar, Alexis livrou-a da camisola. Olhou-a com admirao por um momento.
- Voc  a mulher mais linda e atraente que j vi - falou baixinho. Depois lhe pousou suavemente os lbios no pescoo e comeou a beij-la devagar, descendo de novo. 
Enquanto beijava-lhe os seios, ele tirou o prprio robe. Seus corpos ento se encontraram, os plos fartos e macios das coxas daquele homem musculoso e viril afagando-a. 
Beth nunca tinha imaginado que seu corpo fosse um dia capaz de atra-la daquele jeito. Sentiu-se invadida de um desejo desesperado, quase selvagem, de que as mos 
e os lbios de Alexis continuassem acariciando-a.
Ela queria odiar o que ele estava fazendo, queria sentir desprezo por si mesma por experimentar aquela necessidade doce e premente de se abandonar ao corpo e  vontade 
de Alexis.
Viu a expresso de desejo e de prazer no rosto dele enquanto a acariciava, at transform-la inteiramente em chamas ardentes. Tinha esperado se manter passiva nos 
braos dele, mas agora no havia mais lucidez alguma que a detivesse. Ela estava completamente dominada, inconsciente, nenhuma barreira se interpunha entre a sua 
conscincia e o abandono.
Alexis a manteve cativa, segurando-a com os olhos e com as mos durante um longo e delicioso momento, e ento trouxe o calor de sua boca sobre seus lbios. A lngua 
dele confundiu-se com a dela, sugando-a com nsia. Beth quase desmaiou de prazer e agarrou-se a ele. Todo o seu corpo estremeceu quando as mos fortes e firmes tocaram 
a nica pea de roupa que ela ainda usava. De repente, um rasgo de conscincia ainda a alertou.
- No, no faa isso... - suplicou.
Mas Alexis no se deteve. Completamente nua, arrepiada de alto a baixo, ela o desejava, desesperada.
Presa no cerco dos braos de Alexis, ela sentia a sua incrvel fora masculina. Palavras em grego e em ingls eram derramadas em seus ouvidos. Arqueou o corpo de 
encontro ao dele e seus dedos se enterraram nos cabelos negros. Nada mais havia no mundo, alm daquele prazer nunca antes imaginado.
Aps um intervalo de abandono e relaxamento, Alexis beijou-a na boca e tudo comeou novamente. Beth tinha perdido a sua reserva, a excitao fcil esquentava seu 
sangue ao menor toque.
Ele s adormeceu de manhzinha com a luz do dia entrando suave pelas frestas da janela.
Deitada languidamente em seus braos, Beth ouvia-lhe a respirao e sentia os movimentos que ele fazia durante o sono. Olhando-o, acariciou levemente o corpo moreno 
que a levara ao clmax do prazer e excitao. Surpreendeu-se ao ser invadida por uma onda de ternura.
Quando Beth finalmente adormeceu, com os braos fortes segurando-a, enlaando-a pela cintura, um sorriso brincava em seus lbios. Ela agora era a propriedade na 
qual Alexis Apollonaris tinha se estabelecido, com a mesma garra e tenacidade que tinha usado para dobrar o prprio destino, com a mesma inteligncia e fora que 
empregara para construir uma vida frondosa em cima das rochas da pobreza.
Beth, a loira platinada to disputada, que tantos desejos despertara com aquela boca em forma de corao, corpo esbelto e pele alva, pertencia agora ao homem do 
qual tinha desejado nunca ver a sombra. Enquanto dormia, ele a segurava bem junto de si, como se temesse ser apanhado de surpresa durante o sono, como se ela fosse 
abandon-lo, fugindo de seus braos.

CAPTULO X
Quando Beth despertou, Aspsia estava de p ao lado de sua cama, segurando uma bandeja. Examinava-a atentamente, de modo que ao abrir os olhos seus olhares se cruzaram.
Afastando os cabelos em desalinho da testa, Beth sentou-se na cama e sentiu as faces corarem. Sabia que uma antiga tradio grega fazia com que se expusesse publicamente 
o lenol da noite de npcias do casal, para que se comprovasse a virgindade da moa. Desejou fervorosamente no ter de passar por esse vexame. Entretanto, era possvel 
que a me de Alexis tivesse pedido a Aspsia para se certificar da virgindade da noiva do filho.
- A kyria dormiu muito bem - Aspsia murmurou, num tom que no era de pergunta, nem afirmao.
- Dormi, sim... - Beth olhou para o relgio da mesa-de-cabeceira e espantou-se ao ver a hora. Eram trs da tarde. O ventilador do teto girava refrescando o ar. - 
Oh,  essa hora mesmo?
-  - respondeu Aspsia, sria. - Trouxe o seu almoo, uma vez que a hora do caf j passou h muito tempo. Vai comer na cama, senhora?
- No. Antes vou tomar um banho. - Beth empurrou as cobertas para o lado, esquecendo-se de que estava sem a camisola. Corou de novo ao deparar-se com o olhar indagador 
da criada.
Passou apressada por Aspsia e entrou no banheiro, informando, antes de fechar a porta, que ia almoar no terrao. Quando a gua comeou a correr por seu corpo ela 
ps-se a lembrar de cada momento da noite passada com Alexis. Com uma sensualidade quase inconsciente, ensaboou-se com o sabonete perfumado, enquanto recordava os 
beijos que ele lhe distribura pelo corpo.
Os msculos abdominais se retesaram e as plpebras ficaram pesadas com aqueles pensamentos. No havia como negar o prazer que sentira nos braos fortes e possessivos 
de Alexis. A masculinidade experiente e ertica estava presente em cada centmetro dele e fora atravs dela que Beth fizera com o corpo uma viagem incrivelmente 
excitante.
"Isso vai acontecer de novo", pensou ela ao se enxugar, arrepiada. Muitas e muitas vezes, iria se deitar naqueles braos fortes e juntos fariam amor. E ela ia querer 
o desejo dele, ia se regalar ao ouvir as palavras ardentes em grego que ele pronunciaria. Ao ver diante do espelho da parede suas pupilas dilatadas, perguntou-se 
se acaso ele j no haveria entrado  fora em seu corao.
Isso era algo difcil de saber, era algo em que ela nem ousava pensar. O amor podia ser um grande mistrio, uma emoo estranha e assustadora, e muitas vezes, conforme 
lera nos livros, confundia-se com a paixo.
Diante do altar da igreja grega, no dia anterior, ela se sentira como uma estranha. Abordo do Stella Maris ficara to desesperada que se perturbara fisicamente, 
a ponto de ter cado ao mar.
Olhou para sua imagem refletida no espelho e viu outra vez o hematoma em seu ombro, causado talvez por Alexis ao mergulhar na gua para salv-la.
Na verdade, Beth nunca havia considerado Alexis um monstro. Ele era, sim, uma fora que ameaava sua liberdade e sua independncia. Mas nunca chegaria a ponto de 
se atirar na gua, conscientemente. No seria capaz dessa loucura. Entretanto, havia ocorrido quela luta no Mar Egeu, ela debatendo-se nas guas  procura de ar.
"No pense mais nisso!", dissera ele. Durante a noite toda conseguira tirar de sua mente os acontecimentos infelizes.
Com espanto, Beth se deu conta de que ele simplesmente a tinha feito feliz. Ainda havia aquele ardor em seu corpo, sua pele e seus cabelos brilhavam e, no fundo 
de seus olhos, resplandecia uma centelha de alegria.
Ela se sentia plena de vida. Era como se o dia anterior nunca tivesse existido. Como se ela no tivesse nascido at a ltima noite. Amarrando o cinto do robe, voltou 
ao quarto e viu que as janelas tinham sido abertas para o terrao, onde seu almoo estava servido sobre uma mesa coberta por um grande guarda-sol.
Foi at a extremidade do terrao, circundado por uma grade de ferro, aquecida pelo calor. Nunca tinha visto sol to ardente. O mar azul profundo, cor de safira, 
cintilava com seu brilho. Ali em Dovima a vida era totalmente diferente da vida que ela conhecera antes, quando ainda no sabia que faltava nela alguma coisa vital 
e empolgante.
Agora sentia-se nua como nunca. Regalou-se com essa sensao, desfrutando o prazer de cada gole do suco de uva e de cada bocado de comida.
A sobremesa estava se decidindo entre comer damascos ou pssegos, quando uma risca dividindo um dos pssegos chamou-lhe a ateno. Ao peg-lo, as duas metades se 
separaram. No centro de uma delas, onde devia estar o caroo, havia um pequeno embrulho em papel alumnio.
Prendeu a respirao ao desembrulh-lo e encontrou um rubi em forma de corao, acompanhado de uma fina corrente de ouro.
- Espero que voc tenha gostado - murmurou uma voz por trs dela.
Virou-se rapidamente e viu Alexis de p ao lado da porta que dava para o terrao, a tez morena se destacando pelo contraste com a cala e a camiseta brancas.
-  lindo... - ela falou, estremecendo  simples proximidade dele. Ambos pareciam as mesmas pessoas da vspera, porm uma mudana profunda havia se operado neles. 
Os olhos sorridentes de Alexis demonstravam a sua conscincia desse fato.
- Voc dormiu como um beb, hein? - Ele se inclinou e ela ergueu involuntariamente a cabea oferecendo-lhe os lbios. Ele a beijou e fez com que ela se levantasse 
para abra-lo.
- Est tudo bem? - ele perguntou, acariciando-lhe os cabelos e olhando-a com carinho. 
Ela corou. Sabia a que ele estava se referindo. Alexis sorriu passando-lhe os dedos na face, como se estivesse gostando de sentir a quentura de seu rubor. - Ento, 
voc gostou do presente?
Ela confirmou com um gesto de cabea. 
- Voc  sempre imprevisvel, Alexis.
- Considere esse rubi o sangue de meu corao - ele murmurou. E tomando-o de suas mos, pendurou-o em seu pescoo. O vermelho ardente do rubi destacou-se contra 
a pele branca do colo de Beth.
- Sempre a achei encantadora, moiya - ele continuou, num tom de voz grave. - Mas ao olhar para voc agora vejo uma incandescncia que me aquece e me atrai ainda 
mais. Acho que nossa noite de npcias foi agradvel para ns dois, no foi?
Beth brincou com o corao de rubi e o fitou com timidez, absolutamente segura de que nenhum homem jamais a conheceria como Alexis tinha conhecido. Certa vez perguntara 
a madame Lilian se os homens e as mulheres se conheciam de existncias anteriores. Naquele momento, parecia que ela e Alexis j tinham estado juntos debaixo daquele 
sol grego, muitssimo tempo atrs. A comunho entre eles afigurava-se to perfeita que era como se as clulas da pele de um fossem iguais s do outro, como se as 
batidas do corao dele obedecessem ao mesmo ritmo das do dela.
- Ontem voc estava cheia de temores e de pesares - ele disse. - Ser que se foram, de uma vez para sempre?
- Quase todos - ela respondeu, com sinceridade. - Sempre lamentarei o fato de Justin ter-lhe roubado, isso  inevitvel.
- E compreensvel, pois voc  jovem, orgulhosa e romntica - ele falou, espalmando as mos. - Agora quanto aos receios... fale-me sobre eles!
- Eu... sempre sentirei medo...
- Medo, Beth?
Ela segurou o rubi com fora.
- Tenho medo de que voc pense... quando estivermos fazendo amor... que eu estou lhe pagando...
Ele praguejou e, sem fazer nenhum esforo, levantou-a nos braos e levou-a para o quarto, para a mesma cama onde um havia apagado as lembranas mais tristes do outro. 
De novo, um desejo intenso de prazer os dominou, encobrindo os resqucios de ressentimento.
Chamas de erotismo arderam entre eles quando seus lbios se uniram e ele a pousou suavemente na cama, arrumada de novo com lenis limpos, recendendo a limo.
- Ah, o fogo doce desses olhos. - Alexis aninhou o rosto de Beth entre as mos e ficou fitando seus olhos durante um longo tempo. O olhar dela era sonhador e os 
lbios estavam entreabertos, preparados para seus beijos. Mas ao receber o primeiro deles ela murmurou:
- Ns no devemos... no assim no meio do dia!
- Esta  a hora da sesta, minha mulherzinha convencional. - Ele riu, carinhoso. - Quem seria louco a ponto de desperdiar este momento? Ns?
- Por que isso, Alexis? - Ela estava deitada, submissa, enquanto ele desatava o cinto de seu robe.
- Voc e eu, moiya, esperamos muito tempo para ficarmos juntos.
- Oh... - Os olhos dela se encheram de arrependimento, enquanto Alexis tirava a camiseta e desafivelava o cinto de suas calas. - Voc no vai me perdoar pela minha 
recusa inicial, vai, Alexis?
Ele sacudiu a cabea, resoluto.
- Voc nos fez perder muito tempo, moiya, esperando at que aquele seu irmo aproveitador a empurrasse para mim. - Ele se inclinou sobre ela e acariciou-lhe o corpo. 
- No, no vou perdo-la por todas as sestas como esta que passamos longe um do outro.
- E se a criada voltar? - Embora preocupada, o corpo de Beth tambm estava desejoso daquele contato.
Os carinhos se intensificaram e ela logo os devolveu com a mesma intensidade. Como se tivesse pago uma grande soma por ela, Alexis admirava-a, enquanto as suas mos 
exploravam sem pressa a textura delicada de sua pele. Deteve-se nas curvas suaves da boca, reparou no brilho alvo dos dentes, admirou os lindos cabelos que emprestavam 
um mistrio sensual aos olhos. Encantou-se com o modo como seus cabelos captavam a luz e a maneira como as cavidades sedosas, abaixo das clavculas, formavam sombras 
engraadas.
Beth ardia de paixo entre os braos fortes. Trazia no rosto a expresso sedutora de uma mulher muito experiente na arte do amor.
- Sua boca  adorvel - ele murmurou, beijando-a sensualmente. - Tem corpo de menina, mas  mulher da cabea aos ps. Voc  minha para sempre, querida, no importa 
o que acontea... Mesmo que me odeie.
- Odi-lo? - Ela o enlaou pelo pescoo e sentiu o calor e a excitao tomarem conta do corpo msculo. - Eu nunca vou sentir isso por voc, Alexis.
- E o que voc diz, moiya, e  o que eu desejo tambm. Porm tudo  possvel quando se trata de ns dois. Mas voc  minha e eu a adoro! - Alexis comeou a falar 
em grego, seus carinhos se tornaram mais vibrantes, e ele a possuiu.
O tempo pareceu parar. S os dois existiam no mundo e Beth teve a sensao de estar segurando em seus braos toda a fora da vida.
A excitao entre eles foi mais possante que da vez anterior. O corpo bem-feito de Beth j no era mais novo no prazer e estava se tornando exigente. Alexis estava 
to cheio de desejo e era to hbil na arte de conduzi-la, que o desfecho lembrava uma cascata caindo no mago do seu ser.
O sol estava se pondo. Iluminado pelos raios dourados que penetravam no quarto, Alexis parecia uma figura de bronze em contraste com a alvura de sua esposa, o rosto 
pousado em meio aos cabelos emaranhados da companheira.
- Seu cheiro  o de um trigal que tomou sol o dia todo - ele murmurou. - Voc  meu campo de surpresas douradas, pedhakimou.
- Por que eu o surpreendo, Alexis? - Com o corpo ainda unido ao dele, ela sentia uma descontrao intensa, uma espcie de prazer animal originado da descoberta do 
prprio corpo.
- Porque voc  to ardente quanto as mulheres gregas!
- Isso  um elogio ou uma confisso? - ela perguntou em tom de brincadeira. Mas logo ficou curiosa em saber sobre as outras mulheres que ele havia conhecido. - Houve 
muitas mulheres em sua vida?
- Nem sempre fui casado - ele brincou. - E minha me no concebeu um filho com inclinaes para o celibato. Houve mulheres de quem gostei e outras que admirei... 
Mas s depois que a conheci  que senti vontade de abrir mo da minha liberdade.
-  estranho, mas eu tambm detestava a idia de ficar presa a um homem. Quando cavalgava pelos campos, desejava nunca me comprometer com ningum para no ter que 
abrir mo do meu esprito de liberdade. Eu preferia at cavalgar sem sela, para que o cavalo pudesse se sentir to livre quanto eu.
- Como eu j disse, pedhakimou, nunca tive esperanas de um dia possu-la assim to intensamente. - Ele se ergueu e olhou-a de alto a baixo,  luz avermelhada que 
banhava o quarto. - Voc tem conscincia da forma integral como se entregou a mim?
Ela sorriu e o acariciou no rosto.
- Estar com voc  como cavalgar livre pelos campos. Voc tem alguma coisa do esprito indomvel da natureza, Alexis. Como as rochas, voc possui um toque de mistrio 
que encanta o esprito. Alis, quando vai a Cathlamet?
Aps um momento de silncio, ele se afastou dela e se levantou da cama. Beth percebeu que o magoara.
- O que houve, Alexis? - Ela se sentou na cama, esforando-se para decifrar a expresso do rosto dele. O quarto agora estava mergulhado na penumbra, as sombras dispersavam 
a pouca luz do sol que ainda entrava pela janela. - Alexis, fale comigo!
- Estamos em Dovima para vivermos a nossa lua-de-mel - ele falou, meio triste. - Voc no poderia se esquecer um pouco de Cathlamet?
- Claro que posso. Desde que voc no me pea para esquec-la de uma vez por todas. - Ela se ajoelhou de maneira quase suplicante. - No me pea para tirar Cathlamet 
do corao. Pensei que amos construir nosso lar, naquela casa.
- Quem sabe! - Alexis voltou, apanhou suas roupas e foi para o quarto adjacente. Depois que fechou a porta, Beth vestiu o robe e foi descala at o terrao, cujo 
piso e grade de ferro ainda conservavam um pouco do calor do dia.
Ela se debruou na balaustrada e ficou ouvindo o murmrio distante do mar, aspirando o ar impregnado do aroma da resina dos pinheiros que cobriam a ilha. No alto 
as estrelas j pontilhavam o cu lils.
Era compreensvel que Alexis quisesse passar algum tempo na Grcia, afinal sua me morava ali e era natural que ele quisesse estar com ela.
O que Beth no podia suportar era a idia de no voltar a morar em Cathlamet, depois de ter acalentado este sonho, estimulada pelas promessas que ele lhe fez. Ela 
no s adorava as pedras cor de mel daquela casa, como tambm tinha gravado para sempre na mente cada nicho e cada greta existente nela. No esqueceria nunca o seu 
quarto, todo decorado com papel de parede alegre, em que os desenhos de pssaros, ramos e folhas de tons suaves criavam uma atmosfera de fantasia. Nem a cama torneada 
em madeira, em estilo sculo XVIII, com um dossel sustentado por colunas estreita^, o tecido do acolchoado combinando com as cortinas das janelas.
Dois belos tapetes persas destacavam-se sobre o assoalho cor de mel e uma estante, onde ela arrumava os livros de literatura, ocupava boa parte de uma das paredes. 
Havia tambm uma mesinha de madeira, onde ela guardava sua coleo de leques de sedas e rendas.
Na galeria de arte predominavam esculturas de Crinling Gibbons. As guarnies das portas, trabalhadas artesanalmente, despertavam a admirao dos visitantes. No 
jardim de inverno a abboda de vidro era para os olhos um cu colorido.
Diante da casa, cujas dependncias recebiam a luz do sol em profuso, estendia-se um amplo jardim. Bastava fechar os olhos para visualizar com nitidez o piso de 
carvalho da casa inteira, os bancos do hall, feitos da mesma madeira, as cadeiras revestidas de tecidos estampados. Podia-se at sentir o calor e ouvir o estalido 
das toras de madeira ardendo na enorme lareira de mrmore irlands, nos dias gelados.
Nada era mais bonito que a silhueta extica e ao mesmo tempo romntica daquelas torres circulares contra o cu noturno. Havia ainda o prazer de deixar-se ficar no 
Quarto do Pavo, assim chamado porque no teto havia a pintura de um vistoso pavo de penas azuis.
Beth adorava Cathlamet com a mesma intensidade com que Alexis adorava a Grcia. Talvez houvesse a um antagonismo que a harmonia fsica deles no conseguiria superar. 
Ele era grego com a mesma ardncia e fora com que ela era inglesa.
Beth s se dera conta da amplitude de sua paixo por Alxis depois do contato fsico que tivera com ele. Entretanto, estava determinada a lutar pelo prazer de voltar 
a morar em Cathlamet, apesar da vontade de submeter-se inteira a Alexis, ante a moleza que a invadia quando estava em seus braos. Agora que estava casada tinha 
de novo direitos legais sobre Cathlamet e no abriria mo deles.
A brisa fresca do mar soprava seus cabelos e estimulava seus planos. Primeiro ela tentaria persuadi-lo, utilizando os argumentos da razo. Se no desse certo e ele 
continuasse insistindo em fixar residncia na Grcia, faria ento uso dos seus encantos femininos, tornar-se-ia insinuante e aparentemente dcil, o conquistaria 
a ponto de que a felicidade dele consistisse em satisfazer seus mnimos desejos. Beth sorriu consigo mesma. No final das contas, era at interessante estar casada. 
Por mais forte e exigente que fosse o homem, ele podia ficar  merc da fragilidade da mulher. Contanto que a amasse, Alexis certamente a trataria com delicadeza, 
temeroso de maltratar sua pele macia, de ferir sua sensibilidade.
Sorrindo, voltou para o quarto. Arrumou a cama, alisando cuidadosamente os lenis, e colocou os travesseiros no lugar. Aspsia viria dentro de pouco tempo para 
preparar seu banho. Era melhor no permitir que ela testemunhasse os desarranjos da batalha do amor recm-vivida.
Havia algo naquela moa que a deixava irritada. T-la sempre por perto era como estar fornecendo ao inimigo as informaes secretas. Estava convencida de que Aspsia 
observava cada movimento seu com a finalidade de apresentar a madame Apollonaris um relatrio completo de seu comportamento na lua-de-mel.
Pelo menos Aspsia no ia poder informar  me de Alexis que a esposa dele era relutante. Era evidente que seu filho estava recebendo uma resposta afetiva intensa 
da parte da esposa inglesa, se era isso que a preocupava tanto. Ela devia conhecer o filho melhor do que ningum, e por certo desejava para ele uma esposa que o 
acolhesse com entusiasmo, que lhe dedicasse amor para abrandar as feridas antigas e as rejeies da infncia.
Enquanto acertava a colcha sobre a cama, Beth ficou meio zonza ao recordar-se da felicidade delirante que sentira nos braos do marido. De como fora levada s alturas, 
quase enlouquecida de prazer pelas mos que lhe acariciaram o corpo, pelos beijos sensuais que a fizeram gemer e segurar com fora aquele corpo forte e musculoso.
Invadida pela lembrana, ela se jogou na cama envolvendo o prprio corpo com os braos, sentindo as vibraes de um prazer cujo ardor ainda no se tinha apagado. 
Seu corao comeou a bater acelerado ao recordar os segredos ntimos que tinha compartilhado com Alexis. At parecia que ele estava ali novamente, ao seu lado. 
As pontas dos dedos formigavam e os bicos dos seios intumescidos pressionavam a seda do robe.
Aquele prazer enchia-a de uma emoo to intensa que as lgrimas marejaram-lhe os olhos. Era inacreditvel, mas Alexis a possua mesmo sem estarem juntos. O corpo 
moreno e forte preenchia cada milmetro de sua mente, trazendo-lhe de novo a sensao de seus beijos e de suas carcias.
- A kyria est triste?
Surpreendida, Beth olhou para cima e viu os olhos atentos de Aspsia, reparando nas lgrimas que lhe escorriam pelas faces.
- Ora... No!
- Mas a kyria est chorando...
- No estou triste, j falei. - Beth sentou-se e percebeu que Aspsia reparava na colcha estendida.
- A kyria no precisava ter-se dado ao trabalho de arrumar a cama - a moa falou com o olhar sombrio e penetrante. - Fazer isso  minha obrigao.
- A sua obrigao  no ser to insolente! - De repente, Beth perdeu a pacincia com Aspsia. - J que no tem cama para arrumar, me prepare um banho com sais de 
pinho. E me diga uma coisa: madame Apollonaris lhe deu ordens para me vigiar?
Aspsia se fez de desentendida.
- No entendo o que a kyria diz quando fala depressa.
- Voc entendeu muito bem. Faa o favor de ir tratar do meu banho.
- Ne, senhora.
Assim que Aspsia entrou no banheiro, Beth foi ao guarda-roupa para escolher o vestido que ia usar para o jantar. Ela no ia permitir que aquela xereta lhe dissesse 
o que devia ou no usar. Pegou um vestido de chiffon de seda opalescente e um par de sapatos prateados, lembrando-se de que era o mesmo traje que havia usado na 
noite anterior, quando fugira de Alexis, correndo para o jardim de esttuas de pedra.
Estranhamente, no conseguia se lembrar muito bem dos acontecimentos anteriores aos momentos de amor, apesar de to recentes. Teria mesmo sentido ter tanto medo 
de Alexis? Sorriu ao prender os cabelos para que as pontas no se molhassem enquanto tomava banho.
Quando Aspsia saiu do banheiro, disse-lhe:
- Diga  cozinheira que me prepare o ch. Basta colocar no bule duas colheres pequenas de ch e gua fervente at o meio, entendeu?
- Ne, senhora. - Aspsia inclinou a cabea, e saiu do quarto. Beth percebeu que ela tinha ficado ressentida. Certamente, era do tipo de criada que gostava de estar 
a par dos segredos da patroa, por isso estava se sentindo frustrada. Se a moa estivesse realmente espionando para madame Apollonaris, como ela suspeitava, seria 
melhor contar a Alexis, que, mais do que ningum, tinha motivos de sobra para no querer que coisas desagradveis fossem parar nos ouvidos da me.
Beth mergulhou o corpo na banheira, desfrutando a tepidez da gua perfumada durante um bom tempo. Depois, secou-se com a toalha felpuda e macia, vestiu o robe e 
voltou para o quarto. Assim que entrou assustou-se. Aspsia estava levando de volta para o guarda-roupa o vestido de chiffon.
- O que est fazendo? - Beth perguntou, enfurecida. A moa se virou e olhou-a com uma expresso altiva.
- A kyria tem lindos vestidos de alta costura comprados pelo patro. Ento, deve us-los, em vez de deix-los enfeitando o guarda-roupa.
- Mas que atrevimento! - Beth atravessou o quarto e estendeu a mo para pegar o vestido. - No estou acostumada ao clima grego e quero vestir alguma roupa fresca. 
Me d o vestido, seno vou chamar o kyrios e fazer com que ele a despea agora mesmo!
- O kyrios no me despediria, pois estou a servio da me dele. - Aspsia olhou Beth de cima a baixo. - Os ingleses no podem entender a lealdade que h entre os 
gregos - falou com ar de desprezo.
- Entendo muito bem a ligao que existe entre meu marido e a me dele - Beth retrucou, sentindo os nervos retesarem. - Mas, se voc est pensando que ele colocaria 
os desejos dela na frente dos meus, est muito enganada.
- Ah, ? Por qu, hein? Por causa... daquilo?! - Aspsia apontou para a cama. - Por acaso a senhora est achando que  a primeira mulher na vida do kyrios?
- Posso no ser a primeira mulher, mas sou a primeira esposa na vida dele! - Beth levou de novo a mo para pegar o vestido, mas Aspsia puxou-o rapidamente para 
trs, arrancando-o dos dedos de Beth e fazendo com que o fino chiffon de seda se rasgasse. Aspsia ficou momentaneamente desajeitada. Mas logo em seguida pareceu 
se recuperar e jogou o vestido rasgado nas mos de Beth.
- Foi a senhora quem fez isso! No pode pr a culpa em mim. A senhora teve um acesso de raiva e tentou arrancar o vestido das minhas mos!
Beth ficou atnita, segurando o vestido, e Aspsia saiu correndo do quarto. Meio minuto depois Alexis entrou pela porta escancarada.
- Voc teve uma discusso com a criada? Ela passou voando por mim, em lgrimas, falando alguma coisa sobre um vestido rasgado e dizendo que voc a estava culpando... 
Ah,  esse a o tal vestido?
Ela atravessou o quarto e se aproximou de Alexis, furiosa. Ento, Aspsia lhe rasgara o vestido e ainda punha a culpa nela... Mas Alexis parecia divertir-se com 
a situao. Era melhor no estragar seu bom humor.
- Parece... que no estou me saindo muito bem com a criada de sua me - procurou falar com naturalidade. - Ela queria que eu usasse um de meus vestidos mais finos 
e tivemos uma pequena discusso por causa disso. Estou comeando a perceber como vocs gregos so obstinados.
- Infelizmente, minha me costuma deixar Aspsia fazer tudo o que ela quer. - Alexis pegou o vestido rasgado. - E uma pena. Ele  mesmo muito bonito. Mas voc tem 
outros, no ? Depois veremos se h alguma costureira na ilha que possa consert-lo.
Beth percebeu que Alexis no estava querendo encompridar a histria, e que aquele tambm no era o momento propcio para falar sobre a suspeita de que estava sendo 
vigiada.
Enquanto ela foi escolher outro vestido, Alexis sentou-se numa das poltronas, como se pretendesse permanecer ali enquanto ela se vestia.
Beth pegou no guarda-roupa um vestido de seda com gola tipo mandarim. Sorriu ao tentar adivinhar se ele resistiria  tentao de v-la nua, ou se o jantar acabaria 
ficando para mais tarde.
Muito elegante em seu traje de noite, Alexis ficou observando-a silenciosa e atentamente, enquanto ela tirava o robe e vestia as roupas de baixo.
- Est gostando do espetculo? - ela perguntou, sem jeito, indo at a penteadeira para soltar e pentear os cabelos. Pelo espelho viu que ele estava sorrindo.
- Esse  um privilgio meu, no? - Alexis falou com orgulha. - Voc  minha da cabea aos ps, querida.                                       j
- Voc  um demnio e ainda por cima possessivo, Alexis. -_ Ela riu. Prendeu os cabelos com uma presilha de madreprola -do lado esquerdo e deixou-os soltos do outro 
lado. Depois, se pautou levemente.
Alexis continuou observando-a languidamente enquanto ela vestia as meias e calava os sapatos prateados. Ela j ia pegar o vestido, quando ele se levantou e se aproximou, 
segurando-a por trs e beijando-a no pescoo.
- Eu a tornei minha para sempre - murmurou junto ao seu ouvido. - Se voc fosse para longe de mim... se fosse para o outro lado do mundo, ainda assim saberia que 
me pertence.
- E por que eu iria querer deix-lo? - Ela se arrepiou com o contato dos lbios dele. - Estou muito feliz aqui.
- Tome cuidado com o que voc diz, Beth. Ns, gregos, evitamos proclamar a nossa alegria em voz alta, pois esta seria uma forma de desafiar o destino. Pessoalmente, 
me guio pelo mandamento de Apolo, que o homem deve viver como se tivesse apenas mais um dia para desfrutar a luz do sol.
- Voc  fatalista - ela disse com carinho. - Voc me surpreende. Sobre certas coisas tem um conhecimento to aprofundado e sobre outras, to primitivo.
- O meu lado primitivo  voc quem traz  tona. E fica toda feliz com isso, no  mesmo?
"Sim", o corao dela respondeu. Ela estava incrivelmente maravilhada em desfrutar o lado animal e indomvel de Alexis, apesar de saber que num momento de clera 
no veria nisso nenhum encanto.
- Agora estou com muita fome - ele falou, srio. - Por isso vou guardar meus impulsos primitivos para depois do jantar.
Ele riu, um riso solto, e beijou-a novamente no pescoo. Depois, soltou-a.
- Quer que eu a ajude a se vestir?
Beth sentiu que ele a olhava com ternura, enquanto a ajudava pr o vestido azul, que combinava com o tom acinzentado de seus olhos. Colocou tambm no pescoo a corrente 
de ouro com o pendente de rubi.
- Seus olhos so to lindos como o luar refletido na gua - ele disse, tomando-lhe o rosto entre as mos.
- Meu marido  um poeta primitivo. - Ela sorriu. - No ser por acaso o prprio Apolo?
Ele estreitou os olhos, que se tornaram ardentes.
- Apolo, o deus do sol, era apenas grego. Eu sou mais perigoso que ele, porque tenho nas veias sangue turco tambm. Por isso, voc sempre ver em mim lampejos de 
guerreiro e lembranas de harns. Esteja preparada para ser a mulher de um homem assim.
- Farei o possvel. - Seu corao batia descompassado, como acontece quando se sente uma forte emoo. - Eu soube disso logo que nos conhecemos. No entanto, estou 
aqui com voc, Alexis. Voc fez as coisas ao seu modo,  certo, mas no se esquea de que houve a minha concordncia.
- Admiro os britnicos, porque sempre foram corajosos - ele respondeu sorrindo.
Ento os dois deram-se os braos e desceram para jantar.

CAPTULO XI
O jantar, servido no belo saloni branco e dourado, foi tipicamente grego. O prato de entrada eram dolmathes, charutos de carne moda com arroz, temperados com ervas 
frescas, envoltos em tenras folhas de parreira. O vinho tinto que o acompanhava aumentava-lhe o sabor.
- Que tal?
Alexis observava Beth enquanto ela comia, a luz das velas refletindo em seus olhos. Estavam sentados um de frente para o outro, na mesa redonda localizada numa rea 
de piso rebaixado do saloni, no qual as janelas abertas deixavam entrar o ar fresco e perfumado da noite.
- Humm... Estou com tanta fome! Deve ser o ar da ilha.
- Entre outras coisas... - Alexis levou a taa de vinho aos lbios, os olhos brilhando, divertidos. - Voc sabia que as ilhas gregas so circundadas por rochedos 
elevados que criam uma espcie de anel de prata quando vistas do ar?
- E por isso que voc gosta tanto das ilhas, Alexis? De certa forma, elas simbolizam a sua prpria natureza.
- Voc acha minha natureza parecida com a das rochas.  isso?
- . Jamais me enganaria supondo que a suavidade  a sua marca principal, Alexis. Alis, se assim fosse, se no houvesse em voc a profundeza dos sedimentos rochosos, 
voc no seria to fascinante. Na base da sua construo esto as rochas, a dureza, como suporte do homem afortunado de hoje, no ?
- E voc me admira por causa disso, pedhimou?
- A maioria das mulheres admira a fora, a coragem e a auto-disciplina dos homens de sucesso. - Ela lhe sorriu por cima da borda da taa. - Voc, alm de ter essas 
qualidades,  implacvel tambm. Entretanto, admito que voc tenha o direito de ser assim.
- Obrigado, querida. Fico muito grato com tanta compreenso - ele brincou. - Mas, e se eu for implacvel com voc?
- O que voc quer dizer com isso, Alexis? - Beth sentiu o corao bater mais forte e a imagem de Cathlamet veio-lhe  mente. Logo teriam que discutir sobre o assunto, 
mas ela no queria estragar o jantar naquele momento. Haveria muito tempo para isso e era melhor no conturbar a harmonia daquela tarde de amor que ainda persistia.
- No sentido mais bvio, moiya, que eu sou grego e voc  inglesa, por isso, inevitavelmente, teremos divergncias. Em alguns casos cederei, mas em outros no.
- Terei direito s pequenas vitrias. Entretanto, as grandes voc vai reservar para voc mesmo, no  isso?
- Pretendo ser o senhor de minha prpria casa. Voc por acaso gostaria que fosse de outra forma, Beth? Voc continuaria a admirar a fora de meu carter se eu me 
transformasse num homem fraco, dominado por uma mulher voluntariosa?
- Eu jamais poderia dominar voc. - Beth riu da simples idia, pois at a aparncia de Alexis exclua essa possibilidade.
O poder estampava-se nas suas feies, e a fora e a resistncia fsica emanavam de seu corpo. E, apesar da proximidade que haviam experimentado, a presena dele 
ainda lhe infundia um toque de medo.
A intimidade que desfrutara daquele corpo, na verdade no havia lhe dado acesso  sua mente. De certa maneira Alexis ainda continuava sendo o estranho vindo de uma 
terra distante que passara a lhe dirigir a vida, assim como tomara posse de Cathlamet, sem entretanto ter pela casa nenhuma afeio. Alis, quem esperaria que um 
grego se interessasse por uma velha manso de campo nos arredores de Yorkshire?
A refeio prosseguiu com carne de carneiro assada servida com legumes ligeiramente refogados e um molho suculento. O vinho foi trocado por outro mais forte e Beth 
percebeu que se no se precavesse estaria um pouco alta ao final do jantar.
Ao afastar a taa, viu Alexis franzir as sobrancelhas.
- No gostou do vinho?
- E um pouco forte para mim - ela respondeu, sorrindo. - No sou muito forte para beber. Um pouco a mais de bebida j me sobe  cabea.
- No se preocupe. Se voc no estiver conseguindo andar, eu a carregarei at o quarto. Vamos, erga a taa e beba comigo...
- Alexis, est querendo me embebedar?
- S quero que voc fique descontrada, querida. Estamos em lua-de-mel e cada momento deve ser bem aproveitado. No deve haver nenhuma sombra de preocupao para 
estragar nossos momentos juntos, assim como nenhuma partcula estranha macula a pureza deste vinho, feito de uvas silvestres de Dovima.
- Est bem - Beth concordou, tomando um gole de vinho. - Como posso me recusar a acatar seu pedido quando voc volta para mim o seu philotimo?
- Ento, voc conhece essa palavra grega?
- Olhei no dicionrio e descobri que se trata da derivao de uma palavra que significa poder e talento fora do comum. Voc tem essas qualidades, no tem, Alexis?
- Tenho? - Ele sorriu. - Voc vai ter que aprender a minha lngua, Beth. No vai ser muito difcil, pois as razes dela esto emaranhadas na sua prpria lngua. 
Existe um professor extraordinrio de lnguas em Atenas. Foi com quem aprendi ingls, e acho que seria bom voc ter aulas com ele tambm. O que voc acha?
Beth tomou um grande gole de vinho, enquanto reunia coragem para tocar no assunto.
- Alexis, quer dizer que quando deixarmos Dovima ns vamos morar em Atenas?
- Tenho um bom apartamento l, de modo que seria a coisa mais sensata a fazer. - Ele cortou vagarosamente um pedao da carne em seu prato. - Voc tem alguma coisa 
contra? Ela respirou fundo.
- Eu esperava... eu... achava que talvez pudssemos morar em Cathlamet... Pelo menos uma parte do ano! Ser que no podemos?
Ele continuou mastigando devagar, como se hesitasse em responder  pergunta.
- Alexis, por favor, diga que sim! - Ela olhou fixamente para o homem que a tivera nos braos durante a tarde. Ele no podia ser to cruel a ponto de dizer que morar 
em Cathlamet era um sonho impossvel.
- Sugiro que conversemos sobre esse assunto durante o caf. Primeiro vamos saborear a sobremesa, est bem?
- Por qu? Sua deciso a respeito de Cathlamet no ser a que estou esperando, ser? - Beth tentou falar calmamente, mas sua voz tremia. No queria nem pensar no 
que estava por acontecer. O jeito dele dava a entender que toda aquela maravilhosa harmonia que tinham descoberto juntos iria por gua abaixo quando comeassem a 
falar sobre Cathlamet. Como ela reagiria se ele lhe dissesse que tinha decidido vender a casa?
A sobremesa foi servida. Apesar da aparncia saborosa do flan de frutas gelado, Beth precisou se esforar para comer um pouquinho de doce.
Alexis observava-a sem a censurar e nem disse nada at que entraram na sala onde o caf foi servido. Ele ficou de p perto da janela, com a xcara de caf na mo. 
Beth porm, sentou-se numa poltrona, calada, consciente do poder resoluto da figura alta do marido, delineada contra o branco da parede e o teto azul de onde pendia 
um lustre em forma de sino.
De algum lugar, alm das janelas, o som de uma msica grega enchia o ar da noite, com acordes inseparveis de alegria e tristeza.
A msica parecia dizer que a vida de uma mulher com um homem grego nunca seria uma acomodao, mas uma ilha de felicidade onde as sombras espreitavam, trazendo prazer 
e sofrimento em igual proporo.
Beth colocou a xcara de caf sobre a mesinha de centro, e passou nervosamente os dedos pelos cabelos procurando encontrar palavras com que pudesse interrog-lo 
sem no entanto, criar um clima desfavorvel. Mas ele se antecedeu, falando lentamente, com voz grave:
- Seus cabelos so realmente muito bonitos, moiya. Reluzem como o prateado da asa de um falco.
A msica continuava. Nos pinheiros as cigarras cantavam em coro. Beth no sabia o que responder. Pousou os olhos sobre o tapete cor de marfim, depois voltou-se para 
as lmpadas com bases de nix branco e a seguir olhou para os mveis esculpidos a mo. Finalmente, deteve-se num nicho onde um busto esculpido em marfim tinha a 
cabea meio encoberta pela sombra.
De repente, estremeceu ao ouvir o click de um isqueiro acompanhado por uma nuvem de fumaa de charuto que veio em sua direo.
- Diga o que est pensando, Beth. Ns j tomamos caf e eu prometi que responderia s suas perguntas sobre Cathlamet.
Sem tirar os olhos do nicho, Beth perguntou se eles poderiam passar uma parte do ano em Cathlamet.
- Infelizmente, isso agora  impossvel.
Beth ficou atnita. Se no tinha grandes esperanas, tambm no esperava ouvir uma resposta assim to cruel e insensvel. Olhou para Alexis magoada e perplexa e 
viu por entre a fumaa um rosto de bronze.
- Infelizmente, por qu? As pessoas precisam ter corao para sentirem-se tristes. Acho que esse no  o seu caso. Ento, por que est to preocupado em ferir meus 
sentimentos?
Sentindo uma dor extrema, ela resolveu implorar.
- Por que faz tanta objeo quanto a passarmos algum tempo l? Voc sabe o quanto eu gosto de Cathlamet! Fiquei com o corao partido quando descobri que meu pai 
no podia mais mant-la... Alexis, por que ento no a vendeu imediatamente, j que no pretendia viver l? Voc a conservou como um trunfo, s para que eu me casasse 
com voc? Isso  tudo o que Cathlamet representa para voc?
Alexis deu uma longa baforada no charuto e olhou-a angustiado. De repente, enfiou a mo no bolso do palet e tirou de dentro dele um envelope.
- E melhor voc dar uma olhada nisso.
Beth pegou o envelope onde havia uma comunicao via telex. A mensagem estava escrita em grego, mas uma palavra se destacava: Cathlamet.
Seu olhar voltou-se rapidamente para o rosto de Alexis, envolto em fumaa.
- Por favor, traduza isso para mim.
- Antes disso, Beth, sugiro que voc tome um conhaque. - Com o charuto preso nos dentes, Alexis foi at o bar e serviu conhaque para os dois.
Beth pegou o seu copo com a mo esquerda, enquanto ainda segurava o telex com a outra mo.
- Agora diga - murmurou ela, sem esconder a ansiedade que sentia.
Alexis encarou-a e no fez meno de pegar de volta o telex.
- J sei as palavras de cor - disse. - A diz que Cathlamet foi destruda por um incndio... e que muito pouca coisa da casa ficou de p.
Ela no acreditou no que ouviu. Aquilo no podia ser verdade! Cathlamet tinha feito parte de sua vida desde o dia em que ela nascera. No inverno e no vero, em todas 
as estaes, ela sempre se mantivera forte e indestrutvel. Ficava um pouco acima da aldeia de Wychley, cuja estrada levava at o Cinturo de Carvalho, a velha hospedagem 
local que funcionava em frente s casas de pedras. Algumas delas eram revestidas de pedras arredondadas, o que dava um contraste bem pitoresco. A prpria rua era 
asfaltada com pedras planas e lisas e as caladas, bem estreitas. Numa antiga igreja normanda, construda com pedras escuras, vrias lojas funcionavam.
Ela caminhara tantas vezes por l, passando pela Charneca de Hedda e depois pela tradicional tecelagem de janelas de vidro fosco e paredes guarnecidas com madeira. 
O jardim pblico da aldeia era florido de calndulas e todo vero ela ia apanhar um punhado delas para levar para casa, porque o jardineiro de Cathlamet no permitia 
que elas crescessem l.
- No... - Ela sacudiu a cabea. - Como Cathlamet pde se incendiar?
Alexis apagou o charuto e sentou-se ao lado dela.
- Vamos, moiya, tome o conhaque. Ele lhe far bem.
Mas os pensamentos de Beth estavam distantes de Alexis. Vagavam novamente pela casa onde passara os primeiros anos de sua vida. Como aquele piso de carvalho cor 
de mel podia ter virado cinzas, juntamente com as janelas de vidros coloridos que retratavam os lendrios soldados e amantes da famlia St. Cyr? E os trabalhos de 
entalhe em madeira, os bancos antigos, as cadeiras de couro com encosto alto? Ela no podia acreditar que aquelas portas altas no se abririam mais exibindo as salas 
amplas, onde cortinas de brocado cor de marfim pendiam das janelas.
- No pode ser! - Seus olhos imploraram para que ele dissesse que tudo no passara de uma brincadeira, que logo iria lev-la de volta a Cathlamet. Mas, ao invs 
disso, Alexis colocou o copo de conhaque nos seus lbios e obrigou-a a beb-lo.
- A casa est destruda - ele disse, sustentando o seu olhar - Pela informao que recebi, s restaram algumas paredes em p...
Beth estremeceu novamente.
- Como os monumentos gregos?
- Receio que sim, Beth. - Ele a fez tomar mais um pouco de conhaque.
- Quando foi que isso aconteceu, Alexis? Como?
Ele explicou que os materiais de pintura tinham sido os responsveis pelo incndio, provocado, ao que tudo indicava, por uma ponta de cigarro esquecida acesa no 
depsito de materiais.
- Mas a companhia de seguros descobrir a causa verdadeira - finalizou ele, tomando o resto do conhaque que tinha no copo.
Enquanto o choque da notcia se espalhava por seu corpo, Beth estudava o telex, com os olhos presos na nica palavra que ela compreendia: Cathlamet.
Quando a imagem do incndio dominou sua mente, um forte estremecimento sacudiu-a.
- Quando foi que voc recebeu... isto? - Ela dirigiu a Alxis um olhar desolador. - A notcia veio pelo caque, junto com sua correspondncia?
Ele pareceu hesitar.
- Eu a recebi no hotel, na manh do dia do nosso casamento. Beth absorveu aquelas palavras, e de repente sentiu como se o fogo a estivesse consumindo tambm.
- Por que no me contou? Eu tinha o direito de saber!
- Fiquei preocupado...
- Preocupado com qu, Alexis? - Ela fixou os olhos no rosto dele. - Voc achou que eu seria capaz de desistir do nosso casamento?
- Havia essa possibilidade - ele admitiu. - Sei muito bem que Cathlamet foi uma das razes pelas quais voc se casou comigo.
- Realmente, isso  verdade.
Beth sentiu necessidade de descarregar toda a sua frustrao sobre ele. A dor que experimentava no tinha nenhuma relao com a raiva que sentira quando a casa fora 
parar nas mos de Alexis. Na poca, ele era um desconhecido, mas agora estava mais perto dela do que nunca e entretanto no fora capaz de confiar-lhe aquela tragdia 
no dia do casamento. Ele ficara a seu lado, no altar da igreja grega, com o horrvel telex guardado no bolso, durante toda a cerimnia.
- Sim, Alexis, eu no teria mais nenhum motivo para me casar com voc - ela disse friamente. - Meu irmo estava fora de seu alcance, e voc sabia muito bem que, 
se tivesse me mostrado o telex, eu por certo no teria me casado com voc. Mas isso iria atrapalhar todos os seus planos, no ? A sua me e os amigos no iriam 
compreender o motivo de sua noiva inglesa ter ficado to transtornada por causa da destruio de uma casa de vrios sculos...
- Pare com isso, Beth! - Ele estendeu a mo para toc-la, e ela a empurrou num acesso de raiva.
- Voc s pensa em si mesmo... no seu odioso senso de philotimo! Respeito prprio, cabea erguida, amor  honra. Isso  o que importa para voc, no , Alexis?
Ele concordou.
- Sim, . Mas no vi nenhuma vantagem em estragar tudo. Sabia muito bem o quanto aquela casa significava para voc, porm, um dia, todos ns temos que crescer, Beth. 
Era hora de voc se tornar minha esposa, de viver sua vida como uma mulher adulta. Embora o fato de Cathlamet perecer nas chamas tenha sido trgico, compreendi que 
isso havia sido decretado pelo destino.
Beth olhou-o fixamente, as palavras de Alexis servindo como combustvel para intensificar a indignao que ardia dentro de si.
- Por acaso no foi voc mesmo quem mandou incendiar a casa? - ela perguntou, gritando, descontrolada.
Alexis ficou com a respirao suspensa e fechou a mo com fora em volta do copo, at as juntas de seus dedos ficarem brancas. O silncio que se seguiu s foi interrompido 
quando ele atirou com raiva o copo no cho.
- Como se atreve a insinuar uma coisa dessas?
Beth sentiu-se momentaneamente assustada com a expresso de dio do rosto dele, mas procurou no recuar.
- Voc pode me recriminar por pensar assim? - perguntou em tom de desafio. - Essa seria uma maneira de voc me manter aqui na Grcia.
- O incndio que destruiu Cathlamet no foi proposital. - Ele ainda estava com uma expresso sombria. - A reforma estava adiantada porque eu pretendia que ficssemos 
l sempre que eu pudesse passar algum tempo na Inglaterra. Eu imaginava que soubesse que a maior parte de meus negcios se encontra aqui em meu pas. Ns nunca poderamos 
morar permanentemente em Cathlamet, mas ela poderia ter sido a nossa casa de frias. Esta  a verdade.
Um senso de justia dizia a Beth que ele estava falando a verdade, mas isso no aliviou seus sentimentos, nem aplacou a fria que sentia por ele no lhe ter falado 
nada sobre o incndio.
- Voc no tinha o direito de esconder isso de mim! - disse ela, levantando-se do sof e afastando-se dele. - Eu nasci l, Alexis. Cresci em Cathlamet e adorava 
cada canto daquela casa. Como o incndio deve ter aterrorizado os habitantes da aldeia! Deus, no suporto nem pensar nisso!
Ela enterrou o rosto entre as mos e Alexis aproximou-se, mas sem toc-la.
- Talvez eu tenha errado em no lhe contar, Beth. Mas, falando com sinceridade, tive as minhas razes para isso. H um provrbio grego que diz: "Existem coisas que 
so to perigosas que no devem ser faladas". E foi isso o que pensei na manh do dia do nosso casamento.
Ele respirou profunda e fortemente.
- O fato de eu receber a notcia naquela manh foi como um pressgio. Era algo perigoso demais para se falar, e eu tive que esperar at que fosse seguro faz-lo.
- Seguro? - Beth tirou as mos do rosto e encarou-o. - O que voc quer dizer com seguro, Alexis? E ter esperado at que eu chegasse  ilha? Depois que tivesse me 
levado para a cama?
- Ah, Beth - ele murmurou, quase num lamento. - Isso no  maneira de falar sobre o que houve entre ns. 
- Sobre a nossa noite de amor? - ela perguntou cinicamente. - No creio que a destruio de Cathlamet tenha estado em sua mente durante um momento sequer daquela 
noite. Afinal, mais uma vez voc tinha atingido um de seus objetivos. E foi a isso que dedicou toda a sua vida, no? Acontea o que acontecer, voc sempre procurar 
se vingar do desprezo que recebeu quando criana. O que pretende mostrar  que se fez sozinho, partindo do nada, tomando por esposa a filha de um nobre a quem ajudou 
a arruinar.
- Droga, isso no  verdade! - Ele olhou furioso para ela, prestes a perder o controle. - Seu pai era um jogador insacivel, impelido a destruir no apenas a si 
mesmo como tambm queles que deveria proteger. Ele foi acumulando dvidas no Clube Cassandra e, quando finalmente me recusei a continuar bancando o jogo, ele foi 
para outra casa de jogos e continuou jogando at no restar um nico tijolo de Cathlamet para ser empenhado. Recuperei os ttulos de propriedade da pessoa que tinha 
ficado com eles.
Alexis fez uma pausa e passou a mo nos cabelos negros, despenteando-os. - Sim, moiya, quando eu a vi pela primeira vez, voc estava perto dos estbulos, treinando 
um cavalo jovem, segurando-o por uma rdea comprida. Era um potro de plo escuro que corria em sua volta, em grandes crculos. Voc no reparou em mim, porque estava 
totalmente concentrada naquilo que estava fazendo. Entrei em sua casa com a inteno de devolver aqueles ttulos de Cathlamet, mas seu pai estava bbado, e eu ento 
tive a certeza de que seu lar iria parar de novo nas mos de um proprietrio de clube...
Ele fez outra pausa e prosseguiu:
- Ah, sim, eu sou um proprietrio de clube, Beth, mas tenho os meus princpios de honra, apesar de voc achar o contrrio. Quando nos encontramos no hall de Cathlamet 
eu era o senhor da casa,  verdade. A partir daquele momento vocs passaram a ser sustentados por mim... Mas no porque eu me sentisse satisfeito por estar por cima 
de um cavalheiro ingls arruinado! Eu desprezava a falta de carter dele, mas no senti nenhum prazer em assistir  sua deteriorao. E naquele momento mesmo decidi 
que no ia permitir que ele arruinasse tambm a sua vida, Beth.
- Mas que nobreza de carter, Alexis!
Eles se fitaram, como se estivessem novamente na casa que ele havia tomado para si. Beth sentiu uma onda de tristeza e de pesar invadindo-a. No havia mais nada 
no mundo que pudesse considerar como seu. Ela no passava de uma esposa que Alexis havia comprado.
Olhou para Alexis e viu seu rosto mais fechado do que nunca, como se todos os msculos fossem de ferro. No notou naquele semblante nenhuma solidariedade pelo desaparecimento 
de Cathlamet. De repente, no se conteve mais e o esbofeteou duas vezes no rosto, deixando-lhe marcas profundas nas faces.
- Voc acha que o dinheiro pode comprar tudo... que ele pode compensar a perda de tudo o que  querido a algum! Cathlamet era importante para mim, e... e voc fica 
a como... como se s um estbulo tivesse pegado fogo, e no a minha casa!
- Sua casa? - ele repetiu. - Voc me disse em Londres que depois que a casa caiu em minhas mos voc deixou de consider-la parte de sua vida.
- Isso foi antes de eu... - Ela mordeu com fora o lbio inferior.
- Antes de voc se casar comigo - ele complementou ironicamente. - Mas, quando se tornou minha esposa, aquela casa grande e maravilhosa voltou a ser de vital importncia 
para voc... Puxa, mas como voc  criana! Ser que no aprendeu nada sobre a vida durante as horas que passamos juntos?
- Sim - ela respondeu em tom de desafio. - Compreendi que voc s se importa com o meu corpo! Voc no liga a mnima por eu... por eu estar sofrendo tanto com o 
que aconteceu a Cathlamet!
- Claro que eu me importo...
- Por causa dos prejuzos? Voc pagou um preo alto por mim, no foi Alexis? Por certo almeja obter lucro com cada centavo de dracma que desembolsou. Por isso deve 
estar furioso com a perda de Cathlamet.
- Sim. Estou mesmo furioso! - Com os dentes cerrados, Alxis se aproximou dela. Beth recuou, sentindo um certo pnico ao se dar conta do que havia falado. Mas ele 
bem que merecia ouvir tudo aquilo, disse a si mesma enquanto continuava a recuar.
- Se tivesse as lembranas que tenho de uma casa como a em que cresci, voc certamente se mostraria mais compreensivo - Beth disse com a inteno de feri-lo. - Mas 
voc nasceu no campo. Portanto,  incapaz de entender um sentimento como o meu!
Um silncio pesado se seguiu s suas palavras. Um silncio que precisava ser quebrado com palavras ofensivas. Mas ela preferiu sair correndo!
CAPTULO XII

Com o corao batendo disparado, Beth subiu a escada e foi para o quarto. Caiu num choro convulsivo, jogando-se na cama.
Teve a impresso de ter chorado horas a fio. Quando pareceu que as lgrimas tinham se esgotado, ela percebeu que o desejo violento de esbofetear Alexis tinha desaparecido 
por completo, uma paz estranha a invadia.
Ao colocar-se de p, sentia-se fraca e sem foras nas pernas. Precisou se esforar para se trocar e ir ao banheiro lavar o rosto manchado. Era como se aquele choro 
a tivesse lavado por dentro, livrando-a de todas as tristezas por que tinha passado na vida, como se todo aquele tempo elas tivessem se acumulado dentro dela,  
espera da hora de serem liberadas. Ela agora estava livre de qualquer compromisso. Com o incndio, o dbito com Alexis tinha sido quitado.
Ao voltar para o quarto viu que algum havia trazido uma bandeja com um bule de ch, uma xcara, creme, acar e biscoitos.
Ainda trmula, encheu a xcara de ch e o adoou bem. O lquido quente ajudou-a a se acalmar um pouco, e ela se sentou numa poltrona, com os olhos ardendo por causa 
do choro. Atravs da janela aberta, admirou a propriedade de Alexis, da qual tambm fazia parte. Sim, ela no passava de uma propriedade que ele gostava de ver ornada 
com rendas e seda, para agrado de seus olhos e satisfao de seu corpo.
As lgrimas comearam a voltar, mas Beth fez um esforo para cont-las, tomando grandes goles de ch. Muito melhor que chorar seria elaborar um plano de ao para 
sair daquela ilha.
Pedir a Alexis que a deixasse ir, em termos civilizados seria intil. Isso s serviria para deix-lo alerta quanto ao que ela tinha em mente. Embora provavelmente 
ele desconfiasse que ela pretendia ir embora, ele contava com o seu pessoal para impedi-la j que isso s era possvel de barco.
Mas Beth tinha uma carta escondida na manga. Ela sabia do ressentimento que Aspsia sentia por ela, e o utilizaria em benefcio prprio. Ainda bem que no havia 
mencionado a Alexis a suspeita de que a criada a estava espionando, observando-a como um gato observa um camundongo, enquanto espera o momento de dar o bote.
Depois que terminou de tomar o ch, juntou algumas coisas que seriam necessrias para a partida. Colocou numa bolsa uma troca de roupas ntimas e uma blusa, e verificou 
se havia dinheiro suficiente na carteira. A seguir, escondeu a bolsa entre as roupas do armrio e abriu a porta do quarto, bem devagar.
No havia ningum no corredor. Ela sabia que Alexis a deixaria sozinha para que pudesse chorar  vontade, por isso no daria por sua falta.
Andando p ante p, tomou o rumo do quarto de Aspsia, que ficava no andar superior.
Bateu levemente na porta e logo depois a criada apareceu, atando o cinto do robe. Seus cabelos escuros estavam soltos, e o rosa-plido que usava a fazia parecer 
mais amigvel e suave.
Mas Beth no podia se deixar enganar. J havia se defrontado com a verdadeira Aspsia. Sem dvida, ela era a pessoa a quem devia se dirigir, caso quisesse mesmo 
sair de Dovima.
- Deseja alguma coisa, senhora?
- Sim... Posso entrar? No quero ser vista.
Os olhos de Aspsia se aguaram no mesmo instante e ela escancarou a porta para que Beth pudesse entrar. Fechou-a logo em seguida e ficou de p, de costas para ela, 
com o olhar inquiridor fixo na patroa.
- Quero ir para o continente amanh de manh - Beth procurou falar com naturalidade. - Voc pode arranjar algum que possa me levar? Tenho dinheiro e lhe pagarei 
uma boa quantia.
Aspsia no se mostrou surpresa com o pedido. Apenas olhou Beth de cima a baixo, com frieza.
- Por que quer partir, kyria! - perguntou com um brilho insolente nos olhos, como se soubesse da cena que se passara na sala. - No gosta de estar casada com o kyrios!
- Isso no vem ao caso...
Beth fez um esforo para controlar a antipatia que sentia por Aspsia. Sentia-se desconfortvel por precisar da ajuda dela para abandonar Alexis.
- Ningum v com bons olhos a minha permanncia por aqui, inclusive madame Apollonaris. Portanto, voc no corre nenhum perigo, ningum suspeitaria de voc, pois 
 de confiana.
- O casamento dele com a senhora a desagradou muito. - Aspsia enfiou a mo no bolso do robe e tirou um mao de cigarros e um isqueiro. Com os olhos fixos em Beth, 
colocou um cigarro entre os lbios, acendeu-o e soprou a fumaa sobre ela. - Teve uma grande discusso com ele, no foi?
Beth recusou-se a responder. A mulher sorriu sarcasticamente e soprou mais fumaa no ar. Beth estava a ponto de empurrar Aspsia para o lado e voltar correndo para 
o seu quarto, quando a criada deu um passo ameaador em sua direo.
- A senhora discute com o kyrios como uma criana caprichosa. Tem muita sorte por ele conter a mo e no lhe ensinar que a obrigao da esposa  agradar o seu homem. 
A senhora no o merece!
- E voc s presta para bisbilhotar as conversas alheias e espionar as pessoas. Deixe-me sair daqui...
- A senhora no quer sair da ilha? Posso fazer com que um amigo meu a leve daqui... - Aspsia tragou com fora o cigarro. - Amanh, hein?
- Cedo? Sem que meu marido saiba?
- Meu amigo far tudo que eu pedir. A senhora o viu no caque quando veio para Dovma.
- Ele  um dos marinheiros?
- Ne, madame.
O sorriso cnico de Aspsia forneceu a Beth a resposta que ela estava procurando.
- Entendo! - exclamou ela, recuando involuntariamente. - Ento, a me de kyrios me odeia tanto assim?...
- A me de kyrios no precisou me dizer nada a respeito do que sente pela senhora. - Aspsia bateu a cinza do cigarro. - Eu sei dos seus sentimentos porque tambm 
compartilho deles... Imagine se uma virgenzinha branca e frgil poderia satisfazer os desejos de um homem como o kyrios! Que disparate! Ele tem mesmo zoikos, porque 
 um homem que se destaca dos outros. Tudo teria terminado rpida e definidamente se ele no tivesse sentido o mpeto corajoso de se atirar na gua para salv-la. 
Kristos me contou que a senhora parecia um gato semi-afogado, com o vestido de noiva estragado e os cabelos repletos de algas marinhas!
Aspsia desatou a rir e Beth sentiu um arrepio de medo, como uma advertncia de que estava de novo correndo perigo de vida. A bordo do Stella Maris esse sexto sentido 
no tinha funcionado. Atordoada com o vinho e todo o ritual do casamento, nem tinha percebido quando uma mo, suspensa  altura de seu ombro a empurrara por cima 
da amurada para o mar. Mas agora os seus pensamentos, claros como um cristal, a aconselhavam a sair daquele quarto o mais rpido possvel.
Quando ela procurou alcanar a maaneta da porta, Aspsia saltou sobre ela e agarrou-a pelos cabelos, puxando-os com tanta fora que Beth gritou de dor.
- No grite de novo. - Aspsia aproximou a brasa do cigarro no rosto dela. - Eu bem que gostaria de queimar a sua bela pele, mas isso despertaria suspeitas quando 
fosse encontrada nos rochedos que ficam abaixo da vila. Sim, kyria, meu amigo a ajudar a fugir do kyrios. S que ser para sempre. Todos os que comparecerem ao 
funeral sentiro muita pena da moa inglesa que caiu do penhasco na lua-de-mel!
Aspsia riu de novo e deu outro puxo nos cabelos de Beth.
- No haver nenhuma suspeita, kyria. Todos se lembraro que no caque a senhora teve uma tontura e caiu no mar.
- O que vai ganhar com isso?
Certa de que a mulher era louca, Beth achou melhor mant-la falando. Pessoas como ela gostavam de falar sobre si mesmas.
- O kyrios logicamente ficar muito triste e precisar de algum que o console pela perda da jovem esposa. A me dele gosta muito de mim, sabia? Por ela, teria sido 
eu a mulher escolhida para se casar com seu filho. - Enquanto falava, Aspsia olhou para o cigarro, e levou-o aos lbios para dar a ltima tragada. - O kyrios  
um homem rico, mas no pertence  aristocracia, no  mesmo? A me dele agora vive com todo o conforto, mas j foi pastora de cabras. Ento, por que no posso ser 
boa o suficiente para ele?
- Sem dvida, voc est  altura dele - Beth falou com cautela. - Voc foi muito inteligente ao fingir que conhecia muito pouco o ingls. Na verdade, voc fala muito 
bem a minha lngua.
- Sei disso. - Aspsia sorriu e examinou com desdm o rosto de Beth, tenso pelo medo e contorcido pela dor que ela sentia na raiz dos cabelos. - A senhora no tem 
nenhuma dificuldade em me entender, tem?
Beth s podia rezar para que Alexis viesse  sua procura e descobrisse que ela estava ali, literalmente nas garras de Aspsia.
- Como eu queria aprender ingls, a me do kyrios providenciou para que eu tivesse aulas. - Aspsia olhou mais uma vez para o cigarro, que tinha chegado ao fim. 
- Por que eu no teria direito de ser ambiciosa? Tenho boa aparncia e meus cabelos so to bonitos quanto os seus!
- Por favor, me largue. Se o seu amigo me levar at o continente, prometo que vocs nunca mais ouviro falar de mim...
- O kyrios sairia  sua procura. - Com um gesto nervoso, Aspsia jogou fora o cigarro apagado e tentou tirar com a mo livre um outro de dentro do mao, no bolso 
do robe. Quando sentiu afrouxar-se a presso em seus cabelos, Beth no hesitou, puxou a cabea com fora, soltando-se e acertou um golpe no nariz da criada.
Aspsia gritou de dor e Beth abriu a porta e saiu correndo do quarto, gritando o nome de Alexis.
Beth nunca se esqueceria da alegria que sentiu ao v-lo subir correndo a escada em sua direo. Nem da segurana que a confortou quando ele a segurou como se nenhum 
bem lhe fosse to caro na vida.
Num instante, todos os criados se juntaram em volta deles, e Beth contou desarticuladamente o que tinha acontecido. Alexis deixou-a com o mordomo e foi imediatamente 
 procura de Aspsia.
Ao ver a indignao dele, dissiparam-se, de uma vez por todas, as dvidas que Beth alimentava quanto ao amor do marido. Desta vez as lgrimas que lhe escorreram 
pelas faces foram de alvio e alegria. Ela entendeu perfeitamente bem por que Alexis ainda estava encolerizado quando a polcia partiu numa lancha, levando Aspsia 
e o marinheiro Kristos.
Na manh seguinte, no quarto, ele ficou andando de um lado para outro, como se fosse uma pantera enjaulada. Queria saber por que ela havia ousado pensar em fugir 
dele.
- Nunca acreditei que voc chegasse a esse ponto - ele rosnou.
- Por que no? - Enrodilhada na cama, Beth olhava-o, com a luz maravilhosa do amor brilhando em seus olhos acinzentados.
- Porque voc sabe to bem quanto eu que pertencemos um ao outro e que essas briguinhas bobas por causa de tijolos, ardsias e pedras jamais podero nos separar. 
Ao correr na minha direo, no patamar da escada, voc estava procurando desesperada a sua outra metade, voc no entende isso? Quando a tomei nos braos moiya, 
eu a tomei em meu corao. E espero fazer isso dia e noite, durante muitos e muitos anos, se os deuses nos concederem um longo tempo de vida.
- Mas voc nunca me disse isso. Eu... no sei ler as mentes das pessoas, apesar de ter trabalhado com madame Lilian.
- Realmente, voc vai ter que aprender grego. - Ele se aproximou dela e a pegou nos braos, como se ela fosse uma criana. - Quando a seguro em meus braos e lhe 
falo de amor, eu o fao em grego... Falo em grego, sem pensar. Se eu a amo? Claro que amo! Desde que a vi pela primeira vez, com o sol cintilando, como agora, em 
seus lindos cabelos.
Os braos dele se apertaram em volta dela, possessivamente.
- Empreguei o seu irmo em meu clube para que houvesse alguma ligao entre ns. E no porque eu quisesse, como voc afirmou, que ele me roubasse. Como ele era seu 
irmo, pedhakimou, pensei que fosse um sujeito de bom carter. Todos ns podemos nos enganar em alguma coisa, no ?
Beth pressionou o rosto contra o pescoo dele e o beijou.
- Alexis, acha realmente que eu teria desistido de voc se me contasse que Cathlamet tinha se incendiado? - Depois de todas as tempestades emocionais, Beth estava 
se sentindo completamente em paz.
- Esse era um risco que eu no queria correr de jeito algum. Eu no ia permitir que nada se interpusesse entre ns no dia do nosso casamento... nada!
- Nem mesmo a desaprovao de sua me quanto a mim?
- Minha me acabar por aceit-la. Alis, no acredito que ela tenha encorajado Aspsia a prejudic-la. - Alexis olhou-a no fundo dos olhos, como se precisasse eliminar 
a ltima sombra que ainda pairava entre eles. - Minha me  uma mulher religiosa e nunca teria nos acompanhado  igreja se nutrisse uma verdadeira averso por voc.
Beth acreditou nele. Finalmente, acreditou que a felicidade que compartilhavam quando estavam na companhia um do outro era integral, preenchendo cada minuto dos 
seus dias.
- Eu te amo - ele disse em ingls. - Logo voc vai aprender a minha lngua e compreender o que digo quando fizemos amor. No fundo, sempre serei um grego, mas quando 
tivermos um filho, quero que ele tenha o charme dessa inglesinha encantadora - ele cochichou ao seu ouvido.
Beth sorriu. Eles sempre se lembrariam da maneira como ela tinha corrido para os braos dele, liberta da garota tola que procurava fantasmas do passado nas runas 
de Cathlamet.
Alexis era agora o seu abrigo, forte e indestrutvel.



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